DIÁRIOS DO UMBIGO

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Fotografias: Guillaume Ohz.

Um vagão, dois vagões, três vagões e nova sequência. Sequência interminável. Perde-se a conta e vemos nova linha a formar-se no horizonte. Aquele comboio mercadoria ou de memórias como mercadoria. Quem? Kerouac e outros beatnicks clandestinamente como outrora. E hoje? Com toda a certeza Brian Smith. De pés de fora, sobre o limite do vagão, cotovelos apoiados nos joelhos, e de palha na boca (tinha que ser), a fitar um horizonte não fixo. O mundo dele/nosso é lá fora. Na viagem. Do Texas natal, a Portland (Oregon) e daqui até à Europa de leste onde reside, por enquanto. Com a guitarra ou somente com um papel amarrotado como suporte para futuras letras e melodias. Imagens impregnadas de terra, de silvos a meio da noite, de sobressaltos e pé ligeiro que "autoridade ferroviária" não tem poesia, tem bastão.

Um vagão, dois vagões. Não é exercício contra insónia, como muito resistência e seguramente transgressão. As canções continuam a fazer sentido. As canções bem tocadas e melhor cantadas não têm preço. Cohen, Young – não serão exemplos maiores que sustentem este argumento? Confinar sobressalto ao rock é miopia, mais a mais quando impregnado de fórmulas de desgaste rápido e pastiche macilento como muitos dos projectos actuais. Limitar folk a imagens de ovelhas mansas em pasto verde é desenhar linhas convenientemente preguiçosas sob realidade tão diversa.

Muitos pontos e linhas Brian deve ter desenhado e cruzado, tantos quanto os quilómetros que nos últimos três anos percorreu. A ler, a ouvir, a ver ponto e ponto, debruçado sobre a janela. O cheiro a mar – Uhm. De uma fortaleza em Santiago do Chile, ao Beglika Fest (montanhas de Rodopi na Bulgária), um café perdido no meio da estrada e tantas outras histórias ouvidas, apropriadas, contadas, espalhadas. De Bohumil Hrabal diz-se que vivia para contar. De Brian Smith o mesmo.

Somos convocados para esta partilha, não meramente espectadores, em algum momento cúmplices, mas e sem dificuldade alguma, personagens desta aventura. A Lisboa chegou. Ao Lounge.

Sem campainha, sem mensagem, um simples bater na porta. Atrás dela, sorriso amigo – Vieste?! Como não? Desenhar e contar. Desfiar novelo. Cadência íntima, o dito e o não dito na exacta proporção. O silêncio é teu e meu. Falar, sonhar. Entendemo-nos nas entrelinhas. Nada e tudo à tua volta, Brian Smith.

Brian Smith . 26 de Novembro de 2014 . Lounge . 22h30

Vídeos: themusicofbriansmith.com/videos

Bandcamp: briansmith.bandcamp.com/music

Evento: facebook.com/events/741906095899000

Entrada Livre

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