DIÁRIOS DO UMBIGO

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Tive um acidente. Nunca tinha tido um acidente assim e nunca tinha partido um ossinho que fosse. Era uma amadora até há dois meses atrás e, apesar de todos sabermos que pode acontecer a qualquer um, há sempre um sentimento de imunidade, como se de super heróis nos tratássemos.
Foi e ainda está a ser uma grande chatice ter tido um acidente. Para além de ter de tratar de imensas burocracias, dói-me o joelho, tenho de me assoar com cuidado e a segurança social paga-me muito pouco para que a minha baixa seja encarada como umas belas férias.
Estou há dois meses metida em casa. Não me apetece fazer nada e não me apetece escrever sobre nada. Mas, como hoje é dia de eleições, porque não votar nas músicas que constituiriam a banda sonora do meu acidente? Não houve propriamente uma banda sonora na medida em que o leitor de cd’s do carro estava avariado há uns bons cinco anos e que as frequências que se apanham no auto-rádio a partir do Km 30 da A1 (sentido Sul-Norte) são maioritariamente duvidosas. Por isso o desafio deste artigo é:

Que músicas passaria caso fosse Dj no meu próprio acidente?
A viagem estava a ser bastante agradável. Estava na companhia do meu mais que tudo, a caminho de Viseu. Caso estivéssemos a ouvir música, poderíamos estar a ouvir?

a)Have love will travel (Thee Headcoatees)
b)Highway to Hell
c)Highways (Jim Sullivan)
d)Travelling Riverside Blues (Led Zeppelin)

Era sábado e estava calor. Eu estava contemplativa e com vontade de viajar por entre os planaltos ribatejanos, ressequidos por um Verão prepotente. A opção A é muito animada (apesar de haver amor no ar), a B nada em concordância com estado de espírito da altura e a C apostaria para uma viagem ao fim da tarde, já no crepúsculo. A resposta certa seria a opção D (porque ali no Ribatejo era-me possível imaginar-me no delta).

Estava tanto calor que tirei o cinto para tentar alcançar uma garrafa de água do banco traseiro. Uma pequena distracção leva-nos a passar a banda sonora, a gravilha e a embater no rail de protecção. Um despiste portanto. A partir daí sou só ouvidos… ouve-se um embate. Se estivesse a ver a cena de fora, que música escolheria?

a) Stop in the name of love (Diana Ross & The Supremes)
b) I’m a believer (The Monkees)
c) Right Place, Wrong Time (Dr. John)
d) 48 Crash (Suzi Quatro)

Claro que o carro não iria parar nem em nome do amor nem em nome de nada nem de ninguém. Por mais crente que eu fosse e por mais terços que rezasse (Fátima não estava longe), o carro não iria “ceder” ao seu livre arbitrium de embater. Resta-me a opção C e D. Na continuação da música escolhida anteriormente, o Dr. John parece-me o mais sensato! De facto nada apontava que estava no lugar errado… mas maldita hora em que passei por aquela curva.

O acidente poderia ter ficado por aí, mas não. Tal como acontece num bom Dj Set, às vezes só precisamos de nos sentir a voar. E foi isso mesmo que aconteceu. O carro voou, ou usando um termo mais técnico, o carro capotou (e na sequência disso, o carro kaput). Foram segundos de silêncio. Isso mesmo, silêncio… aquilo que ninguém está à espera de ouvir num acidente e muito menos num Dj Set. Pensa-se imediatamente que o Dj é um incompetente, ou que não escolheu uma música a tempo, ou que entornou um gin tónico para cima do sistema de som. Como contornar o silêncio?

a) 4’33’’ (John Cage)
b) Sound Of Silence (Simon and Garfunkel)
c) Silent Kit (Pavement)
d) Silence is Sexy (Einstürzende Neubauten)

Quem me conhece bem sabe que nunca escolheria John Cage. Primeiro porque não me quero armar em intelectual com traços avant-garde e segundo porque não estive quatro minutos e trinta e três segundo no ar em silêncio (embora assim o parecesse). Isso seria demasiado dramático. Simon and Garfunkel com The sound of silence mais dramático ainda. O silêncio que ouvi durante uns segundos também não foi nada sexy, garanto (excluo portanto os alemães). Resta o Silent Kit dos Pavement que ganha com maioria. O início cola bem com o fim da música do Dr. John e mantém as coisas num plano mais adolescente e menos sério. Mal eu sabia o que vinha a caminho.

