Cuidado com os homens muito feios! A sério, muito cuidado. Estou a falar de homens daqueles que nem com os melhores tratamentos de beleza, as maiores depilações, as roupas das melhores marcas, as melhores dietas… Nada conseguiria fazer com que fossem bonitos. Este tipo de homens frustrados passa uma vida inteira de ressabiamento. Na escola as miúdas não olhavam para eles, e o seu refúgio era no quarto onde criavam templos de música, literatura, BD, filmes etc, para compensar a falta de atractivos físicos com uma intelectualidade snob. Falamos de homens que têm de usar barba para tentar esconder o rosto e dar um toque maior de blasé de esquerda. De pessoal que nunca foi cool e odeia quem o é.
Estes homens tiveram que se refinar num humor retorcido que ridiculariza tudo o que tenha estilo, que seja provocador, que saia fora da norma social. Enfim, tudo o que eles nunca conseguiram ser. Esta espécie, criada entre os anos 70 e 80, habita agora antros como o Canal Q, as Produções Fictícias, a TVI, a Time Out e outros meios de comunicação com uma abordagem niilista que não leva nada a sério. E que tem grande sucesso, ou não fosse o português geralmente um povo retorcido e invejoso que gosta de gozar com quem consegue fazer algo de diferente. Exemplos disso são os reaccionários Gato Fedorento e o execrável Salvador - meu Deus, deviam-me pagar os Kompensans que ando a tomar por ver aquela fronha todos os dias em centenas de mupis de Lisboa.
Esta gente acha-se dona da razão e dedica-se a fazer humor com tudo aquilo que saia da vida comezinha. Desprezam as lutas sociais das minorias, os avanços da ciência, as conquistas da filosofia e da arte contemporânea... Gozam com os outros porque são gays, porque se vestem assim e assado, porque têm vidas insólitas, porque têm sotaques, porque são estrangeiros, altos ou baixos, gordos ou magros, porque são pretos, azuis ou amarelos… É assim que se ridiculariza tudo e qualquer coisa de forma pouco inteligente. A ModaLisboa, por exemplo, deixa de ser um evento importante para a indústria para se tornar num desfile freakshow… Tudo isso é motivo de rir e depois não há mais nada.
Quem me agravou a úlcera esta semana foi o jornalista Carlos Vaz Marques que resolveu gozar com a actriz e encenadora Mónica Calle, porque ela se masturbou em palco na peça “Os Meus Sentimentos”. Depois de um registo factual de quem não entendeu nada, ele conclui a sua crítica com: “Eu saí, fui mijar e vim-me embora”. Palmas para este talento literário! Nunca o senhor ouviu falar de Living Theatre, de happenings, performances, etc. E isso não teria mal nenhum se ele não fosse jornalista, profissão que obriga a algum pudor em dizer mal sem saber do que se fala. Resolveu fazer pouco do trabalho de uma artista no Facebook. É claro que outros tantos feiosos e ressabiados se juntaram à causa, condenando a actriz por um trabalho que de vanguardista até pouco tem (a nudez no teatro apenas nos anos 60 e 70 é que era coisa radical). A mesma causa que acha que isto e aquilo não é arte, que tudo é freak e coisa para se rir. E com isto o antiquado e convencional Portugal se vai tornando cada vez mais mesquinho e acinzentado.
A propósito disto, é útil relembrar esta palavrinha: Reacionário: adj. e s.m. Que ou aquele que defende princípios ultraconservadores, contrários à evolução política, ou social.
*As opiniões exprimidas pelos nossos cronistas são pessoais e não reflectem necessariamente as posições da Revista Umbigo.


























