Quando acordas e o teu quarto está mais desarrumado que o costume e ao teu lado está uma jovem que dorme profundamente, nua, sabes que a coisa está a avançar demasiado depressa. Mas ao colocares os óculos embaciados e lentamente recuperares a noção da realidade apercebes-te que isto provavelmente vai só durar mais uns dias.
Olho para o relógio da mesa de cabeceira que pisca incessantemente. Nunca o acertei. O outono já começou e os dias encurtam-se rapidamente tal como o bolso a meio do mês. Serão umas seis da tarde, pelas minhas contas. Os últimos dias foram passados a correr, entre copos e bares e beijos trocados ao fim da bica quando esta desagua no largo de São Paulo. Madrugadas em branco a testar a temperatura dos corpos e a resistência dos corações de pedra. Tânia não perdeu tempo a namorar-me, e eu deixei-me ir, convencido que aquela dançarina de cabelo despenteado apenas queria companhia para os meses mais frios.
Falando verdade, todas as raparigas que humildemente seguram a minha mão estão a fazê-lo temporariamente, ocupando-me os recantos da sobriedade até voltar a ter a Telma em todas as divisões do meu apartamento.
A juventude de Tânia é um refresco para um homem cansado como eu, cada ruga estudada e aperfeiçoada. Sempre se disse que quando um homem chega a uma meia idade prefere a companhia feminina mais jovem para também ele se sentir jovem, mas eu nunca me senti velho. Só quando tenho que pagar impostos.
Ela acorda e bebemos o resto do café da semana passada em silêncio. Olho-a e percebo que está a pensar em alguma loucura para fazer à noite. Sinto um calafrio; a última vez que lhe notei esta expressão acabámos a noite a tentar roubar sorrateiramente as últimas garrafas de Defesa no final da festa do Lux.
Visto-me o melhor que posso, até porque a máquina de lavar roupa não trabalha há várias semanas. Ela desencantou um vestido vermelho-escuro dos confins duma velha mala que trouxe há dias. Vê-la de vestido é assustadoramente belo; nunca lhe conheci muito das pernas em público. Calça de ganga é o seu fato de super herói, sempre acompanhada dos all-star e uma t-shirt lisa, larga, onde o soutien por vezes aparece irradiando uma feminilidade que Tânia tenta esconder, mas que a sua beleza não permite.

"Daqui a cinco anos serás uma das mulheres mais belas de Lisboa, quando as tuas feições assentarem em mulher feita, adulta, e os carros irão parar para te deixar passar no alto da tua intensa beleza."
Por enquanto é só uma linda menina de vinte e dois anos, desajeitada e com um apetite voraz de dança, desleixada, lânguida, e, como aprende depressa, muita vontade de dominar todas as garrafas de Bombay da capital.
Quando saímos do metro surgimos num local mal iluminado, onde os prédios parecem todos iguais. Perdi a conta às estações mas ela está segura. "Disseram-me que era aqui", confia-me, agarrando no meu braço com força, como sempre faz, desamparando-me. Continuo a caminhar sem perceber bem ao que vou, esperando que a minha camisa seja a apropriada para a situação.
"É aqui", aponta ela, e estamos em frente a uma porta de um prédio de aspecto absolutamente normal. Ficamos especados a olhar para o interior escuro até que ela finalmente tem coragem e carrega no botão da campainha.
A porta abre-se e a luz automática assusta-nos. Achei que era uma boa altura para perguntar "Onde estamos?".
Ela responde-me no exacto segundo em que a porta se abre.
"Ah, isto é um clube de swing."
O porteiro olha-nos de alto a baixo e fixa-se no meu olhar incrédulo. Desconfiado, deixa-nos entrar e penetramos num denso nevoeiro de sangue, suor e tabaco.
É quase como no Eyes Wide Shut só que sem pianista. Trata-se de um apartamento banal, vários quartos dispostos sobre um corredor despido de ornamentos. Ao fundo há uma ténue luz e caminhamos para ela. Notam-se alguns vultos que bebem junto de um bar improvisado e servimo-nos de um gin tónico para quebrar o gelo.
