DIÁRIOS DO UMBIGO

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Tenho para comigo que cada vez mais os prazeres têm de ser vividos na sua intensidade máxima. Que nos devemos viver, viver os outros (ou pelo menos os que gostamos, que não há cá tempo para fazer fretes) e viver o que nos irrequieta com os níveis a bater nos vermelhos. Não é de agora, é de sempre. Não é só com algumas coisas, é com tudo. E a música não poderia escapar: ouvir 30 vezes seguidas o "Roadrunner" dos Modern Lovers; ver 15 vezes seguidas o videoclip do "Universal" dos Blur; delirar com o tema novo daquela banda nova na Pitchfork, que vai deliciar o pessoal super cool dos festivais de Verão super cools. Tudo isto é maravilhoso, fica tão bem, fica-nos tão bem. Mas, e descer a rua, entrar no café do bairro, pedir uma bica e, de repente, ouvir o The Sign dos Ace of Base? Hmmm, é melhor que aquela miniatura de pastel de nata que todos deveríamos receber com o café. Na transposição da barreira dos 30 houve pouca coisa que me tenha ficado pelo caminho. Mas uma ficou de certeza: o 'guilty' dos 'guilty pleasures'. Se é prazer não pode ter a culpa a adjectivá-lo. É prazer, é prazer! E para um prazer ser verdadeiro tem de ser sem pudores, sem pecados.

Quem é que não gosta de conduzir num dia de sol, janela aberta e o cantante a partir com a canção "Bohemian Rhapsody" dos Queen? Quem é que não fecha os olhos e tomba a cabeça a ouvir o "Tiny Dancer" do Elton John ou o "You're so Vain" da Carly Simon? Quem não se emociona com o treino do Rocky III ao som do "Eye of the Tiger" dos Survivor? Quem é que nunca esteve em verdadeiro 'telefone vermelho' com o coração ao som de "Total Eclipse of the Heart" da Bonnie Tyler? Poderão dizer que ninguém. Pois eu digo-vos: EU! E sei que para todos estes exemplos, terão os vossos correspondentes, tão ou mais inexplicáveis que os meus. Estas são músicas nas quais olho nos olhos e, destemidamente, digo: quanto mais me bates, mais gosto de ti. São tão importantes como todas as outras que ficam lindamente na coluna de 'gostos e interesses' do meu CV porque, para além do prazer que me dão, sei que são também responsáveis pelo fine tuning do meu gosto musical.

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Numa era extraordinária onde todos podemos ser os editores quase totais do que vemos e ouvimos, numa era em que cada vez mais podemos controlar o acesso à informação que nos chega através da subscrição de newsletters, bookmarks e alertas, numa era em que somos os detentores-mor do 'lápis azul' nas nossas playlists, assusta-me o facto de cada vez mais termos os ouvidos privados do parolo, do kitsch, do mau. Ele está para a construção do gosto como um arqui-inimigo está para a força de um super-herói. É ele que dá textura, profundidade, perspectiva ao bom. Segundo um certo pensador latino, “é ele o azeite que nos impede de ficar presos à frigideira”. E todos nós precisamos da nossa dose de azeite. A Clarice Lispector disse: 'a feiúra é o meu estandarte de guerra.' Por isso, façam-me um favor, com toda a intensidade que vos seja possível: tratem as vossas belezas e feiúras com um amor de igual para igual e agora vão lá ouvir aquele tema que querem esconder a todo o custo. Ah e nem vos passe pela cabeça activar o modo Private Session do Spotify.

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