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Em semana de Motelx, o Código Genético guarda os crucifixos, a água benta e os dentes de alho (as facas, as caçadeiras e os machados continuam prontos a usar, just in case) e abre a porta aos vampiros.

Realizadora, argumentista e actriz, Xan Cassavetes é filha de John Cassavetes e Gena Rowlands. Já realizou uma curta e um documentário para televisão, estreando-se agora nas longas-metragens com Kiss of the Damned. Na nota de intenções, a realizadora diz: "quis pegar na tradição dos filmes de vampiros que sempre adorei, no contraste entre a beleza e a brutalidade, para contar uma história sobre criaturas confusas, a fazer o melhor que podem para encontrar a verdade". No fundo, para contar a história de todos nós.

O filme é exibido Sábado, às 19h, no MOTELx.

Fala-me um pouco sobre a escolha do Kiss of the Damned para a tua primeira longa-metragem. Sempre foste fã do género?

Sempre gostei especialmente dos filmes de vampiros europeus. Desde miúda que sou fascinada por eles e sentia que não os devia estar a ver. A sexualidade à flor da pele, o desejo visceral pela violência. E também a tristeza e a frustração com a vida que, supostamente, uma criança não devia estar a ver. Adorava a sensação de que o som tinha sido dobrado e os cenários que eram personagens, como se reflectissem as almas solitárias e a noção de tempo vazio dos vampiros. Os filmes do Rollin e, especialmente, o Nosferatu do Herzog, destruíram-me a nível emocional e também pela sensualidade agressiva. Acho que quase todos os cineastas querem fazer um filme de vampiros, porque exige que ponham em prática todo o conhecimento técnico que têm sobre cinema, ao mesmo tempo que exige também um ponto de vista muito pessoal sobre o tema. Eu sempre quis, embora estivesse há anos a tentar fazer outros filmes que escrevi. Mas ainda bem que a minha primeira longa-metragem acabou por ser um filme de vampiros.

Visualmente, o filme lembra-me um pouco o The Hunger. Qual foi a tua abordagem visual à história?

Todos nós adoramos o The Hunger e realmente falámos sobre o filme. Adoramos o mood da casa, a austeridade solitária e todo o espaço para vaguear sem limites. Isso inspirou-nos, embora não tenhamos copiado o look. Queríamos que o nosso filme fosse vibrante, carnal, vivo, embora estas personagens sejam mortos-vivos. A sensação de estar preso algures, mesmo que seja luxuoso ou bonito, é uma prisão decadente.

Xan_Cassavetes1

No Motelx, o teu filme está incluído numa secção dedicada a realizadoras que trabalham neste género. Como é que vês o papel das mulheres dentro do terror? São muito poucas.

O terror tem o estigma de ser mais para homens. Como o metal. E, se virmos bem a coisa, também a realização se inclui nesse estigma. Mas, como em tudo o que é bom, é melhor quando toda a gente brinca. E aposto que é nessa direcção que vai crescer.

É uma pergunta cliché, mas inevitável. Enquanto realizadora, sentes o peso de ser filha do John Cassavetes? De que forma é que ele influenciou o teu trabalho?

O John é o meu herói em todos os sentidos. O facto dele ser um génio só me deixa extremamente feliz. Ninguém vai ser como ele e tenho pena dos que tentam. O John nunca me fez sentir qualquer peso, portanto nunca senti nenhum. Entendo que as pessoas tenham expectativas em relação a mim e aos meus irmãos. É normal. Eu dou por mim a fazer o mesmo a filhos de realizadores e artistas que adoro. Sinceramente, não me afecta muito.

Participaste no A Woman Under the Influence quando tinhas nove anos. Quais são as tuas recordações da rodagem do filme?

Esses tempos foram muito divertidos. A minha melhor amiga Dominique e eu andávamos a correr de um lado para o outro como umas doidas, felizes porque não tínhamos que ir para a escola. E era divertido acordar cedo e estar com a equipa. Os adultos loucos e lindos. Tenho memórias fantásticas deste tempo.

Já tens planos para o próximo filme? Vais manter-te dentro deste género?

Da próxima vez, vou experimentar outro género. Mas não sinto, de forma nenhuma, que tenha esgotado o tema dos vampiros. É um vício.

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