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“Sempre suspeitei que estava a ver televisão em vez de viver a minha vida”. Andy Warhol

Warhol foi um dos mestres do poder passivo. Durante os anos sessenta converteu-se num dos seus próprios objectos: chamativo, excêntrico, inconfundível; com uma ressonância que acendia o rastilho, chamando todas as atenções à sua personagem. Warhol foi o único homem que da sua forma peculiar conseguiu passar por várias coisas. Obcecado com o mundo underground conseguiu tornar-se rico e famoso. Dirigiu-se a desconhecidos e admitiu-os no seu mundo, convertendo-os em parte da sua reputação, convertendo-se eles na imagem deste mestre da imagem.«Porque a imagem funcionava com as suas hierarquias, estrelas, líderes e seguidores, com o agressivo e dominante conhecimento secreto que os proscritos compartem uns com os outros e a sensação de um horrível isolamento de alguma forma redimido entre aquelas paredes, a Factory invertia o papel tradicional da subcultura”, referiu Stephen Koch no livro Andy Warhol Superstar.

Muitos meios artísticos emanaram da sua cabeça pensante, ficando Warhol conhecido pelas diversas facetas que se propunha a explorar. Todavia os seus programas televisivos parecem ter ficado esquecidos no tempo, nas gavetas de um museu sem ver a luz do dia durante tempos a fio. É das poucas fases de Warhol que não foi explorada, até que a jornalista e curadora Judith Benhamon Huet decidiu deslocar-se a Pittsburgh, terra natal de Warhol e dedicar-se à pesquisa desta fase do artista. «Descobri estes fantásticos programas e decidi reconstruir o seu mundo». Fãs e curiosos podem agora dirigir-se ao Museu Berardo para poderem sentar-se nos vários e confortáveis sofás espalhados por várias salas enquanto apreciam os programas catapultados pela cabeça do artista desde o final dos anos 70 até início dos anos 80. Para além de muitos outros, Andy Warhol’s TV e Andy Warhol’s Fifteen Minutes of Fame são os que mais chamam a atenção pelo seu dinamismo, ironia e curiosidades.

Andy nasceu a 06 de Agosto de 1928, dois anos antes do aparecimento oficial da caixinha mágica. Era portanto um filho da geração televisiva. No entanto, era oriundo de uma família pobre e não tinha acesso ao luxo de possuir um televisor. Só alguns anos mais tarde, já em Nova Iorque, é que conseguiu alcançar este seu sonho. Segundo o artista referiu no seu livro The Philosophy of Andy Warhol (From A to B and Back Again), «ao regressar do psiquiatra, parei no Macy’s e comprei, de repente, o meu primeiro televisor, um RCA de 19 polegadas a preto-e-branco. Trouxe-o para o apartamento, onde vivo sozinho, debaixo do El na Rua 75 Este, e esqueci-me logo completamente do psiquiatra. Deixava a televisão sempre ligada, sobretudo quando as pessoas me contavam os seus problemas, e achei que a televisão me distraía o suficiente, de forma que os problemas que as pessoas me contavam não me afectassem mais. Era uma espécie de magia.» Esta mesma atitude passou para a câmara de filmar e bastava entrar na Factory para começar a fazer parte do seu mundo. O artista tinha o dom de transmitir o conceito de glamour como ninguém e por detrás da lente da sua câmara desfilavam estrelas de cinema, da música, moda, das artes e simplesmente pessoas que considerava interessantes apenas pela sua excentricidade, numa espécie de Warhol Reality Show. «Ele não inventou o termo reality show mas sim a ideia. Sempre se interessou em fazer coisas sem intervenção e no acto de ligar a câmara e esperar que algo acontecesse. A Factory era frequentada por várias pessoas e era um espaço bom para conhecê-las e filmá-las», contou Judith Benhamou-Huet. O seu quotidiano está representado em vários programas que só por si se tornam interessantes dadas as personagens que faziam parte do seu mundo, num fascínio pela fama e atracção pela banalidade. A comissária acrescentou ainda que «naquele período Warhol era conhecido como um artista comercial e não foi muito considerado. Era fascinado pelo mundo da televisão, não para fazer história mas simplesmente porque queria fazer novas coisas. Percebeu, muito rapidamente, que a televisão era um meio que movia massas e era isso que o fascinava, queria comunicar de uma forma muito abrangente e a televisão dava-lhe a resposta». Apesar da sua personalidade egocêntrica, não era Warhol a personagem principal dos seus programas televisivos, mas o mundo de excentricidades que o rodeava.

Inicialmente, em 1973, começou por criar telenovelas, que não iriam ser transmitidas, mas que o ajudaram a criar um formato para televisão, baseado principalmente em comédia. Em 1979 Lorne Michaels, produtor executivo do programa Saturday Night Live, propôs a Warhol uma participação no programa, mas este recusou em jeito de atitude estratégica pois sentiu que se algo falhasse poderia ferir a sua reputação. Para além disso, Warhol tinha uma atitude muito desajeitada e desconfortável perante a câmara. «Em 1982 voltaram a fazer-lhe a proposta e nesta altura ele já tinha uma equipa a trabalhar com ele, composta por Don Munroe, Vincent Fremont e Sue Etkin e decidiu aceitar. Propôs fazer algumas sequências, filmou-as e resultou. Desenvolveu três sequências de um minuto que foram depois transmitidas no programa», comentou Judith. Warhol era a estrela, revelando, mais uma vez, a sua figura de socialite superficial. Entre 1980 e 82 foram produzidos 18 programas para a Andy Warhol’s TV. O auge do seu trabalho para televisão deu-se com o programa Andy Warhol’s Fifteen Minutes, em que entre 1985 e 1987 foram transmitidos cinco episódios na MTV, numa altura em que o canal de música era transmitido via cabo nos Estados Unidos.

