No Galeto há muito mais do que Frango no Espeto.
Notas preliminares.
Este podia ser um slogan do Galeto, mas não é, apesar do seu logótipo. Em caso de necessidade para melhor percepção do slogan procurem-no e frequentem-no para comprovar o que digo. Contudo, e para que fique claro, é evidente que este slogan emana da minha vivência no Galeto, onde para além de comer – e assinale-se que nunca lá comi frango assim ou assado, nem gratinado no forno -, também me vejo dentro de um filme, onde também sou personagem.
Nesse jogo dramático, ver é ser visto e à semelhança da prática antropológica, o observador também se torna um corpo atractivo a ser observado. É simétrico. Deste modo, ir ao Galeto é diferente de ir a um espectáculo teatral onde por mais esforços que se envidem nunca deixa de existir uma assimetria originária.
Fazemos parte do mesmo espectáculo que é duracional das 8h da manhã até às 4h da /e de (a)manhã. Lá instalados em cadeiras rotativas propiciadoras de movimentos pueris e de incidentes prenhes de comicidade, somos figuras que perpetuam uma longa-metragem doc-ficcional que versa sobre a gastronomia, a restauração, mas também sobre a condição humana nas suas mais diversas facetas: a convivência, a solidão, o engate, as duplas vidas, o estatuto social vs. o simulacro da mobilidade social, a gula, a força do(s) hábito(s), o lifestyle.
O que é o Galeto? a partir da minha memória descritiva precedida de um apontamento histórico
Aquando da minha última ida ao Galeto, voltei a sentir necessidade de escrever uma crónica sobre este clássico da restauração em Lisboa. Tendo sido inaugurado em 1966, foi considerado à época um “templo de modernidade”. É compreensível, apesar da contradição dos termos.
Sendo muito mais do que um restaurante ideal para degustar uma refeição ligeira ou pesada a desoras, o Galeto é um espaço que nos agencia uma reflexão, tal é a potência das imagens que nos oferece.
Eis o resultado dessa requisição depois de ter editado os vários apontamentos que anotei “in loco”, na maior parte das vezes nos individuais de papel que emolduram os pratos, imbuído de uma atitude-olhar que lhe dedicou uma atenção especial, qual trabalho de campo.
Ainda que seja um cliché, mas há clichés que merecem a sua perpetuação para continuarem a sê-lo, importa dizer que ir ao Galeto é uma viagem no tempo e a um Portugal pré-revolucionário - que por aqui e aquando da sua inauguração parecia querer importar, qual ventania progressista, tendências arquitectónicas e vivenciais dos chamados snack-bars ingleses - pois mantendo a sua decoração original, contem elementos que nos transportam para dentro de um cenário ao mesmo tempo impessoal (já que se vai sozinho ou, quanto muito, a dois) e familiar (dada a forte probabilidade de se aprofundar ligações intensas com os empregados que se convertem em confidentes). Essa dimensão ambivalente e idiossincrática também se deve às paredes revestidas a madeira escura e aos painéis de azulejos pretos com aplicações circulares metálicas, quais tachas, douradas, dando-lhe um leve toque palaciano do Norte de África, já para não falar dos característicos balcões corridos dos restaurantes europeus da época em que são suportados as bases dos menus, dos molhos e dos temperos e de certos pormenores decorativos que nos reenviam para o ambiente doméstico como é o caso das fruteiras hiper-realistas em pirâmide, sempre tão cuidadosamente guarnecidas de fruta da época. A isto deve-se acrescentar o serviço rápido e eficiente garantido por uma equipa também ela “sui generis” – mas já lá iremos.
Outro elemento bastante datado, mas igualmente fascinante, são as vitrinas que são alugadas a todos aqueles que queiram expor os seus artigos ou tão só fazer publicidade a marcas ou a outros locais de diversão nocturna, porquanto não é de espantar que possamos fruir de vitrinas decoradas por vitrinistas profissionais que possibilitam a exposição cuidada de artigos de moda de luxo ao lado de artigos vários de uma Sex-Shop, mas também da SWAROVSKI, ou até de artigos religiosos e, pasme-se, de uma Agência Funerária que se chamava - nunca mais me esqueci -, “Vida Eterna”. A tudo isto deve-se acrescentar vitrinas com publicidade a bares e a casas de Fado. As que mais gosto são as vitrinas de lojas de roupa íntima de luxo, já que sem qualquer esforço se projectam nalguns corpos co-presentes, numa espécie de correspondência auto-reflexiva entre os artigos e os/as clientes.
