Lá fora a chuva regular denuncia a permanência inesperada na estação de inverno, apesar de ser dia sete de abril. Na paragem dos autocarros cheia de pessoas com sacos na mão, maioritariamente dos super-hipermercados Pingo Doce e Continente, escasseiam os sorrisos e abundam as posições cabisbaixas e os olhares fixos para o chão.
Em que estarão a pensar?
Fosse eu dotado de uma capacidade sobrenatural ou tivera eu um talento astronómico - não necessariamente místico e intangível, logo à semelhança de Johannes Gutenberg, Nicolau Copérnico, Francis Bacon, Galileu Galilei, Isaac Newton, Charles Darwin, Albert Einstein, Gaston Bachelard, Sigmund Freud, Carl Jung, Jacques Lacan, Stanisław Lem, António Damásio, Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, etc. - capaz de trespassar corpos e antecipar, entrar e testemunhar os pensamentos do Outro, seria o primeiro a partilhar tais travessuras, coreografias e cinematografias da mente.
Faço um esforço sem dedilhar uma única palavra-chave. Consigo aceder a uma pessoa que tem vestido um casaco comprido grená e umas calças pretas que ocultam umas botas de cano alto e que, estando arrependida pela desfaçatez climática, tinha acabado de gastar 70€ no cabeleireiro. Eis o que testemunhei.
Uma pessoa sem nome por agora, que olha para o fim da rua à espera de ver o autocarro fazer bem a curva, gostava de acelerar o tempo para chegar ao seu destino-casa, qual lar-doce-lar.
A frase que se segue é ultra-densa. Não se lê à primeira. Está garantida a releitura com base numa sensação de perda. - Perdi-me! Será uma frase esperada. O problema não é da sua capacidade de leitura, é mesmo da frase. Porquê? Porque e para que se saiba, foi escrita à décima segunda revisão. Apesar disso, e mesmo depois da sua desinfecção, não beneficiou o seu trabalho, já que ainda lhe acrescentou mais predicados e sintagmas nominais. O melhor é imprimir e ler isto noutra altura, com mais tempo e sem solicitações concorrentes. Este texto exige, que é como quem diz, reclama uma atenção especial, não por se julgar o texto do ano, mas por estar cônscio das suas esquinas apelativas e dobras inquietantes. Essa consciência foi atestada durante a escrita, já que a cada oração se sobrepunha uma outra, qual experiência escrítico-místico. Adiante!
Depois de bem trancada a porta do seu último-reduto, Francisca Mínima Cintra - de seu nome registada e que esteve para ser notarialmente chamada Francisca Máxima Braga – e já revestida, mas sem soutien por baixo do seu pijama de flanela e do seu robe “vintage” (esclareça-se tal origem demarcada pelo facto de ter sido comprado há mais de trinta anos na “Lanalgo”: um estabelecimento comercial na Baixa tipo, e aqui a palavra é mesmo necessária, logo repito-a!, tipo Armazéns do Chiado, onde agora existe o “The Beautique Hotel Figueira” e no piso térreo o “Honra by Olivier”) - vai comer entre três a quatro pastéis de nata de Belém quentinhos e acabadinhos de chegar pela mão do seu companheiro e ao volante do seu Fiat Uno de 83 estacionado à terceira no mesmo lugar de sempre. Pastéis esses que serão pulverizados de canela e açúcar a gosto e acompanhados por um café com leite meio-gordo.
Espero que tenha sido bem sucedido/a caro/a leitor/a.
Todo este repasto em forma de lanche será degustado à frente do plasma da SAMSUNG comprado em dez prestações na Worten ou na MediaMarkt, não querendo ser parva, que difunde por sua decisão o programa vespertino de domingo da TVI em que se está a oferecer 30.000€ para mudar de vida já amanhã, segundo um dos apresentadores secundários. 760 200 300 (0,60€ + IVA é o custo da chamada). A Fátima Lopes acabou de dizer que a TVI faz 20 anos e é por isso que é preciso fechar os guardas chuvas e dançar ao som de Ana Malhoa que faça sol ou chuva está sempre boa (apresentadora dixit). No momento seguinte, e motivadas por outra apresentadora secundária, aparecem pessoas a mandar beijinhos grandes (como serão estes beijos?) para Paris, Hamburgo e Toronto.
Cá dentro, e depois deste relatório rigoroso de factos e registador de acções a la Georges Perec - um escritor francês que viveu entre 1936 e 1982, e em que na sua obra “Infraordinário” (publicada postumamente em 1989) ele se propõe fazer um inventário minucioso do quotidiano, desenhando uma cartografia de ruas, casas e respectivas situações nelas observadas, registando paisagens sonoras e humanas que resultam numa espécie de resgate do tempo no modo como inventaria o que testemunha, como se não o quisesse deixar fugir - o melhor é baixar as persianas.
Faço uma pausa para que se recupere o fôlego, já que ler um texto em suporte digital não é mesmo que o ler em papel. Produzo um raccord na leitura. Espero que seja útil e generoso q.b.
