MÚSICA

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Fotografias: FCG/Márcia Lessa.

Marc Ribot não costuma precisar de apresentações, mas para os mais desatentos, este músico nascido em New Jersey é um dos guitarristas mais prolífero e conciliador da música do século XX.

Ribot destacou-se como músico de sessão, acompanhado nomes como Tom Waits e Elvis Costello e até os nossos Dead Combo no álbum Lisboa Mulata. Fez também parte dos Lounge Lizards de John Lurie e Arto Lindsay e é membro assíduo dos Electric Masada de John Zorn. De músico de sessão a compositor, Marc Ribot deixa bem marcado o seu cunho pessoal e daí resultam músicas às quais podemos com facilidade associar o seu nome.

No entanto, foi com os Ceramic Dog que Marc Ribot se apresentou no passado Domingo em mais um ciclo de Jazz em Agosto na Gulbenkian. Ceramic Dog é um trio (composto por Marc Ribot – guitarra –, Ches Smith – bateria/programações – e o multi-instrumentista Shahzad Ismaily – baixo/guitarra/percussão) ao qual dificilmente poderemos atribuir um único género musical. O anfiteatro da Gulbenkian foi palco de três músicos que sabem muito bem o que fazem e que o fazem nitidamente há muito tempo, sem no entanto os elevar a prodígios. Isto porque os Ceramic Dog cortam essa tendência com a introdução de musicalidades associadas ao movimento Do it Yourself, ao Punk, à New e No wave, Funk e sons mais "primitivos" como o Blues clássico. Não perde contudo a circularidade do Jazz e do Psicadelismo mais setenteiro.

Marc Ribot inicia o espectáculo apresentando aqueles que o vão acompanhar em quase duas horas de concerto. Retoma assim uma tradição que o Rock perdeu mas o Jazz não, em que há uma espécie de ante-visão de um espectáculo despido de subterfúgios.

Ches Smith, baterista brilhante e também entusiasta de programações, mostrou o quão psicanalítica pode uma relação com um instrumento ser. Jimi Hendrix já o tinha conseguido com uma guitarra e Smith concretiza com instrumentalizações detalhadas e pensadas ao pormenor ínfimo da audição humana. Tanto lambe os dedos para conseguir a aderência da tarola personificada num ritmo tribal como tonifica em modo "hardcore" todos os membros que compõem o instrumento para o qual nasceu.

Ismaily, grande motor da secção rítmica, ondulou a banda com as suas linhas de baixo, linhas ténues e permeáveis que mostraram um músico com elasticidade mais que suficiente para saltar as escalas da música do mundo sem nunca perder as rédeas.

Tocou-se o tema Take Five de Dave Brubeck desta vez com uma roupagem menos burgesa e passa-se quase de seguida para o tema Master of the Internet. Ribot canta como um punk, Ismaily fornece os coros igualmente enfurecidos.

Discurso Punk e politizado à parte, os Ceramic Dog são capazes de partir a loiça, mas partem com cuidado e requinte. Prova disso foi a versão que fizeram de um tema de Serge Gainsbourg, La Noyée, em modo "lullaby anglo saxónico", que deixou margem para uma certa prostração deliberada do público. Mas os músicos reservaram o direito de o acordar com rudeza, intepretando  Lies my body told me. Poderio Heavy-Rock clássico com pózinhos da década de 90.

Ribot mostrou que mostra há muito tempo. Incapacidade de se ver estanque num único registo. Daí não ser um músico mainstream. A uma dada altura pede que as luzes em palco estejam sempre acesas, talvez com o intuito de deixar claro que os Ceramic Dog são uma banda com direcção, mas que pelo caminho decidem ziguezaguear sem que com isso percam o leitmotiv.  

Parte dos dois álbuns que integram a discografia dos Ceramic Dog (Party Intellectuals de 2008 e You turn de 2013)

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