"Depois da tempestade vem a bonança”. Mentira! Depois daquele momento de reflexão de pernas para o ar seguem-se decibéis dolorosos. Entre vidros partidos e chapa amolgada, que música descreveria o momento em que o carro aterrou em terra firme e me vi presa dentro do mesmo?

a) Emergency (Girlschool)
b) No fun (Stooges)
c) Run Run Run (The Velvet Underground)
d) Batmacumba (Mutantes)

Emergência é um termo que poderia muito bem aplicar a esta situação, mas para quê anteciparmos o momento em que chegam as ambulâncias e a polícia? Gostaria muito de ter corrido para bem longe do carro (até porque este podia explodir), mas felizmente a macumba contra o meu batmobile não resultou em chamas. O momento em si não tem graça nenhuma, daí o No fun dos Stooges ser o tema eleito neste round!

Estar presa dentro de um carro, sem sentir uma perna, sem ver de um olho e ter o nariz do tamanho de um legume do Entroncamento não é necessariamente um conto da Disney. Mas felizmente apareceu o príncipe encantado (qual Prince Charming de Adam Ant) que, num momento à Três Duques, me tirou do carro pela janela e me estendeu algures no Km 101, no chão e à torreira do sol. A vista aérea de mim era uma mulher irada em dores, lábil afectiva e ensanguentada. Imaginam que banda preenche os requisitos para dar som a isto?

a) Queen of Pain (The Cramps)
b) Feel the Pain (Dinosaur Jr.)
c) (Get a) grip (on yourself) (The Stranglers)
d) In my time of sorrow (Marianne Faithfull)

Escolha difícil, mas entre as quatro opções, destaco o tema dos Stanglers. Isto porque o que eu senti foi “The worse crime that I ever did was play some rock 'n' roll”. Eu sei que me aguentei à altura dos Stranglers…

Entre ambulâncias e hospitais, exames e observação médica, as dores não passaram. Pedi fármacos uma, duas, três, (…) vezes. E a questão coloca-se. Que música ouviria enquanto me dessem um analgésico (forte de preferência)?

a) Sister Morphine (The Rolling Stones)
b) If Love is the Drug (Brian Jonestown Massacre)
c) Pills (The New York Dolls)
d) Mr. Pharmacist (The Fall)

O analgésico não era forte, se é que me deram algum analgésico. Qualquer destas músicas teria um efeito calmante na dor pela qual passei. Eu sei que o amor não paga a renda (como diz Lydia Lunch e mais uma catrefada de gente), nem tira as dores, mas… deitada numa maca, vestida com um saco de batatas hospitalar, quase que garanto que os Brian Jonestown Massacre funcionariam melhor que o placebo que deram para me calar.

Já lá vão dois meses de recuperação. Tenho algumas cicatrizes e o meu joelho ainda não está no seu melhor. O meu carro morreu e eu ainda estou viva. Agora, sem carro, qual será o melhor meio de transporte para as minhas deslocações?

a) Bateau (Marc Ribot)
b) Leaving on a jet plane (Peter, Paul and Mary)
c) Magic Bus (The Who)
d) She comes running (Lee Hazlewood)

Não tenciono apanhar o cacilheiro tão cedo e falando sem papas na língua, também não tenho dinheiro para apanhar o avião para onde quer que seja (apesar de ser efectivamente um meio de transporte seguro). A rede de autocarros da cidade é tudo menos mágica, daí a optar pelas minhas próprias pernas. Correr ainda não consigo mas é o meu objectivo a curto prazo.

Exercícios mentais à parte: esta banda sonora foi construída após o acidente. A única música que realmente me surgiu no momento, e que até cantarolei para o bombeiro voluntário de Alcanena, foi Time is on my side de Irma Thomas. Em conclusão, o tempo tem sido meu amigo.

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