Sentados num sofá livre tentamos observar. A intimidade é aparente, a fraca luz não nos permite vislumbrar muito bem as almas que por aqui se agitam. Eu nunca entrei numa coisa destas, posso confessar, nem nos meus devaneios de escritor frustado imaginei tal sítio onde o prazer da carne fosse grátis e abundante, a confiança jogada em cada troca de olhares.
Começamos a reparar que há grupos que se juntam e dirigem-se para os quartos e a nossa curiosidade é quase mórbida. Influenciados pelo segundo gin, olhamos um para o outro e a caixa de pandora abre-se. Ainda não vimos nada e já estamos com vontade de juntar os corpos. Disfarçamos um sorriso e juntamo-nos mais no sofá. É neste momento que ela aparece.
Senta-se perto de nós e sorri. O suor é frio sobre a minha testa. "A primeira vez pode ser estranha, mas o mais difícil já fizeram".
Podia, numa outra conjectura galáctica, apaixonar-me por esta mulher de vestido comprido e cabelo ondulado caindo perfeitamente nuns ombros esguios, onde os gestos estudados mostram uma delicadeza sedutora, mesmo com a face encoberta pelas sombras do lugar. Sorri-nos e coloca a sua mão no ninho que as minhas mãos e as da Tânia formaram. Levanta-se e faz um leve gesto com a cabeça para a seguirmos.

Como que enfeitiçados pela magia desta misteriosa mulher, levantamo-nos os dois rapidamente e vamos atrás dela, como que possuídos.
A porta do quarto fecha-se e ela acende uma vela. Por um segundo imaginei uma surreal sessão espírita onde tudo correria mal mas logo desliguei o pensamento. A misteriosa loira deixa cair o vestido.
Sentada na cama, nua, olhando-nos fixamente e sempre com o seu olhar inquisidor e mágico, bebe o seu tinto de um cálice extraordinariamente grande. Reparo que ainda temos as mãos coladas, e trememos um pouco, sem saber o que fazer.
Quando o Carlos conheceu por acaso a Tânia percebeu à primeira porque é que eu tinha aceitado em percorrer um pedaço da minha vida com ela. Por detrás da menina desajeitada mora uma mulher em bruto, capaz das ideias mais infantis e, num ápice, das decisões mais adultas, com uma frieza que me faz lembrar uma mulher de outrora.
Tânia aproxima-se da cama e beija a mulher delicadamente. Lentamente, baixa o vestido e as costas da minha dançarina estão expostas à fraca luz da vela... e às mãos desta mulher que, com uma precisão implacável, desaperta-lhe o soutien e para mim foi como se estivesse a ver os seios da Tânia pela primeira vez. A mulher olha-me incessantemente enquanto passa as mãos pelo corpo da minha menina.
Há uma coisa que, contudo, que nos separa como uma faca. Eu tenho mais quinze anos que a Tânia e da vida conheço algumas coisas. E ao longo do tempo adquiri uma capacidade incrível em detectar certas situações, pessoas, bruxedos.
Esta mulher estava a testar-me, e desde o primeiro olhar percebeu quem realmente somos. Ao tomar Tânia e expor-lhe o corpo à mercê do seu toque testa não só a minha paciência mas também a nossa vontade de jogar. Um jogador conhece outro pelo olhar, pelo instinto, e esta mulher que agora toca o corpo de uma futura mulher está a provocar-me. Ela sabe perfeitamente que eu não sou um gajo de partilhar.
Aproximo-me, fixando-a nos olhos, e ela levanta-se como uma mola, cobrindo o corpo.
"Da próxima vez é melhor trazeres alguém com quem queiras realmente partilhar o resto da vida."
A Tânia veste-se num instante e saímos tão rápido como entrámos.
Cá fora acendemos um cigarro e fumamos sem palavras. Não sei se a Tânia percebeu alguma coisa. Eu sei que percebi.
Esta mulher não é assim tão misteriosa e enigmática. Só tive a certeza quando à fraca luz me aproximei e a olhei verdadeiramente nos olhos.
Fosse a luz ligeiramente mais forte e a vista mais aguçada teria percebido logo no primeiro momento que esta loira era a Teresa. Mas para falar da Teresa tenho que falar do momento em que conheci a Telma.


























