O sol começa a espreitar, deixam de ser necessários dois casacos, o calçado é mais leve, o espírito flutua e uma das músicas que cola auscultador à orelha é Feeling Alive de Gomo. Não é Verão, mas é como se o caminho para lá chegar se tornasse infinitamente mais curto. Decidi, rever um dos vídeos mais imaginativos e mais bem realizados dos últimos anos da música portuguesa. Durante os quase cinco minutos de duração é nos dada a resposta para uma das perguntas sacramentais da contemporaneidade - Como é possível fazer sem dinheiro?
É com o mesmo espírito, o de me sentir vivo, e com o enorme curiosidade, que me desloco quase todas as Terças-feiras à Bica, e ao Bicaense em particular, para assistir a mais uma sessão do Shortcutz. A utilização do termo “mais uma” não é casual, são já 132 sessões a divulgar curtas-metragens tanto de ficção, como de animação ou exercícios marcadamente experimentais. O serão, e contrariamente ao que o nome pode indiciar, torna-se bem longo, não só pelo visionamento dos filmes, mas sobretudo pela estimulante tertúlia que se gera em torno de questões como as políticas de apoio à cinematografia nacional e respectivo financiamento ou relacionadas com a realização das obras. Tenho a certeza, e certamente não serei o único a pensar tal, mas muito do “bichninho” em querer filmar uma curta encontra aqui uma incubadora ideal. Porto, Madrid, Berlim, Amesterdão, Londres são outras cidades que já acarinham este conceito. Ah, e não vá alma distraída perguntar, mas sim é de entrada gratuita.
Às Quartas-feiras e um pouco mais próximo do rio, no Cais do Sodré, há lugar para novas descobertas, desta vez na área da música. No Musicbox, e através do Offbeatz as bandas encontram-se, e citando um spot radiofónico, perante o “derradeiro teste: o palco”. Muitas delas pisam-no pela primeira vez, outras apresentam mais rodagem, mas fazem-no com igual vontade e determinação. A noite começa com a apresentação de dois vídeos de duas bandas; em seguida, os concertos propriamente ditos. Também aqui, vale bem a pena ficar mais tempo do que o estritamente programado, pela possibilidade em estabelecer contacto com os músicos ou ter conhecimento daquilo que mais recentemente se vai fazendo na música portuguesa. Por exemplo, a primeira vez que ouvi falar da Cafetra Records e vi as suas edições foi no Offbeatz. Sim, isso mesmo, é de entrada gratuita.
Na génese destes eventos encontramos características comuns: o cunho marcadamente urbano dos locais que os acolhem, a vontade em marcar a noite da cidade com actividades culturais regulares e gratuitas, o de criar espaços estimulantes para a discussão e debate. Foi com base neste último princípio, que nasce o que se pode considerar como o mais recente rebento da Labz, ou em designação não oficial, da família Z. Tem por nome Mass Mindz Lisboa, de periodicidade mensal, nas primeiras Segundas-feiras e como não poderia deixar de ser no Loucos e Sonhadores, ao Bairro Alto. Pretende-se recriar o espírito pelo qual Lisboa sempre foi conhecida: de tertúlia, de procura de novas ideias.
Nunca tinha sonhado poder usufruir duas vezes por semana de cinema e concertos gratuitos. Mas, felizmente Rui de Brito, também ele sempre Feeling alive, com muito pouco dinheiro, muito querer e equipa motivada, não só tiveram essa audácia, como ao longo destes anos tiveram a convicção íntima de estar a dar às cidades aquilo que os seus habitantes sempre esperam: um ambiente de trocas estimulante, um lugar de partilha, de criação e inovação.



























