DIÁRIOS DO UMBIGO

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Agosto, mês de contrastes: ora não aguentamos a confusão à beira-mar, ora nos deixamos levar por uma certa melancolia no deserto da cidade. Eu prefiro a segunda. É a única altura em que a urbe nos deixa respirar, nos deixa pensar, nos deixa ouvi-la e vê-la a solo. Ainda que silenciosamente perturbador, Agosto vivido na cidade, é o mês em que sabemos que o ano dá a volta, em que tiramos férias de uma ou mais rotinas, que abrandamos na mesma geografia. E para que isso seja assim, aceitamos totalmente o facto de Agosto ser também o mês que muito pouca coisa acontece e é assim que deve de ser. Logo, discos bons, filmes bons, concertos (à excepção dos festivais e de surpresas vindas de Prince) ficam todos encolhidos no buraco negro que é a silly season à espera da rentrée para esticar os braços.

É neste contexto, no de captar o que me está à volta mas com um ISO mais elevado, que escolhi como banda sonora, para a e o Umbigo, um dos álbuns que mais me passou pelos ouvidos e aquele que mais rapidamente me leva do mais extático dos estados ao mais contemplativo, álbum esse que ironicamente foi editado num Agosto, o de 1966: Revolver dos Beatles.

ELEONOR RIGBY

O monocromático da capa do sétimo álbum dos Beatles é a pista ideal para anunciar os primeiros esboços da psicadelia dos Fab Four. E, para mim, psicadelismo é a preto e branco, sem degradés, directo e de traço firme, sem os enfeites rococós do 'flower power'. Eleonor Rigby mais a preto, Tomorrow Never Knows mais a branco, são os dois exemplos gritantes da mudança nas composições de Lennon e McCartney, com o primeiro a aventurar-se em experimentações livres de qualquer sentido e o segundo a dar largas à negritude lírica do seu imaginário ao mesmo tempo que aprimorava as suas melodias. Mas enganem-se aqueles que acham que esta é a linha condutora do álbum.

Revolver não tem linha condutora. Arrisco mesmo a dizer que o brilhantismo deste conjunto de 14 canções é realmente nenhuma ter a ver com a anterior, sendo que são todas obras-primas à sua maneira. E aqui há de tudo: cítaras vindas das viagens à India de Harrison (Love You Too), arrebatadoras orquestrações de sopros (Got to get you into My Life), R&B assanhado (Taxman), solos de guitarras ao contrário (Im' Only Sleeping), palavras difíceis que roubam protagonismo à melodia para a tornar maior (For No One) e até o surrealismo infantil vindo, imagine-se, de Ringo Starr (Yellow Submarine).

É um "vale-tudo" que, de tão livre e inspirado, se tornou num monstro que ganha dimensões incomensuráveis a cada audição. Um monstro a quem temos necessariamente de 'volver'. Como a cidade.

FOR NO ONE

Revolver é para mim "the ultimate pop album" que, não só inspirou tantas bandas/álbuns depois dele, como me continua a abrir as portas da percepção e me enche de imaginação. Uma trip que me apanha por todos os lados e que me deixa alerta na maior das tranquilidades.

Depois de Agosto de 1966, os Beatles não mais seriam os mesmos. Depois de Agosto de 1966, a música pop não mais seria a mesma. Assim como, a seguir a qualquer Agosto, nenhum ano é o mesmo.

ÁLBUM COMPLETO

 

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