Fotografias: Hell Yeah.
Boris acorda. Não, Boris não acorda. Bem, acorda mas não quer. Tem a terrível sensação que vai ser um dia de pensamentos em catadupa. De recordações em forma de Doc Martens mais pesadas e curtidas que as famosas matinés do Hardcore de Linda-a-Velha. Tem o coração estilhaçado. É um Chuck Norris a trabalhar lá dentro. São seis, sete golpes vindos sabe-se lá de onde e sem defesa possível. É o dia a seguir à ressaca. Depois do choque, a tomada de consciência. Pauh. Tenta recompor-se.
Vai à cozinha. Café duplo, sem açúcar. Não pode haver concessões. Há que ser homem. Levantar. Andar. Andar. Levantar. Auch. Mesmo ao lado o espremedor de citrinos (4,99 euros). Oferta da Theresa. Nem uma semana. No Ikea de Alfragide, correr como personagens de Godard em museu pós-moderno. O que conseguisse agarrar primeiro ofereceria ao outro. Hã, grandes piratas. A procura do tesouro, do objecto único. Cambaleia. É duro demais.
Mas, já se sabe, um mal nunca vem só. Volta a cabeça e nova recordação. O quit de especiarias (preço médio por frasco – 1,5 euros) que Mafalda, a melhor amiga da ex, lhe tinha oferecido para a casa nova. Tanta esperança, tanto carinho ao preparar o camarão à tailandesa com salada de manga. Ich, e o prato favorito dela - salada bulgur de amêndoas e tâmaras. Agora tudo que leve cominhos é-lhe insuportável.
Boris é bem-parecido, inteligente e acima de tudo, qualidade que escasseia, culto. Não faz gala, mas não é difícil perceber. Basta lançar-se e tauh, desengata conversa para mais de 15 minutos sobre Artaud e seus contemporâneos. Vai para a salinha de leitura com vista sobre o Tejo. Arrisca, pega num Debord. Não é a escolha óbvia para dias como este. São as reminiscências da licenciatura na Sorbonne. Abre aleatoriamente Considérations sur l'assassinat de Gérard Lebovici e mesmo a meio uma carta com poema (12 folhas papel de carta – 3,7 euros). Sem dificuldade reconhece caligrafia e debita interiormente e sem hesitar o respectivo conteúdo. Procura refúgio no Facebook. Do lado direito promoção especial para Pousada da Juventude de Vilarinho das Furnas (quarto de casal; época baixa – 32 euros). Sim, é verdade. Tudo era verde. Os campos, a esperança num futuro incomensuravelmente maior. Verde da reciclagem, da carteira feita de mapas (0 euros) que retira a medo sempre que mostra o passe ou das flores feitas em papel (0 euros) que acaricia antes de dormir.
O amor não é perfeito. Bem a flor é-o. Mas, Boris não é gajo para desistir. Muitas vezes idealizou a relação Sartre – Beauvoir. É tempo de viver a dele. A dele com a Theresa. A feita de pequenas ofertas em grandes momentos. Pega no telemóvel, na mão direita um conjunto de 20 ganchos (2 euros) e na da esquerda, os mesmos dois pins da Pantera Cor-de-rosa (1 euro cada) que o seu grande amigo Leo Leonel ofereceu à Ana. Está a chamar.
(continua)

































