DIÁRIOS DO UMBIGO

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De conhecimentos parcos em matemática, matéria que não deveria ser motivo de orgulho, muito menos tema para introdução de artigo, sempre considerei a maioria das equações de resolução impossível; mesmo aquelas que o colega de secretária se desenvencilhava com a mesma rapidez com que o Andy Murray dispara os seus serviços. Quando me aparecem pela frente contorno-as. Urge demonstração. Então cá vai.

“Encontrando-se bem no centro de Lisboa, de costas para a Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e desejando ir até à Praça de Luís de Camões, indique o tempo mínimo que Luisinho deverá percorrer para chegar ao destino final. Apresente os cálculos que considere necessários.”

Os mais afoitos, não eu, começariam por listar um conjunto de variáveis: pendente da rua, condições climatéricas, dados psicomotores entre outros. No meu caso, reduziria tudo a uma – factores de distracção.

E eis que aparecem logo no início, do lado esquerdo. Não se esqueçam, estamos a subir. Não é a apetecível promoção anunciada em folha de papel de mesa “1 imperial + camarão = 3 euros” do café da esquina. É, sem dúvida, a Trem Azul.

Para aqueles que ainda estão preocupados com a resolução do problema passará completamente despercebida. Para os outros, mais interessados na descoberta de uma das mais bonitas ruas do mundo, sem qualquer chauvinismo bafiento, é um dos locais mais encantadores da cidade. Do gradeamento da entrada, como estivéssemos em Bristol, ups – referência subliminar a Evan Parker, às escadas em metal, aqui somos uma personagem dos livros de Mickey Spillane, outra homenagem nada discreta a John Zorn. Antevê-se chegada tardia ao Largo de Camões.

Entramos. Após algumas alterações, mais ou menos profundas no último ano, deparamo-nos com um espaço amplo, arejado e onde o jazz nas suas mais diferentes expressões, improvisada, experimental ou outras designações que lhe queiram atribuir encontra aqui cabimento para se explanar ou entrar em longos rodopios, dependendo de quem estiver atrás do balcão e, logicamente, aos comandos do leitor de cd’s. Do lado esquerdo, a prateleira das promoções, em frente a dos vinis, mais uma prateleira, mais vinis e nas paredes ilustrações. Mas, então não é uma loja de discos!? É, mas não só. É uma loja, é uma galeria d’arte, foi aqui que me cruzei, pela primeira vez, com o trabalho do Pedro Vieira, esse mesmo do Irmão Lúcia, é um espaço para concertos, só para citar o último: Black Bombaim com a participação de Rodrigo Amado (haveria forma mais estimulante de encerrar o Rescaldo?), é abrigo de editoras que dispensam apresentação (Clean Feed Records) e de outras que estão a dar uns muito vigorosos primeiros passos (Shhpuma), e claro está, poiso para beber uma cerveja e de encontro para muitos músicos – Felipe Felizardo, Pedro Sousa, Tiago Sousa entre tantos.

Então e o resultado? Ah, o tal. E sem ajuda da máquina de calcular. Quatro cd’s, sim ainda os compro – Jeb Bishop Trio + Lennie Niehaus + Harry Edison + Lee Konitz com a Orquestra de Jazz de Matosinhos tudo por 9 euros. Na cd universe e após conversão 43 euros. E muitos lá ficaram. Zero euros foi o que me sobrou e ainda falta subir a rua.

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