Não sei bem se é a Batwoman ou a Catwoman, mas lá estava ela envergando um vestido de alta-costura, sentada no seu canapé enquanto admirava o corvo enjaulado. Por seu lado, a menina bonita de vestido vermelho fazia bolas de sabão enquanto olhava pela janela. O gato maléfico com o coração visível contorcia-se em espasmos demoníacos. Com um penteado e vestido à la Marie Antoinette, a bela rapariga segura no seu cão enquanto que a miúda com braços de raiz se vê ao espelho com um cachimbo no ouvido. Será um conto de fadas? Sim, mas bem ao estilo do artista Ray Caesar. As características são evidentes. Têm a beleza, inocência e crueldade próprias destes contos. Mas quem é Ray Caesar? Um artista que veio de outro mundo? Talvez.
Os seus trabalhos transportaram-me para outra dimensão e entrevistá-lo foi uma viagem através dos sentidos. Ele passa os dias imerso no seu próprio casulo a criar figuras mirabolantes e esse é o seu antídoto para caminhar no mundo em que vivemos, transportando para o mundo real um imaginário de doces e estranhas criaturas.
Ray Caesar nem se lembra de quando começou a desenhar. Iniciou-se a pintar e esculpir antes de sequer saber que as pessoas faziam arte como uma forma de vida. «Não me imaginava a fazer arte como profissão quando era mais novo e não era uma opção no mundo em que cresci. Acredito que foi um processo gradual que se prendeu mais com obsessão do que com o desejo de fazer algo chamado “arte”... Para mim foi uma forma de criar e um escape para os mundos por mim criados e acho que é por essa razão que continuo. Nesses mundos eu encontro a paz e a calma difíceis de encontrar no mundo exterior».
Trabalhou durante 17 anos no departamento de arte e fotografia do Hospital for Sick Children, em Toronto. Como foi a sua experiência e em que medida é que este trabalho influenciou a sua arte?
Eu aceitei o que pensava ser um trabalho temporário no departamento de arte e fotografia e acabei por trabalhar lá como “medical artist”. Naquele departamento vi algumas das situações mais duras da minha vida como reconstrução cirurgica e pesquisa animal. Comecei por fazer pequenas pinturas, estranhas esculturas e imagens como uma forma de clarear a minha mente de algumas coisas que via no meu dia-a-dia. Agora penso que, uma vez que eu era um pouco obcecado, talvez não tenha sido o melhor ambiente para alguém como eu trabalhar durante tanto tempo. As enfermeiras e os médicos podem ajudar e agir contra tais adversidades, mas como artista tudo o que eu podia fazer era observar e documentar como uma testemunha. Eu não posso realmente dizer que estava a fazer arte, era como se fosse um diário de imagens... Nunca as coloquei na parede e nem sequer quis mostrá-las a ninguém... Penso que estou apenas a tentar fazer pequenos céus para árduas memórias, um lugar onde aquelas crianças têm poder, estão calmas e em paz. As minhas pequenas criações são os seus mundos... pertencem-lhes... um lugar onde nada as pode voltar a magoar.
Porquê e como decidiu começar a trabalhar em três dimensões?
Eu uso computadores no meu trabalho desde 1984 e tornou-se muito confortável fazer imagens com eles. Usei software CAD desde meados dos anos 80 e alguns anos mais tarde experimentei um modelo de software 3D que realmente me abriu as portas para um novo mundo. Não acho que tenha tomado uma decisão consciente ao aprender 3D, mas na altura foi apenas uma etapa natural na minha obsessão por fazer imagens.
O seu trabalho tem um infinidade de detalhes. Como funciona o seu imaginário?