Já mais recentemente, e denotando uma vontade de acompanhar os tempos e com base num ímpeto de actualização e de adequação aos interesses da clientela, destacam-se seis plasmas estrategicamente colocados no campo de visão dos clientes. Na última noite que lá estive, esses plasmas permitiram-me ver os três golos do Benfica ao Fenerbache, uma imagem de uma adepta do Barcelona a comer uma batata frita gigante de pacote antes do jogo das meias finais com o Bayern de Munique em Camp Nou, o desalento do Cristiano Ronaldo após a eliminação do Real Madrid da Champions, a dupla alegria dos adeptos alemães perante o domínio europeu também ao nível do futebol e a notícia em roda-pé de que a crise está a afectar a taxa de natalidade em Portugal.
A tudo isto se deve acrescentar a música ambiente de fundo que oscila entre compilações “best-of” intermináveis de música erudita do reportório universal - como por exemplo a 4ª Sinfonia de Beethoven - e do cancioneiro pop – cite-se “What a Wonderful World” de Louis Armstrong - re-interpretadas por orquestras duvidosas dos Andes, onde predominam as flautas de Pan que emprestam ao ambiente geral uma camada lounge-multi-culti difícil de combinar com tudo o resto. Contudo, esta estranheza ou desacerto acaba por resultar em algo atractivo, convertendo o Galeto num espaço desconcertante e inapreensível, logo por isso tão surpreendente. Contudo nem só de flautas se baseia a escolha musical. Nada disso. Das colunas do Galeto, também são pulverizadas sonoridades Bossa Nova ou da música popular brasileira e até jazzísticas e pop imediatamente reconhecidas, desde logo pela rotatividade dançante das cadeiras.
O Galeto é um dos poucos restaurantes que conheço em Lisboa que tem quatro cartas. A saber: 1. Pequenos Almoços. Combinados. Lanches & Sanduiches. 2. Saladas de Frutas, Gelados & Batidos Doces. 3. Aperitivos & Vinhos. 4. Menu & Snack-Bar. Todas elas são graficamente irrepreensíveis, conservando um design oitentista, onde sobressai um fio dourado glamouroso na sua fina lombada.
Na quarta carta, surge-nos uma ementa onde existem sempre várias sugestões do Chefe - desconhecido, diga-se nesta passagem do texto. Estas recomendações, na maior parte das vezes, não vêm mesmo a calhar, mas dadas as circunstâncias acabam por se impor aos apetites prévios. Se transcrever alguns exemplos para escolha gastronómica, julgo serem perceptíveis as razões da mudança. Senão vejamos: comecemos por uma variedade de saladas (em que se destaca a salada tropical), passando depois pelos Espargos com Molho de Manteiga, pela enigmática Maionese de Peixe à Bela Vista, pelo Rosbife à Inglesa, pelos Croquetes de Vitela à Provinciana e até pelo Ananás com Presunto.
Quem não seguir as sugestões do Chefe, tem à sua disposição mais de 180 possibilidades: dos bifes aos combinados, das tostas às sopas (onde se destaca a sopa de tomate gratinada com ovo escalfado e coberta por croutons e queijo ralado), e consoante o dia pelas especialidades semanais que vão desde terça-feira a Chispalhada à Transmontana, passando à quinta-feira pela Feijoada à Brasileira e indo até ao domingo com uma Espetada de Lulas com Gambas à Galeto.
Em suma, no Galeto quase todos os desejos são concretizados. Sendo uma cozinha tão internacional, quanto tipicamente portuguesa, possibilita elasticamente uma degustação, a nível dos sabores, de 8 a 80. Agora escolha(-se).
Apenas uma dica! Se a opção for um combinado é imperioso pedir um “meio-meio” como acompanhamento, traduzindo trata-se de um prato com esparregado e batata frita. As bisnagadas de esparregado saídas daqueles artefactos-funis dos anos 80 são, ainda que cada vez mais farinhentas, um delírio, sobretudo depois de olhar para a copa em que se vêem homens atarefados com toucas enfiadas até às orelhas carregando-as ao ombro.
Peço desculpa mas acabou de chegar o meu pedido. Bom apetite! – diz quem me serve o combinado nr. 6, a saber: Tosta, bife Hamburguês, queijo e cebola frita. Interrupção súbita para degustar. Huummmmm. Volto já. – Uau! (acabou de chegar o prato “meio-meio”
To be continued...
Nelson Guerreiro (escreve em desacordo ortográfico)





























