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Fotografias: Vera Marmelo.

Maya you don’t know nothing about the future, Peter Evans does.

Queres conhecer o carácter de uma cidade? Vai ao Club de Jazz local. Nos estilhaços do pós 25 de Abril, e durante a guerra fria, não havia maior efervescência que no HotClub. À porta os agentes da C.I.A., na outra soleira os seus contrários. À falta de critério político mais rigoroso diferenciavam-se os que vestiam boca-de-sino dos de fato; os militantes da esquerda no primeiro grupo e os de direita no segundo. Se queres conhecer uma cidade vai ao Club de Jazz! Se for no Barreiro acrescenta-lhe as Associações Culturais.

No palco da Casa da Cultura do Barreiro assistimos a um dos concertos do ano. Frase tão perentória arrisca-se a ser desmentida por 10 ou mais exemplos. Porém, trata-se de risco calculado, sobretudo quando estamos perante um dos trompetistas mais inovadores e experimentalistas da actualidade – Peter Evans. Avisos não faltavam – inesquecível demonstração de virtuosismo na ZDB (2011), no Jazz em Agosto (2013), e já em Maio deste ano em majestático exercício sónico de intrincados fluxos e refluxos sonoros no Panteão Nacional. A reforçar ideia, senta-se ao nosso lado Gabriel Ferrandini, pessoa conhecedora e previdente, com frase premonitório – “Cuidado vai ser brutal”. E assim foi. Evans um trabalhador incansável, tanto no trompete, como no trompete de bolso, não desiste até encontrar a combinação precisa, ora consigo mesmo, nos já identitários diálogos que estabelece a solo com os trompetes, em movimentos de cortar a respiração, fazendo-nos duvidar da existência de uma terceiro plumão, ora com o piano ou bateria. Todavia, seria injustiça irreparável não mencionar a qualidade dos restantes elementos do quinteto – piano, bateria, contrabaixo e electrónicas. Composições em camadas sobrepostas, em ritmo mais acelerado ou criando espaço para momentos de acalmia ou ainda a abrir caminho para sons que duvidávamos alguma vez serem possíveis de alcançar. Concerto de liberdade extrema, a soltar-se de qualquer amarra classificatória, como as folhas da partitura que vemos esvoaçarem, literalmente, e que nos sustenta a ideia - Evans é o obreiro do futuro. E quando sonhamos com futuro Fennesz é banda sonora indispensável. Segundo concerto, da segunda noite do Out.Fest. Guitarrita e computadores bastam para nos transportar por entre atmosferas negras, pontilhadas de supernovas e demais elementos luminescentes. È distensão total, beleza contemplada em registo deslumbrado. Por fim, Dean Blunt. Espesso, denso, palavras lançadas como uppercuts e strobes projectados a velocidade estonteante.

Regressemos aos clubes de jazz, ao Be Jazz. Primeiro dia, com Norberto Lobo, em mais um registo intenso na guitarra, seguido de Peter Brötzmann com Steve Noble. Clarinete e saxofone de um lado, bateria, do outro, para improvisação pura, de jazz nas suas diferentes cambiantes e com um ou outro apontamento mais oriental. Estava dado o mote para um dos Festivais mais estimulantes da actualidade, no 10º aniversário, e que como escreve Vitor Belanciano em recente artigo para o Público – "Não há muitos festivais assim".

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