Fotografia: Denise Cunha Silva
Interiorizo tão fortemente a expressão “Obras de Santa Engrácia”, que decido fazer arrumações em casa. Começo por deitar fora fotocópias, flyers e revistas. Tarefa tão fácil que nem deveria ser mencionada. Todavia, tal exercício pode levar noites e noites. Isto porque leio e releio aquilo que devia e não devia. Reparo numa pequena entrevista de António Jorge Gonçalves publicada no Guia da Noite – Lx Magazine #15. Contava que durante a sua estadia em Londres tomava grande parte das decisões baseado no que a sorte dos dados lhe reservava. Fiz o mesmo. Primeiro lançamento – quatro. Tive que escolher museus. Segundo lançamento e novamente quatro. Ou seja, número de museus a visitar - quatro. 4 & 4 - capicua. Com tamanha fezada nada poderia correr mal. Atirei-me de cabeça.
Museu Nacional de Arte Antiga (www.mnarteantiga-ipmuseus.pt). Sempre que lá vou começo pela exposição temporária. Desta vez, A Arquitectura Imaginária. Pintura, Escultura, Artes Decorativas. Soberba. Estruturada em cinco núcleos pretende estabelecer relações entre a arquitectura, os seus diferentes estilos e significados com o mais variado tipo de objectos de matriz religiosa: relicários, livros sagrados, custódias, retábulos e sacrários. Logo ao início, cinco maquetas, de cinco arquitectos contemporâneos. A partir daqui é entrar em cada sala e suspender o tempo. Ver. Ver com muita atenção. Regresso obrigatório até ao dia 30 de Março, mas com guia. Antes do café matinal, num dos mais belos jardins da cidade (o do museu) um salto à sala 50 para aprofundar os conhecimentos sobre os quadraturistas. Sento-me numa cadeira demasiado baloiçante e que em nada facilita o exercício de olhar para o tecto. Contrariando o efeito vaivém tento assimilar esta técnica desenvolvida, no nosso país, por Vicenzo Borelli. Ilusionismos. Os tectos pintados do Palácio Alvor é o nome da exposição e bom exemplo da arquitectura do efémero.

Efémero é, também, o edifício que visito a seguir – Espaço Brasil (www.facebook.com/#!/espacobrasil2012.2013). Na fachada, figuras de diferentes tamanhos. À entrada contentores azuis, vermelhos e amarelos. O edifício foi recuperado para assumir um tom festivo. E que celebração. Com áreas destinadas à restauração, concertos e comercialização de produtos culturais há, também, um para exposições. Até 21 de Abril, a arquitectura portuguesa no traço de Lúcio Costa. Durante a viagem que realizou em 1952, este arquitecto e urbanista brasileiro desenhou, desenhou e desenhou. Tão bem e com tanto detalhe. Por exemplo, a escadaria do Bom Jesus, casa em Alenquer, aqueduto em Elvas.
Arquitectura e urbanismo são o traço comum. Desta vez, O ser urbano – nos caminhos de Nuno Portas, que esteve patente na Garagem Sul do CCB (www.ccb.pt). Trabalho de compilação e sistematização inexcedível do comissário Nuno Grande e equipa. Do plano de Olivais Sul, ao Polis de Aveiro, aos acetatos das aulas que transformam denominações como PP’s, PU’s e PDM’s em cantilenas está lá tudo.

Como também estão todos os objectos que povoam o quotidiano de Manuel João Vieira, na quarta e última exposição. Na Cordoaria Nacional e até 07 de Abril - Casa Vieira. A simplicidade da estrutura em madeira, réplica da casa original, contrasta com o complexo processo adivinhatório que cada visitante terá que fazer para descortinar que estória esconde cada guitarra, caneca, revista e telas de um artista/personagem bigger than life.
Dados lançados, acaso cumprido. Dois Domingos, quatro museus, dois euros e um tubo de cola. Fiquei com vontade de montar a maqueta do Luxor Theatre de Roterdão, entretanto, resgatada das arrumações.

























