DIÁRIOS DO UMBIGO

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Deviam ser umas cinco da tarde, que isto do tempo é sempre relativo. Descansado, bebericando o meu primeiro gin do dia e pondo-me ao fresco, que o tempo estava bom para cozinhar sem carvão. O telefone toca. Era a Elsa. Diz que toda a gente adorou aquela reportagem que fiz da galeria de arte. Qual reportagem, aquela que eu inventei? Como tal, apresenta-me novo desafio, fazer a cobertura de um festival de verão.

Eu já não tenho idade para essas coisas, disse-lhe. O último disco que comprei deve ter sido em 1989. Mas eu não consigo dizer que não à Elsa. Bebo o resto do gin de um trago e vou preparar outro.

Primeiro Dia, o Reconhecimento

Chego a Algés de comboio e noto já uma atmosfera de qualquer coisa no ar. Jovens amontoam-se aos cantos, deliciam-se com refeições de comida rápida e cerveja, que depois é esquecida em garrafas pelos cantos. Sigo o percurso indicado e consigo levantar o penduricalho que me irá dar acesso ao recinto, pulseira de plástico e tudo, a destoar do meu banal relógio.

Uma vista de olhos pelo espaço e observo a pequena multidão que começa a chegar lentamente. Miúdas giras envergando calções tão curtos que o rabo consegue espreitar a luz do dia, ou o que resta dela, já que o céu está tão cinzento como a minha alma de escritor transformado em repórter de música. Não fosse um ou outro casal mais velho e julgava-me numa escola secundária, mas já se sabe que esta coisa dos festivais é para os jovens.

Findo o reconhecimento, dirijo-me para uma barraca de uma marca de cerveja e peço um gin. A rapariga olha-me como se estivesse a falar com um fantasma. Diz que não há. Olho-a nos olhos e rio-me, deve estar a brincar.

Não estava. Só há cerveja. E ainda por cima Heineken. Senti o mundo a morrer-me aos pés. Que faço eu no meio desta criançada sem um gin para aquecer-me a alma? Sento-me no meio do chão e faço contas à vida, decidido a acabar tudo e ir-me embora. Mas há uma voz dentro de mim que me acusa de cobardia e decido continuar. Venha de lá essa água com gás a fingir de cerveja, então.

Dois euros mais pobre e de cigarro na mão, que isto aqui tudo é permitido, dirijo-me para um dos palcos, aquele com um ecrán cá fora. Lá dentro toca um tal de Jamie N Commons, um blues barra pop competente, voz solene e groove acertado. Vejo as últimas músicas e, refeito do choque de há pouco, atiro o copo vazio para um caixote do lixo e saio, tropeçando num grupo de miúdas atarefadas a tirar fotografias a elas próprias e aproveito para mirar os contornos de mais umas pernas bem torneadas.

Olho para o penduricalho ao pescoço e reparo nos horários, no palco principal estará a tocar Stereophonics. Inicio a caminhada e detenho-me a meio da barraca central onde está um puto a brincar aos computadores para deleite de uma pequena multidão. Era Gold Panda, mas de dourado não tinha nada, parecia um regurgitar de batidas recicladas de uma máquina à espera do juízo final. A cerveja começou a dar-me voltas ao estômago.

2

Sexo em Pó

Chego ao palco principal que já se encontrava composto mas aquela música não me disse nada e, sem mais que fazer, decido fazer o caminho ao contrário. Mais magro que isto não fico portanto venha de lá o exercício.

Ia parar naquele palco do meio mas ao fundo algo desperta a minha atenção e começo a caminhar mais depressa. No último palco tocam duas miúdas practicamente despidas, e isso é sempre bom sinal. Lá dentro levo uma pedrada em cheio na tromba. A baterista dá uma sova monumental no seu instrumento enquanto que a guitarrista-vocalista grita, qual Janis Joplin, definhando a guitarra como se o fim do mundo fosse agora. Sexo em forma de hard blues, rock de herança Led Zep com uma agressividade animal tão sexual que o sangue começa a pulsar-me nas veias. Aquela baterista encerra em si todas as minhas fantasias, ruiva de cabelo encaracolado, curvas de sonho, rock star, e eu desfaleço um pouco.

A loira vocalista, californiana descalça de curvas mágicas e guitarra junto ao peito, pergunta às tantas se aqueles chapéus laranjas que muitos envergam são uma tradição portuguesa. São apenas uma parvoíce inventada pelo patrocinador, digo em voz alta, mas o que queria mesmo era recitar-lhe o meu número de telefone.