Warhol TV é composta por excertos deste vasto número de programas realizados e produzidos pelo artista pop. Tudo se podia encontrar nestes programas, desde conselhos práticos de como usar a maquilhagem, travestis, entrevistas a realizadores, músicos, artistas, vips, vídeos humorísticos, entre muitas outras “iguarias” patrocinadas pela personagem pop. Uma vez que Warhol, representava uma espécie de descobridor de talentos na altura, é de referir que neste rol estão incluídos Keith Haring, Jean Michel Basquiat, entre outros que também figuram nas entrevistas, por si filmadas, num dos programas que podem ser vistos nesta mostra. Várias curiosidades são reveladas, como por exemplo uma conversa na cama entre o ainda desconhecido Steven Spielberg, Warhol e Bianca Jagger. Neles também figuram os artistas David Hockney e Cindy Sherman. Paloma Picasso conversa com Georgia O’Keefe. Duran Duran, Larry Rivers e Issey Miyake, valem todos os minutos de dedicação. Deste elenco também fazem parte Marc Jacobs e Debbie Harry e um videoclip da banda Cars produzido pelo artista. Um vídeo onde reinam o kitsch e a boa disposição. Continuando nas salas somos surpreendidos com um dos episódios da série Barco do Amor em que o artista aparece a fazer de si próprio, entrando no barco e iniciando a filmagem das personagens que mais lhe despertavam curiosidade. Esta exposição é também pontuada com os spots publicitários que fez para a TDK, Coca Cola e o anúncio que fez para a companhia aérea Braniff em 1969. Neste último repetiu a sua frase “Quando o tiver exiba-o”. Na exposição é também mostrado o último episódio de Andy Warhol’s TV, em 1987. Uma oração do funeral do artista na Catedral de St. Patrick’s, em Nova Iorque. Aconteceram quatro elegias, incluindo uma de Yoko Ono.

Warhol tinha uma forma específica de fazer os seus programas, tratava-os como se fossem “ready-mades”. O artista tinha um projecto intitulado Screen Tests que se baseava em retratos filmados que consistiam numa sequência de vários minutos na qual a câmara filmava a pessoa em plano fixo. Nesta mostra essa sua faceta não está incluída à excepção dos screen tests que fez com Marcel Duchamp em 1966. Foi na televisão que Marcel Duchamp exprimiu a ideia de que é necessário sair da pele do artista e pintor de maneira a formarmos o nosso caminho para a expressão universal. Decorria o ano de 1956 quando Duchamp foi entrevistado para o programa Wisdom Series, numa entrevista conduzida por J.J.Sweeney, director do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Segundo o livro Duchamp du Signe, o artista referiu na referida entrevista que via a pintura «como um meio de expressão, não como um fim; um meio de expressão entre muitos outros, não um fim destinado a preencher uma vida inteira». Warhol funcionava da mesma forma e como tal Warhol TV pôde ser entendido como arte. «Não fora isso mesmo o que revelara o ready made – que bastava colocar um objecto qualquer num espaço de exposição, uma assinatura que o personalizasse, e um público que aceitasse esse estatuto proposto de “obra de arte”, para que o objecto fosse considerado universalmente como tal?», questionou José Gil no livro “Sem Título”- Escritos Sobre Arte e Artistas, que no mesmo livro sublinha a continuidade entre Warhol e Duchamp. «Evocarei só um aspecto: Duchamp não explora as consequências do apagamento das fronteiras entre objecto artístico e não artístico. Warhol, se bem que não dá respostas precisas, trabalha a zona intermédia em que surge o ready-made, ou em que o objecto funcional sofre uma mutação para o olhar. É a zona da função do medium de representação, da função da imagem mediática: sobrevalorizar o produto graças à sua imagem aurática. Neste plano, a técnica dos media resume-se à criação e manipulação da aura, à sua integração na imagem, tratando-a como uma matéria de pleno direito». Warhol tinha inclusive a ideia de fazer um filme contínuo sobre Duchamp, no entanto não conseguiu financiamento e este projecto não avançou. «Gosto do espírito de Warhol», disse Duchamp na altura.

Warhol não tinha uma relação de amor com a televisão e sim uma história de fascínio. Ele era uma criança da era televisiva, nasceu com ela e queria usá-la ao máximo. «Se ele hoje em dia fosse vivo seria o proprietário de um canal de televisão e teria uma óptima relação com as novas plataformas de Internet como Facebook ou Youtube, pois em 1986 o artista já estava super interessado em computadores e fascinavam-o», comentou Judith Benhamou-Huet.

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