A Maior Parte do Chão é o Mar e A Maior Parte do Ar é o Céu
Às vezes multiplicamos descobertas apenas vislumbradas, sobrepomos paisagens na mesma paisagem, ilusões próprias do descobrir do mundo. Interior também.
Em ilhas encobertas como nós.
No Arquipélago de Marcos Chaves aprendemos a sentir no estático o movimento da descoberta, espectadores parados de um mundo que se nos abre, lentamente; repetido porém único.
Num só mar vários mares, nosso cada um deles. Primitivos que seremos sempre.
Somos aqui puxados pela subjectividade dessa descoberta, pelo nosso único avançar. O avançar assim só de cada um nessa paisagem feita espelho, terra mar, céu vida, simultaneamente dentro e fora. Humana por ausência, por olhar apenas, e natural por quase tempestade parada, por força contida, por beleza básica e completa. Natureza.
É óbvio que não existe um horizonte apenas, que essa linha se multiplica e espalha alta nos seus muitos planos, é óbvio que moram infinitos mares no único mar.
Também assim aqui, pertinente a afirmação do olhar subjectivo, do fio oblíquo descrito no espaço pela personagem, a pessoa que somos, espectadores expectantes. Pertinente sim o convite a esse olhar, ao construir e disfrutar dessa intransmissível perspectiva, inserção num todo inteiro de que seremos parte, pequena mas inteira parte.
O artista faz-nos actuantes actores parados, projectores vivos, enfrentando de frente o palco (vazio?!), cheio do que lá enfiamos, de nós também, de tudo o que estamos, do que seremos. Essa tela natural multiplicada, espaço esponja em branco também, crescendo sempre.
E é nosso o previlégio de fazer a vida assim, com o olhar apenas, sentindo como o corpo se entrega imóvel, como parte para dentro de si, saíndo também depois. Como lhe entra bem azul o ar todo puro que o alimenta, o mar todo que navegará, a terra bem firme lá longe, à espera, segura e quente. Nunca nada se repete inútil, nunca o mesmo espaço se ocupa. Sempre nasce de novo o verde na árvore, qual escultura a marcar o azul do céu, como o sol, daqui ausente, que o corta imponente e solitário.
Completando.
A maior parte do chão é o mar, a maior parte do ar é o céu.
Talvez haja ilusões (apenas ópticas?) que ameaçam, ou tentam, esta totalidade; pormenores a tentar distrair. Talvez um engano subtil espreite ao lado da luz clara, como uma sombra escura a tentar tapar, a distorcer, a querer concentrar nela o nosso olhar.
Como aquela folha pequena a querer crescer a mais na árvore, a fazer-se por nós maior; mas logo assim frustrada, impossível, só esboçada e depois caída. Mas seduzindo ainda assim, no ínfimo milésimo momento do olhar.
Talvez nos agarre assim de repente um pormenor menor, como uma pequena ideia a querer furar a tela inteira, a tentar reduzir o todo aparente, desejosa, ardente.
É como se essa ideia isolada, só, surgisse forte e fresca num dia longo, a tentar impor-se rápida como uma ilha assim no meio do mar, uma árvore inteira num deserto seco, um olhar novo num campo em branco.
Mas não consegue nunca ela apagar o todo, não se sobrepõe nunca ela ao que a rodeia, existe apenas como uma parte pequena, bem pequena, uma parcela mínima. Um ambicioso acto falhado? Um rápido raio de sol, a gota de chuva a cair no mar, a nuvem esguia no céu, ele maior...
Um grão de areia a querer ser todo o areal...
Antes sentimos então aqui que é o todo que sempre eterno se ilumina, dominante, nas suas infinitas tentações e perspectivas, na sua crescente construção permanente. Uma orgânica mutante, fazendo tudo, avançando sempre, aberto e abrangente; império maior que a vida a conter a morte, a coisa total, bruta e alta e funda, sem lei, quase estúpida.
E também há grandes sombras sim, e fronteiras, limites fortes, atritos de areia no chão. E estamos nós a tentar alargar sempre tudo, delirando, vivos, não ficando apenas.
(Somos espectadores públicos de um espectáculo privado em que actuamos, inventando-o, crescendo ele cosmos connosco e para além de nós. Um bolso enorme em que brincamos. Prisão de que em ilusão apenas fugimos. Planando num nosso estreito olhar.)
Apenas assim.
-texto escrito após visita à Paralela de São Paulo, 2010,
- A Contemplação do Mundo.
Marcos Chaves é representado pela Galeria Nara Roesler.
Imagem cortesia do artista.


























