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Num espaço amplo dominado pela presença imóvel de colunas grossas de pedra, no meio da cidade, bem no meio da cidade, descansam orelhões azuis deitados, cada um cantando a sua melodia. Gritando e não gritando, segredando alguns baixinho, dizem todos os sons coisas várias do lugar longe de onde vêm. Esta música de outro tempo escreve-se em mistura naquele espaço, fundindo-se e sobrepondo-se colorida numa massa contida apenas pela nossa limitação de ouvir; parcial sentido que só nos vai entregando uma parte pequena daquela sonora floresta de invisiveis recantos.

É inventando a trilha por entre os jorros particulares do registo sonoro que vamos deambulando, na privada aventura da descoberta de uma ilha em mutação permanente no meio da cidade; e que como ela, se faz também da amálgama cacofónica de mil linguas e vozes, de rumor sublime e selvagem, de cor e tecido intocáveis. A várias partes do mundo o artista pediu registos sonoros numa intenção que terá mais de afectiva homenagem que de estratégico, e que marca esta obra com a carga forte de uma clara vontade: a construção de uma cidade privada e simbólica - suspensa e imaterial mas sólida e complexa, ruidosa e corpórea - feita de histórias e lugares reunidos num critério de curiosa e disponível afinidade; sempre decorrente de uma cumplicidade verdadeira e natural.

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Por esta construção nascida de um cosmopolitismo íntimo e exclusivo somos convidados a derivar, testemunhos do incompreensivel turbilhão que vamos atravessando, e ignorantes perdidos do mapa de relações e sentimentos em que assenta esta teia, feita das origens e fontes diversas que vivem espalhadas pelo universo particular do artista, e pelo mundo. Parece no entanto que este ambicioso hino à criação de um mundo singular de selectividade afectiva - que criteriosamente excluí o acaso e a obrigatoriedade de convivências não profícuas ou involuntárias - carrega no seu valor metafórico o gérmen de uma afirmação politica, consciente e pessoal, o impulso claro de uma vontade transformadora da articulação social: será sobrepondo ao ruído descontrolado e caótico da humana multidão a minha mais fértil teia de relações, que inventarei um espaço de liberdade criativa, de descoberta, de transbordante mas elevada conversa, de verdadeira habitação plena da vida.

A Cidade Sonora de Floriano Romano quer fazer-se em cada um – íntima, livre, sem fronteiras - como a mais fecunda das Babilónias!

Este será assim o lugar privilegiado que construímos e habitamos, presentes os que mais nos fortalecem, estimulam e alimentam; uma escolha assumida que vamos fazendo, rejeitando a roda perdida e louca do mundo; afirmando-nos como arquitectos do nosso imediato meio, superiores a leis de corpo, conduta, geografia, fronteira... Este é um espaço de colectiva liberdade, onde a única regra é a nossa livre escolha dos outros, companhia que se afirma depois pluralmente ruidosa e produtiva!

Como numa construção que premia a eleição enriquecedora do outro diferente, sublinhando a complementaridade e o engrandecimento através da união e do encontro do não igual, encontramos aqui a convivência de facto de registos que lá fora, na vida, se encontram perenemente afastados pelo frio absoluto da distância. Floriano Romano dá aqui corpo à sua utopia particular: esta cidade será a sua Babilónia Afectiva, espaço de partida para uma entrega e aprendizagem em vivência aberta e complexa; um manancial segredado feito rumor elevado; um coro de canções distantes a marcar na proximidade a construção multifacetada do verdadeiro colectivo possível. Desgarrado, caótico, inventivo, abundante.

Se esta obra é um alto exemplo incrível no seu simbólico e anárquico desbravar cocofónico de caminho, o seu carácter utópico não lhe retira força. Antes lhe empresta a energia mágica que sentimos, ao intuír o inalcançável território previlegiado, do que quereríamos que fosse a estrutura habitável da nossa vida em comum...

Em 1516 Tomas More publica Utopia – o não lugar – onde descreve uma ilha em que impera a ordem e o equilíbrio, a tolerância religiosa e a ausência de propriedade privada, numa sociedade igualitária e comunitária. Encontramos na primeira edição da obra o Alfabeto Utópico, uma escrita criptográfica e simétrica, que desapareceria das edições posteriores. Ao invés desse reino equilibrado e harmónico, neste não lugar populoso de Romano é precisamente o forte atrito produtivo entre os sujeitos que cria a paisagem de vida do colectivo. E talvez ao contrário de um alfabeto novo a decifrar a realidade, nos seja aqui partilhado o segredo de uma maqueta sonora assimétrica, ainda incompreensível e bruta, de um novo esquema ambicioso: o rasgar de pretenciosas regências de ordem, de nação, de convivência, de linguagem...

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