Dou por mim a gingar a anca e a salivar, e no final do concerto fico ainda uns minutos no recinto a fumar um cigarro pós-coital. Levei uma sova à antiga e nem sequer toquei naquelas miúdas da pesada. Volto até ao palco grande mas ao longe nos ecráns estão três tipos feios de peito ao fresco e eu não queria estragar o momento com essa aberração.

Volto costas rapidamente e páro finalmente naquele palco do meio que, vim a descobrir, se chama Clubbing. Porque é que não se chama palco Pista de Dança?

Não estava ainda refeito do concerto anterior quando no palco uma menina tão elegante como um por-do-sol nas caraíbas canta-me aos ouvidos com uma voz doce, acompanhada por três rapazes que debitam uma espécie de R&B sensual, esotérico, e o meu pesadelo continua. AlunaGeorge embala-me o desejo carnal com aquela voz tão delicada e eu continuo de pau feito.

Nem dei pelo concerto acabar, tão absorto que estava naquela música açucarada, lenta o suficiente para não ser chata, personificada numa deusa mulata que, circunstâncias o permitissem, me faria por a aliança num piscar de olhos.

Um Combo Para a Sobremesa

Decidi que estava na altura de jantar, depois de duas sessões de sexo tântrico. Não há muita escolha, entre bifanas, batatas-fritas, cachorros, pitas (shoarma) e pão com chouriço. Decidi por uma bifana, com outra cerveja a fingir para acompanhar. Bifana numa mão, credencial ao peito e cerveja na outra mão, a trindade está completa. Vou até ao palco do fundo, chamado de Heineken (imaginação infinita...) porque estão a tocar os Dead Combo.

Com um baterista na formação, a agora tripla desfila a alma portuguesa em mil e um instrumentos, com Tó Trips e seu chapéu alto numa intensa relação de amor-ódio com a sua guitarra. O Pedro Gonçalves encarrega-se do resto, entre contrabaixo, piano e outras traquitanas. Soube-me bem o concerto deles para sobremesa, embora tenha reparado que o burburinho dentro do recinto era intenso. Parece que a malta está mais importada em usar os seus aparelhos telefónicos e a conversar que a ouvir música.

Findo o concerto, rumo ao palco grande para ver a banda que eles chamam de cabeça-de-cartaz. Eu lembro-me dos Green Day mas aquele pseudo-rock para teenagers borbulhentos americanos sempre me soou mal. Vejo duas músicas e confirmo que estes gajos armam-se em crianças quando têm idade para serem avôs. Um rapaz do público sobe ao palco para tocar uma música e, ao devolver a guitarra no fim, o vocalista de cabelo espetado ridículo oferece-lhe o instrumento, salvo seja.

A noite já vai cerrada e eu sinto que não vi grande coisa ainda. Aqueles dois concertos ao início foram-me suficientes. Depois disso tudo se tornou monótono. Vejo um bocado dos Disclosure no Clubbing e não me parece mal mas o som é demasiado formatado para as minhas papilas gostativas.

Deambulo pelo recinto a observar o grau de alcoolémia, sem perceber como é que esta juventude consegue embebedar-se com Heineken. Há uma aura de divertimento mas também de novo-riquismo e porreirismo, estou aqui olhem para mim, gastei umas notas para ver cinco minutos de cada banda.

1

Amanhã é outro dia

Sentado numa zona recôndita do festival escrevinho algumas notas e reflicto em jeito de primeira impressão, é agradável ouvir assim tanta música mas o que é muito tem sempre de muito pouco; ao final do dia não me lembrava que bandas tinha visto, com excepção de umas três ou quatro. A ilusão de escolha deve ser o que atrai esta juventude, numa era onde tudo é fácil e acessível, onde impera o umbiguismo tão bem demonstrado na quantidade de fotos que eu vi serem tiradas. Tudo o que é demais torna-se amargo rapidamente, mas eu espero pelo resto dos dias para afiar as minhas garras.

A caminho da saída dei uma olhadela no palco principal e quase morria. Um gajo meio asiático com barba e cabelo comprido debitava uma merda de um electro, ou lá o que é aquilo, tão mau que parecia que estava na feira da aldeia na zona dos carrinhos de choque. Ao chegar à estação de comboios invento um nome para aquela porcaria de "música": Merda.

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