Fotografias: Burra.
Alex Zhang Hungtai, almofada atrás da cabeça, pernas esticadas e filtro na mão. Lá fora, silêncio. A praça deserta. A lua e um ou dois transeuntes. Quase duas da manhã. Sempre que cá vem, o mesmo desejo – perder-se pelos bairros à procura de um suissinho. Primeiro, fumar tranquilamente; não se acaba um cigarro destes sem se pedir permissão aos deuses. Segundo, calçar o par de alpercatas.
Vagueia. Vira à esquerda ou à direita, sem intenção aparente. Sente-se confortável. Sabe que é só seguir mais uma luz ou duas e chegará. Sentado e de indicador em vórtice faz desaparecer o de morango. Está renitente em pedir outro. Pede? Não pede? Não pede! Quando, se vira para o balcão choque frontal com olhar decidido “How much? How much?”, “1000 dirhams! 1500 dirhams!”, repetem-lhe em cantilena quase hipnotizante, apontando para os pés, ou melhor alpercatas. É verdade que os marroquinos são famosos pelos seus chinelos e Dalí também teve muitas, mas nenhuma como aquelas. Prestes a deixar-se convencer, recorda quando as comprou. Há sete anos.
Lisboa, 27 de Julho de 2013. Soundcheck do Drifters/Love is the devil.
Alex: “Eh, Cristiano?!”. “Any sound problem?” responde este com olhar esbugalhado. “Not at all. Where did you bought your beach shoes?”. Ainda mal refeito, começa por explicar que não são exclusivamente para a praia, são calçado urbano, de desenho e com forro único, baseado na reinvenção da tradição dos lenços dos namorados de Viana do Castelo. São feitas de tempo e cuidado. Processo lento e minucioso. Ah, e que teria muito gosto em pô-lo em contacto com as fundadoras da Burra: Isabel Paiva, Tânia Afonso e Raquel Paiva.
Num bolso o necessário, no outro vontade. Vontade em ir buscar o que tanto procura. Tânia e Alex tinham combinado no Estádio. Entre um gole e outro de cerveja a conversa flui. Foi, neste café do Bairro Alto, que entre amigos, se decidiu dar nome tão sugestivo. Burra como animal único, familiar e teimoso. Teimosia para acreditar. Que se pode fazer diferente e que tradição é memória. Como tal, com as mantas um livro, com as pegas uma caixa de fósforos, com as alpercatas um cartão postal, com as almofadas uma história da avô. Burra porque transporta. Amigos. Os que permitem expor em galerias e não em lojas, os que com os seus desenhos valorizam a ideia – Rui Cardoso e Rui Pedro Lourenço. Fica promessa de novo encontro. Para comprar adereços para roupa? Quem sabe.
O regresso no final da tournée. Está tudo como deixou. A isto também se chama casa. Os dois gatos, as almofadas, as mantas, o avental e pegas. Já com a guitarra sobre o joelho dedilha primeiros acordes. Um tema sobre a Burra? Um álbum? Já não são objectos. São histórias e são memórias. E com a Burra, muitas.



