Todo o mundo que nos rodeia está repleto de detalhes... Eu adoro detalhes e fico feliz em colocar items secretos no interior dos objectos desse espaço. Existe a possibilidade de haver uma fotografia da minha mulher ou da minha irmã num medalhão. Uma carta de alguém amado dentro de uma gaveta ou escrivaninha. Um pedaço de tecido de um vestido de Verão da minha mulher. Um pequeno relógio revelando uma hora preciosa na mão dobrada de um rapaz num carrinho de bebé.Um chapéu que a minha mãe usou nos anos 60. Também coloco objectos num mundo que nunca revelarei. Segredos e feitiços que contêm a força para a alma que neles residem, como uma bênção para a sua jornada pessoal. Também gosto de dar a uma das minhas crianças a força e protecção de uma forte criatura, como um anjo da guarda. A Batgirl ou a Catgirl são um tema comum, como se elas fossem as heroínas do meu mundo nocturno. O anjo ao luar que ajuda e guia a alma, ela é a minha vingadora contra a crueldade. A aranha, morcego ou gato são o “encanto” ou “amuleto” de protecção. Este amuleto irá torná-los um pouco perigosos, mas o virtuoso e benévolo pode sempre aproximar-se com um pouco de cautela, como se tentasse atacar um estranho gato e será melhor que este tenha uma boa natureza e intenções, caso contrário será arranhado. Tal como eu disse! Eu crio um mundo onde eles têm força, não nós. Sou muito influenciado por crianças e animais em pinturas históricas e uma das minhas peças favoritas é um pastel intitulado Girl with a Kitten, de Jean-Baptiste Perronneau. Adoro a forma como as crianças e os animais representam a inocência equilibrada com a crueldade, e noutra peça de Chardin, um rapaz estoura bolhas representando a fragilidade da vida. São estas nobres parábolas que me surpreendem de forma importante e algo que vejo perdido no actual trabalho.
Quando olho para a sua obra, sinto-me como se estivesse dentro de um conto de fadas. Sente-se um construtor de sonhos, ou uma importante personagem no seu mundo?
Sim, bastante. Adoro o pensamento de que cada vida é o seu próprio conto de fadas e cada um de nós representa o papel do herói ou da heroína nas nossas histórias pessoais. Eu tenho a noção de que a realidade não é o que acreditamos ser. Já vi coisas ao longo dos anos que cresceram dentro de mim como algo obsessivo. Não posso deixar estas memórias e encontrei uma forma de perfurar um buraco para outra realidade, uma “realidade digital” onde posso criar qualquer coisa que eu queira e colocar lá o que quer que seja. Escolhi fazer o Éden, um paraíso para algo que me assombra. Não sei se estas visões são apenas as minhas memórias ou partes do meu subconsciente ou se são verdadeiramente algum tipo de “outras”! Tão subtis e frágeis como pó à luz do Sol sendo complicado para elas comunicar. Encontrei a calma e a paz ao criar estas janelas para um lugar onde elas podem ser vistas e talvez seja isso que lhes dá tanto prazer. Acredito que todos nós somos diferentes criaturas ao olhar das nossas mentes, diferentes daquilo que vemos no espelho. Tenta fechar os teus olhos e sente a forma única do teu espírito sensual e poderás ficar surpreendida. Talvez o paraíso não seja como o vemos... mas como escolhemos vê-lo. A nossa espécie tem verdadeiramente uma estranha dualidade e que está em cada um de nós, todas estas atrocidades da espécie humana e toda a esperança e bondade dos santos estão presentes em cada alma humana. Está no nosso sangue, mas nós fazemos realmente a escolha do que colocamos para fora neste mundo. Todos nós temos um lado negro escondido na nossa alma e subconsciente. Não é boa ideia temer esse lugar. É melhor enfrentá-lo de caras e assim conseguirás saber um pouco mais sobre ti a cada dia que passa... É apenas a forma que a nossa mente tem de nos proteger contra sermos esmagados por esse mundo. Por isso gosto de juntar o meu lado negro ao lado alegre. Todos nós temos um anjo e um demónio dentro de nós e o melhor é manter o anjo à frente e manter o olho no diabo ajudando-o através dos seus medos. Eu tenho esta certeza de que numa próxima vida nós não poderemos esconder estas coisas dentro de nós e poderemos vislumbrá-las claras como o dia... O melhor é lidar com elas não?!
