• none

"Qualquer conceito Artístico Provém do Inconsciente, esse magnífico armazém de todas as imagens perceptíveis", Lucio Fontana

Lucio Fontana é o que se poderá chamar de um artista impulsionador de outros artistas. Foi um dos renovadores da linguagem visual e responsável pela conquista de novas liberdades compositivas na arte. A sua peculiar obra influenciou artistas como Lygia Clark, Ligia Pape, Helio Oiticica, Yves Klein, entre muitos outros, dando azo a diversos debates entre um vasto número de cabeças pensantes. Impossível tecer em duas páginas o perfil de uma personagem tão grandiosa no seu pensamento artístico, como tal vamos apenas focar-nos nos seus incisivos conceitos espaciais, em que através de cirúrgicos gestos de intervenção na tela, Fontana conseguiu ultrapassar a natureza ilusionista da pintura e integrar o espaço real na obra de arte bidimensional.

Fontana deu a todos os seus trabalhos o título de Concetto Spaziale. O artista realçava a importância do conceito sobre a execução e para ele um único acto de perfuração ou incisão seria suficiente. Estes são produzidos a partir de dois dispositivos, em que o artista perfura ou faz cortes nas telas. Aproxima-se da sua superfície desenvolvendo simples e únicas incisões. O que é importante é o traço que fica na tela. As pinturas são corporalizadas e a superfície da tela simboliza a epiderme e a acção da ferida.

Tudo começa em 1946, na Argentina, quando publica o Manifesto Branco, mostrando o seu interesse por uma arte despojada e clara que reflicta sobre o espaço. O Manifesto defendia acima de tudo a matéria, a cor, o som e o movimento. Representava «a capacidade de a arte se libertar da herança do Renascimento. Uma parte desta herança era a criação da ilusão de profundidade através da perspectiva; a abertura física da superfície da pintura implicava criar uma continuação entre o espaço ocupado pelo observador e o espaço pictórico», referiu Barbara Hess no livro Lucio Fontana.

Após escrever o Manifesto, volta para Itália, constituindo este o despoletar para muitos outros manifestos escritos por vários autores, com vista a estabelecer o Spazialismo, que teve em Fontana o seu fundador. Este era visto como um movimento artístico que adaptou e modificou as ideias futuristas, sendo um dos fenómenos artísticos do pós-guerra. É assim que desenvolve a ideia da perfuração da superfície da pintura através das mais variadas formas. Segundo António Quadros Ferreira escreveu no seu livro Depois de 1950 «o sistema de laceração de Fontana não é mais do que o sistema que permite, num exercício de transposição de energia, a revelação do branco, a evidência do infinito, a manipulação do erótico (Ad Reinhardt), onde o gesto puro que manifesta a ideia e a intuição suscitaram o princípio fundado na ordem do espacialismo».

Os Bucchi foram a sua principal criação. Decorria o ano de 1949, quando decidiu pegar numa folha de papel e ao invés de desenhar sobre ela, perfurou-a na parte de trás fazendo vários buracos concentrados ao centro que se estenderam pela folha em círculos e espirais. Fontana descreveu este momento como a principal viragem da sua carreira chegando a declarar em entrevista a Carla Monzi: «a minha descoberta foi o buraco, ponto final. E não faria mal se morresse após essa descoberta». Passados dez anos volta a confrontar o mundo das correntes artísticas com as Tagli, as suas famosas obras com incisões na tela, iniciando uma nova série de trabalhos que denominou Attese, as suas primeiras telas monocromáticas com cortes, que sugerem vaginas ou feridas abertas. Fontana cortava a tela com uma faca num único e rápido movimento, em seguida alargava a abertura com os dedos e afixava gaze preta por trás da abertura.

Toda esta atitude de ruptura perante a arte e posição subversiva provocou o espanto nos domínios da arte contemporânea e seus seguidores. Afinal o que leva um grande escultor a ter esta nova atitude perante a arte?! Eram obras que para Fontana representavam uma nova forma de fazer escultura pois estas telas não se resumiam apenas ao cómodo acto de pintar, representavam algo de novo, uma ruptura, uma nova visão perante a arte. Foi no seu Manifesto Branco que reclamou a rejeição das formas de arte tradicionais. Este «exigia que a cor, o espaço, a luz, o movimento e o som fossem postos em correspondência. Dado o primeiro passo para fazer a luz penetrar na pintura bidimensional ou para a abrir ao espaço circundante», segundo vem referido no livro Arte do Séc. XX.

A principal contribuição do movimento foi o alargamento do entendimento da tela e da sua superfície enquanto campo de representação, superando a bidimensionalidade. Fontana leva-nos a pensar numa terceira dimensão, mas sem o uso da perspectiva. O artista consegue criar a ilusão da profundidade sem retratar algo figurativo. Uma pintura em perspectiva pode até levar-nos a imaginar a profundidade da cena retratada, mas o desenho possui apenas duas dimensões: altura e largura. «O gesto na obra de Fontana existe como acontecimento de uma lógica, como repetição consciente de um processo, e como processo de uma radical assimilação da ruptura. O gesto que não é sobre a pintura, ou da pintura, mas na pintura, tem o significado de sustentar um permanente princípio de subtracção. Não é mais a figura como suporte, mas o suporte como figura que se violenta, que se desconstrói, que se destabiliza», referiu António Quadros Ferreira. A magia reside no gesto do artista e consequentemente no gesto do espectador que procura algo para além da tela, mergulhando o olhar através das incisões, como se algo se escondesse por trás das mesmas.

A obra de Lucio Fontana representa na sua génese uma experiência, um despoletar de sensações que não se apreendem através de um olhar rápido e imediato e sim a partir de uma vivência com a obra despoletando um universo de pequenas percepções. Segundo José Gil escreveu no livro A Imagem Nua e as Pequenas Percepções «O que anunciam os movimentos das pequenas percepções é uma qualidade intensiva: percebemo-la como uma força que possui uma forma. Se o olhar revela “a alma”, é porque a atmosfera é um espaço de forças em que a poeira de pequenas percepções, se ainda não esboçaram uma forma (de um clima por vir), se dá como tensão pura, vibração: nela não vemos formas, recebemos a globalidade de um jogo de forças que, enquanto tal, “apresenta” já uma “forma”. Não uma forma figural, mas a pregnância de vectores de forças, de orientações, de qualidades ainda não determinadas, isoladas.

Trata-se de facto de “formas”, mas invisíveis só pela visão, apreensíveis pela sensibilidade intensiva do olhar». Lucio Fontana construiu uma obra baseada no gesto como tensão, na interminável procura de um absoluto, baseado num conceito que permite um conhecimento do mundo e uma relação com o real.

Related Post

Arte

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: