DIÁRIOS DO UMBIGO

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Sair do Armário, Parte 2

Estou dentro de um armário algures num apartamento dos subúrbios. De boxers. A quarentona jeitosa que me trouxe para aqui está a conversar com alguém do outro lado.

Podia pensar em mil e uma coisas para estar a fazer a uma sexta-feira à noite mas nenhuma seria tão empolgante como esta.

Só aguardo o momento em que a porta se vai abrir e um homem gigante com músculos do tamanho do convento de Mafra aparece para transformar-me em polpa de tomate.

A porta abre-se muito devagarinho e quase que o gin se derrama pernas abaixo. Dois olhinhos pequenos fitam-me com curiosidade.

A porta entreabre-se mais um pouco e uma voz de criança pergunta-me: "Quem és tu?"

Limito-me a sorrir, tremendo que nem um pudim flan.

"Salvador, vai para o teu quarto!" grita uma voz masculina.

"Mas está aqui um senhor", responde o puto.

"Já para o teu quarto, e fecha a porta!" volta a gritar a voz.

O miúdo lança-me um último olhar e desaparece, deixando a porta do armário entreaberta.

"Onde é que ele está, Margarida?" pergunta a voz dele.

"Que ideia é essa, Martim? Não está cá ninguém!"

"Eu conheço-te muito bem, trouxeste novamente alguém cá para casa!"

"Que disparate, fui só sair com umas amigas!"

Estou feito ao bife. Se ao menos tivesse uma garrafinha a coisa seria mais suportável.

Silêncio. Silêncio infinito. É agora. Adeus mundo cruel.

Mas não é desta.

"Eu faço tudo por ti Margarida..."

"E eu só gosto de ti, Martim. Não há mais ninguém. Foi só daquela vez. Acreditas em mim não é?"

Devia estar a escrever isto, caso surja oportunidade de fazer uma telenovela para a SIC.

Pela fresta da porta do armário consigo vislumbrar o casal sentado na cama, abraçados, abençoados pela fraca luz de um candeeiro. Parece uma boa oportunidade para me por ao fresco.

Mas para isso preciso de vestir qualquer coisa primeiro.

Não foi difícil encontrar umas calças no armário, um bocado largas mas servem. Escolho a camisa que me parece de melhor qualidade, e visto-a com cerimónia sem fazer barulho.

Espreito novamente e o silêncio é soberano. Abro ligeiramente a porta com cuidado e saio pé ante pé, calculando cada passo como se na outra vida tivesse sido gato.

Olho de soslaio para a cama e os dois parecem ter adormecido. Que horas serão? Caminho lentamente sustendo a respiração. A porta está cada vez mais próxima.

Tropeço num par de sapatos e quase caio ao chão. Olho para a cama, aflito, mas ninguém parece ter acordado. Que alívio. Olha, são os meus ténis desbotados. Como é que foram aqui parar? Pego neles e calmamente saio, atravessando aquela sala gigante. Abro a porta da rua como se fosse um ladrão e no patamar calço os ténis enquanto aguardo o elevador. Sinto-me estúpido por estar a usar o elevador.

Entro no elevador e carrego no botão do rés-do-chão. As portas começam a fechar e ao longe vislumbro um vulto pequenino à entrada do apartamento. O tal Salvador diz-me adeus encoberto pelas sombras. Respondo-lhe com um sorriso e o elevador começa a descer calmamente.

Na rua deambulo à procura de um táxi, sem saber muito bem onde estou. Lembro-me entretanto que as minhas calças ficaram lá no apartamento e estou sem um euro que seja. Entro um bocadinho em pânico. Não devo estar assim tão longe de casa, talvez possa entrar num autocarro à polícia, sem pagar.

Desanimado, enfio as mãos nos bolsos e continuo a caminhar, ao longe um táxi está parado no semáforo. Dentro do bolso sinto uma textura familiar. Deve ser provavelmente um talão do multibanco com uma conta milionária. Não é.

É uma nota de 20 euros.

Dei graças a todos os santos por estas calças não terem ido para lavar. Corro para o táxi que já ia arrancar. O homem lança-me um olhar inquisidor e limito-me a dizer: "Campo de Ourique, se faz favor".

Fico com o troco, que poderá servir para o pequeno-almoço mais logo e dirijo-me triunfante à porta do meu prédio. Tiro a chave do bolso e... Merda. A chave também ficou nas calças...

Bem, não vou a esta hora chatear ninguém e ter que dar explicações, até porque para entrar pela varanda tinha que passar pela vizinha do lado e ela é pior que o Correio da Manhã. Sigo até ao Jardim da Parada e deito-me num banco tal qual um sem-abrigo. Os pássaros começam a entoar os primeiros cânticos da manhã e adormeço que nem um anjo.

Sou acordado horas depois por uma voz amiga.

"Por isso é que não abrias a porta de casa..."

Abro os olhos com dificuldade. É a Tânia.

Levanto-me o mais depressa que consigo, partindo umas costelas no processo. Estes bancos de jardim deviam ser mais acolchoados.

"O que estás aqui a fazer?"

"Isso pergunto-te eu, vim tomar o pequeno-almoço contigo. Trouxe pão e tudo. Ainda bem que passei aqui no jardim senão não te encontrava."

Olho-a nos olhos e tento inventar uma desculpa qualquer mas limito-me a sorrir.

Ela abana a cabeça e dá-me a mão, ajudando-me a levantar. O cheiro do pão fresco ajuda-me a acordar para a realidade. Isso e o toque das mãos desta miúda.

Já na minha rua começo a tremer novamente e fico especado a olhar a porta do prédio. Lembrei-me novamente que não tinha chaves.

Ela volta-se e olha-me com curiosidade. Do bolso tira uma chave e abre a porta do prédio sem cerimónias.

Mas como é que ela tem as chaves de minha casa? Ninguém tem as chaves da minha casa.

O melhor é nem perguntar, porque assim teria que lhe dizer que passei a noite em casa de outra mulher.

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