As suas imagens são grotescas e belas em simultâneo. Consegue atribuir beleza ao mais grotesco...
Sim! Ao trabalhar num hospital infantil deparas-te com uma série de emoções difíceis e conflituosas. Uma coisa pode ser grotesca para alguns mas tem uma beleza inerente que é difícil de ver e é esse desafio aos teus sentidos que te faz parar e pensar sobre o mundo de uma forma diferente. Esta vida que vivemos está cheia de tais contradições e contrastes. O medo de algo que é diferente é um instinto básico no ser humano... nós usamos esse medo para justificar o ódio e a raiva, que por sua vez são causadores de cada pequeno problema neste planeta. Eu quero que as pessoas vejam o mundo através dos meus olhos pelo menos por um momento... para que observem a estranha beleza em todas as coisas.
Costuma colocar partes dos seus sonhos nos seus trabalhos? Faço esta pergunta porque por vezes as suas peças parecem oriundas de um sonho.
Completamente! O meu mundo dos sonhos é extremamente importante para mim uma vez que sofro de paralisia do sono... Parecemos ignorar os nossos sonhos como se estes fossem um embaraço. Nós não falamos sobre eles porque temos medo de poder revelar algo que as pessoas desconheçam em nós. Escondemo-los e esquecemo-los tão rapidamente quanto possível, mas a cada noite uma profunda e privada parte da nossa mente está a tentar comunicar connosco através de imagens. Acredito que os nossos sonhos tentam ajudar-nos a resolver dificuldades do mundo consciente e penso que os sonhos tentam arquivar e controlar uma quantidade impressionante de dados da nossa vida no dia-a-dia e nós como resposta não lhes damos importância. Esquecemos estes momentos mal acordamos. Consegues lembrar-te dos sonhos com alguma facilidade, acordando calmamente e mantendo a tua cabeça na mesma posição. Então, muito calmamente, falas em voz alta sobre o que sonhaste. Abres um caderno, escreves palavras e desenhas as imagens do teu sonho. Asseguro-te que se continuares com este processo ficarás surpreendida e anos mais tarde, quando voltares a ler o sonho, verás como foi importante e como poderás viajar no tempo e reviver aquele momento. Eu acho que a atmosfera dos sonhos é impressionante e há certamente uma tentativa de colocá-los no meu trabalho. O meu trabalho é baseado tanto na vida consciente como no mundo dos sonhos... o jardim da luz solar e do luar, tal como lhe chamo querendo dizer os estados da mente, consciente e subconsciente. Eu vejo esse jardim durante o dia, mas esse mesmo jardim é completamente diferente à noite. A nossa espécie teme a noite, os lugares escuros daquele jardim, mas por baixo do luar vemos os insectos e a vida nocturna que lá existe e poderemos sentir quão verdadeiramente bonito é aquele lugar. Aquele jardim, a nossa mente! É o mesmo lugar, mas nós tememos o escuro mundo dos sonhos porque é uma chamada de atenção para o desconhecido. O lugar do tempo perdido e do sono profundo. A lembrança da morte. Tento mostrar uma pequena e simples verdade e necessito da luz do dia e do luar para fazê-lo.
Quais são as suas maiores influências na arte?
Com a arte eu sou como uma criança numa loja de doces. Correndo de boião em boião, enchendo-me com tantos doces que todos os sabores se misturam na minha boca. Eu movo-me todos os dias através de tantas coisas que vejo e todas elas se fundem. Há algumas pinturas para as quais não me importaria de olhar horas a fio. As pinturas de Robert Campin, Jan Van Eyck e Roger Vanderwhyden. As pinturas Fete Gallant de Watteau e as pinturas de género de Boucher, Fragonard e Chardin vêm-me à cabeça e despertam-me para o Gainsborough, Reynolds e Turner. Depois movo-me para John Singer Sergeant e Winslow Homer e é um fácil salto para Mary Cassat e depois para Edward Hopper, Paul Cadmus e Jared French. Frida está sempre a mover-se ao redor e também Dali, o meu primeiro amigo sentado numa esquina contorcendo o seu bigode numa conversa com Joseph Cornell. Mark Rothko e Pollock estão a urinar na lareira com Georgia O’Keefe. O pintor escocês Stephen Campbell (boa sorte para encontrar qualquer coisa sobre este evasivo filho da mãe na Internet), Jim Nutt, Paul Wunderlich, Francesco Clemente, Mimo Paladino e Sandro Chia... todos a fazer barulho na cozinha elaborando pequenas sanduíches e coscuvilhando em italiano. John Currin e Matthew Barney, Alfred Hitchcock e o realizador japonês Ozu pararam para uma cerveja. Poderia continuar horas a fio, mas agora sou o anfitrião e é melhor ir buscar umas bebidas e almôndegas.