(...)
- o melhor é baixar as persianas, e ver o resto do filme Gainsbourg deixando para trás a imagem farta da dose do Cozido à Portuguesa que estava na mesa do lado do restaurante onde almocei com a minha mãe. Valeu-nos, por aquela altura e para aliviar o barroquismo das carnes, a maçã assada embrulhada numa massa folhada explodida no forno.
Antes de me instalar no sofá de comandos em riste, ainda deparei sem estar à espera com a obra O Passado de Alan Pauls. Abri o livro e depois de sentir um calafrio fugaz encontrei esta frase. “Mas já está. Sair já saiu tudo. Agora 'alguma coisa' tem de entrar. Ouvir este 'alguma coisa' e um sino antigo, cansado mas ainda alerta, retumbou entre a timidez da palavra e a voracidade que espreitava por detrás dela. Qualquer coisa, perto, rangeu.”
Ao rever esta crónica e, em particular, este último excerto, lembrei-me de uma frase de uma crónica intitulada “Como é que se Esquece Alguém que se Ama?” de Miguel Esteves Cardoso, publicada no “Último Volume”. Passo a citar, sem mais comentários para que se perceba a associação livre: “Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.”
Fiz uma pausa diurética. Voltei ao filme. Gostei muito. Recomendo vivamente. Não posso dizer mais sobre o filme porque não tenho espaço-tempo. Está garantido o regresso ao filme e ao cancioneiro gainsbourgiano numa crónica-por vir.
A noite passou e enfrentei o dia com energia. À saída do banho, embati em frente ao espelho com esta expressão oriunda, qual resquício-compensação, do último sonho: bússola moral. Eis o resultado do seu impacto posterior num escrito autoficcional:
"Vicente viu a sua bússola moral avariar-se. Num movimento descoordenado viu-se caído no chão e desnorteou-se ou des(u/o)lou-se. Estou perdido, disse para si mesmo a olhar fixamente para o céu que o revestia de uma aura obscura. Não soube para onde se virar. Antes da bússola se ter avariado, estava a escrever num pedaço de papel resgatado ao jornal do dia, a seguinte frase: Não consigo viver contigo, nem sem ti. Desconcertado tenta levantar-se mas a gravidade fez músculo e prostrou-o ainda mais. Sentindo uma impotência inédita, deixou-se estar. Acabou por adormecer, pois o seu corpo cedeu ao torpor. Oniricamente, viu-se sentado à mesa a jantar com a mãe, pai, irmão e namorada do irmão. Pára de comer e levanta-se da mesa e começa a dizer: Estou meio perdido. Agora apetecia-me foder e não sei para onde é que me hei-de virar. Olhando para todos de forma lânguida, abandonou a sala e foi para a rua. Nunca mais voltou. Ninguém soube mais nada de si. Continua vivo e agora vive em Tóquio e montou um negócio de venda de lingerie e underwear usados por europeus, um nicho de mercado que explora em circuito underground o fetichismo dos japoneses que são fascinados por boxers e slips com mais de uma semana de uso. Especializou-se em certificar o tempo de uso da roupa interior, qual escanção da interioridade fisiológica e visceral humanas, e os seus dias das 18h às 3h são agora passados no submundo de Tóquio entre vendas personalizadas e ultra-privadas com conversas singulares sobre o prazer onanista dos seus clientes a partir dos odores peculiares dos habitantes do velho continente, sendo que os artigos mais procurados são de origem lituana (na secção feminina com menos de 40 anos e com mais de um mês de uso), francesa (sendo as de Paris um sucesso), grega (em particular de habitantes das ilhas), espanhola (na secção masculina e provenientes de Sitges) e portuguesa (com destaque para as regiões demarcadas Douro, Trás-os-Montes e Alentejo, comprovando a sua colagem conveniente à comercialização de vinhos, o que se percebe pela importância do odor depois de aberta a garrafa, à semelhança da roupa interior depois de aberta a caixa protectora onde repousa a peça de roupa interior). É feliz."
É por tudo isto que eu prefiro saber de faith-divers em vez de fait-divers.
O dia passou num ápice. Já é quase meia-noite. Tenho sono. O melhor é ir ver televisão para adormecer e deixar que os fait-divers me embalem para um sono descansado.
"Governo anuncia mais um pacote de medidas de austeridade."
Mudo de canal.
"População de Amor, aldeia situada no distrito de Leiria, acredita que é a mais romântica de Portugal."
Ouvir este tipo de faith-divers é um bálsamo, qual balada encaminhante para o descanso. Rhhhh-uuuuhhhh-rrrhhhhh.
Caro/a leitor/a, esta ressonância é literária e tem um objectivo profiláctico e propedêutico.
- Adormeci logo. Dormi bem. Sonhei muito e acordei melhor. O título do sonho é: “Should I leave reality in peace?






























