DIÁRIOS DO UMBIGO

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Nota preliminar

Esta segunda parte da crónica está profundamente afectada pelos acontecimentos desta semana em Boston. Por isso, ela é nutrida de uma atitude de partilha de discursos paralelos e que se podem ser alternativos àqueles que se ouviram por estes últimos dias, não para os fazer esquecer, apenas servindo como auxiliares para suportar uma realidade que teima em nos a-/con-frontar com tragédias capazes de inspirar e potenciar mais tragédias colectivas e individuais.

Arte vs. Realidade Real

Na terça-feira, fui buscar à FNAC do Colombo um livro que tinha encomendado há cerca de um mês. O título da obra é: “Artificial Hells – Participatory Art and the Politics of Spectatorship” de Claire Bishop. Abram-se as aspas!

Ressonancias-1

“In using people as a medium, participatory art has always had a double ontological status: it is both an event in the world, and at one remove form it. As such, it has the capacity to communicate on two levels – to participants and to spectators – the paradoxes that are repressed in everyday discourse, and to elicit perverse, disturbing and pleasurable experiences that enlarge our capacity to imagine the world and our relations anew. But to reach the second level requires a mediating third term: an object, image, story, film, even a spectacle – that permits this experience to have a purchase on the public imaginary. Participatory art is not a privileged political medium, nor a ready-made solution to a society of the spectacle, but is as uncertain and precarious as democracy itself; neither are legitimated in advance but need continually to be performed and tested in every specific context.”

Numa subida ao terceiro piso, passei pela zona da restauração e deparei-me com pessoas a degustarem fast-food com um ar como se estivessem num restaurante de comida tradicional portuguesa. A ver se me explico melhor. Vi pessoas mais velhas que costumo ver em restaurantes de comida tradicional a comerem - quase todas com pessoas mais novas (terão sido levadas por elas para poderem estar com elas?) - hambúrgueres, pizzas e frango frito com a mesma atitude que comem um cozido à portuguesa. Digo isto pelos braços cruzados depois de terem comido e, já saciadas, pelos olhares fixos para a mesa do lado e para as pessoas passageiras em que a maioria reflectia as tendências da moda expostas nas montras das lojas. Por outras palavras: compraram, logo existiam!

Arte vs. Realidade Real ou a Vida Precária (apropriando-me de um título de Judith Butler)

Chego a casa com imensa vontade de me desligar do mundo, de comer uma sopa e de ler um livro que ando para ler há mais de vinte anos. A minha mãe liga-me e sem me dizer – Olá como estás? Então como correu o dia?, pergunta-me: - O que é que se passa com este mundo? E eu ainda meio atordoado e com o braço esquerdo ainda a doer pelo peso do saco do supermercado e pelo garrafão de 6 litros de água (estava em promoção! e não resisti) respondo: - O quê mãe? E ela prontamente, e num tonalidade de voz quase admirada disse-me: - Ainda não sabes o que se passou na América? O tom apocalíptico fez-me adivinhar algo coincidente com a realidade difundida. Não quis saber mais detalhes. Não foi possível. Só aguentei até à informação que uma das três vítimas mortais da explosão junto à meta na maratona (se fosse outro acontecimento, outras as consequências e outro o timing talvez ressaltasse com maior incisão o facto de uma das explosões ter ocorrido a trinta metros da meta e numa altura em que os atletas de elite já tinham passado, e que esperando não ser mal interpretado, pois o que aqui está a ser dito é apenas que não são as pessoas que lhes interessava, era apenas o gesto de atingimento das pessoas).

Ressonancias-2

Socorro-me das palavras de Judith Butler na obra “Vida Precaria – El poder del duelo y la violencia” escrita após o 11 de setembro para não ter que fazer mais comentários.

“¿Podemos escuchar que existen precedentes de los acontecimientos y, más aún, darnos cuenta de que es urgente conocer y aprender de ellos cuando tratamos de que dejen de operar en el presente, e insistir al mismo tiempo en que estos precedentes no "justifican" los recientes actos de violencia? Que los acontecimientos no puedan comprenderse si su historia no significa que el análisis histórico sirva de justificación moral de los actos. Sólo entonces seremos capaces de llegar hasta la "raíz" de la violencia, para empezar a ofrecer otra visión del futuro, diferente de aquella que perpetúa la violencia al tiempo que pretende negarla, nombrando las cosas por medio de palabras que nos impiden pensar y actuar correcta y radicalmente respecto de opciones globales.”

Cito um post de Miguel Loureiro como ante-ou-pós-câmara do que quero ou quis dizer: “Há mais alguém que queira referir as bombas de Boston? Vá lá é que ainda só vi 387 posts com isso e como tenho 1500 amigos, tenho medo que passe despercebido como os 100 mortos diários em explosões em Bagdad.”

Interrompo esta crónica, abdicando de falar do desequilíbrio no tratamento mediático, e consequente afectação emocional das audiências, das tragédias humanas a nível mundial (bastando recordar o que se vai passando no Afeganistão, na Síria ou no Iraque e aquilo que a Ocidente se sente sendo filhos de tão boa gente). Silencio-me.

Por agora, nada mais tenho a declarar.

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