Fotografias: Alípio Padilha.
Telefono-lhe. Sei que não iremos falar. Ouço-a respirar. Estamos tão próximos. Assim. Uma da manhã lá, cá também. Estamos em sincronia. O Casio preto de fabrico chinês e números grosseiros tenta demonstrar o contrário, a hora oficial, as sete. Aproveito este último momento. Deitado, fito o tecto. Desenhar-lhe o rosto. Sopro. Metade desespero, metade saudade. Lá está ela. Mais um minuto. Respiramos. Desligamos. Terminei de desenhar mais um círculo pequeno.
O primeiro? No capot. A caminho do sul. O sul. O sul permanentemente adiado. Vezes e vezes sem conta. O trabalho, os projectos de cada um. Fazia sentido. Tudo. Os nossos momentos, os amigos e os jantares. A vida preenchida e a rotina. A rotina de quem não arrisca. Até o dia. Esse sul. Sem destino. Sempre. Partimos.
Nesse momento de espera, ela vê-me a desenhar o círculo pequeno. Aproxima-se. Pega no meu dedo e aponta o centro. “Agora imagina”, diz-me. “Guarda a imagem”, ordena. “E lembra-te ou anota”, dá-me como opção. Uns quilómetros mais. Começo a fumar. Sem premeditação faço outro círculo. De dedo espetado atinge o centro. “Lembra-te ou anota”, digo. “Já o fiz”, responde de imediato. “E não me esquecerei”, como confirmação.
Onde houvesse parede, um círculo. Houvesse árvore, outro. Podíamos passar uma tarde. Assim. O nosso arquivo. Na areia, círculos e círculos com pedras no meio, para no regresso, desses passeios sem fim, repetir as imagens. As nossas. E no mar? Claro. É possível voar debaixo d’água. Como em Keats “tomámos parte da existência do pardal.”. Sem limites. Cada vez mais longe. E profundo. Continuámos a desenha-los. Mais pequenos. O perímetro como ponto.
Sem hora, como noutras tantas vezes, cada um o seu caderno. Onde tínhamos ficado? Vamos à próxima imagem? Marcado em mupi publicitário. “Gato persa sacode pata antes de avançar na neve”, leio-lhe. E a tua? Pergunto. A mesma? A segunda coincidência do dia. Amar. Já não vemos a dois. Vemos o mesmo. Como em Saint-Exupéry “Olhei com ela a partir do seu olhar e aprendi a olhar como ela para a abertura infinita que espera e reclama.”.
O sul deixou de ser localização e condição presente. Seis meses, já! Aquela chamada e a proposta de trabalho irrecusável. Eu (46°50′53″N 74°59′42″E), ela (38° 43' N 9° 8' O). Demasiada precisão. Infinita distância.
São eles, os círculos, que me aguentam. E a respiração dela.

