Porque é que gosta tanto de cães?
Quando vejo um cão vejo uma nobre criatura que não sabe nada de mentiras... não sabe como esconder as suas emoções e vive para agradar os seus companheiros. Defender-te-á com a própria vida e derrotará os cruéis como nenhuma outra criatura na Terra, e de certa forma ainda consegue gostar deles. Os cães são o sal desta terra... eles são as verdadeiras criaturas deste planeta que sabem mais da vida do que qualquer outra criatura que eu conheço. Não consigo pensar noutro ser com o qual possas brincar e fazer cócegas no estômago e que a determinado momento poderá dar a vida para defender quem ama... Eles dormem, eles brincam, eles amam, eles lutam e tentam tanto agradar que te partem o coração. Eu acho que eles também têm um lado negro e são criaturas da lua. São puros e perfeitos caçadores e aquele amoroso e aconchegante cachorrinho pode de repente transformar-se num raivoso lobo com garras... eles podem derrotar a maior e mais forte presa e nunca escolher o caminho mais fácil. Eles têm uma vida de sofrimento e aceitam-na. Eu gosto desse contraste... o que eu amo nos cães é a forma como eles me influenciam nas minhas tentativas para ser um Ser Humano. Eles são mais humanos que os humanos... mais humanos do que algum dia poderemos ser. Eu amo-os.
Fez alguma exposição que tenha sido muito especial?
Adorei a exposição que fiz em Paris na galeria Magda Danyz. Foi quase surreal para mim ter uma exposição numa cidade tão fascinante e eu gosto bastante de expor na Europa.Também me lembro de voar para Nova Iorque para a minha primeira exposição na Jonathan Levine’s Gallery e observar Nova Iorque de cima como uma pequena cidade de brinquedos, foi de fazer tremer.
Gostaria de expor em Portugal?
Sim! Eu estive em Portugal há muitos anos atrás e adorei a costa... uma vez em Lisboa tirei uma fotografia de uma entrada antiga... cinco mulheres idosas saíram a sorrir e a rir e a rodopiar as suas saias e seguiram-me pela rua... e corriam com rapidez... quase fui apanhado. Visitei o Palácio de Queluz e quando estava em Sintra tropecei num cão adormecido que estava estendido no meio da estrada... ele apenas olhou para mim como se dissesse “idiota” e voltou a dormir... era castanho e gorducho... talvez seja conhecido em Sintra pois olhou-me como se fosse o dono da cidade. Sim eu quero muito visitar Portugal outra vez e fazer uma exposição seria um sonho tornado realidade... Eu tenho o hábito de tornar os sonhos reais.
O que está a fazer agora?
Estou sentado com o meu pijama a escrever as respostas para lhe enviar. São duas horas da manhã e a minha mulher está a dormir no sofá. O meu cão está a cheirar a porta do quintal e a rosnar... o que significa que algum animal ou alguém anda a rondar e a tentar sorrateiramente abrir o nosso caixote do lixo. Está lua cheia e uma brisa fria está a entrar pela porta... o nosso jardim está banhado em luar e consigo ouvir as pequenas criaturas a fazerem os seus barulhos... o Inverno aproxima-se e acho que esta noite necessitarei de um cobertor extra.






























