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Resultado de uma vontade performativamente revolucionária e de um conhecimento íntimo da reacção do público, o trabalho de Bruce laBruce bombardeia os seus observadores. Munido de armas que variam do cinema gore, à violência e sexo explícito torna-os, mais do que meras vitimas, em verdadeiros cúmplices dos “valores” que subverte e perspectiviza. O novo alvo é o público português com a exposição “Polaroid Rage”, presente na galeria Wrong Weather no Porto.

Nascido no Canadá, em 1964, Bryan Bruce desde cedo partilhou uma relação próxima com o cinema. Tanto na admitida influência familiar pelo amor à sétima arte, ao ingresso na faculdade de cinema de York em Toronto. Mesmo quando foi forçado a desistir do curso por razões económicas esta relação do artista com o grande ecrã manteve-se. Numa via mais experimental, foi no cenário punk e underground que continuou a sua prática de realização, que em muito influenciaram o seu trabalho actual.

Com um nome de referência a Rod LaRod, actor e “namorado” de Andy Warhol, surge Bruce LaBruce. Realizador e ainda fotógrafo e escritor, foi assim que se iniciou uma carreira que já conta com mais de duas décadas. Sempre com um cunho crítico e um pouco documental, para o realizador estas são duas qualidades indispensáveis no trabalho artístico actual. “O mundo está tão monumentalmente [lixado] que é difícil não ter uma opinião política a algum nível”, explica o autor em entrevista ao blogue Bloody Disgusting.

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Seja através de fanzines, publicações de artigos ou livros de autor, produções fotográficas, performances ou realização de filmes, dois elementos são comuns no tratamento desta opinião critica e política: a próximidade das temáticas ao público e a visceralidade com que os retrata. Amante de uma boa mancha de sangue e habituado a filmagens e sessões fotográficas de filmes porno, este “pornógrafo relutante”, como se auto-intitulou numa biografia, procura o choque para despertar o seu público. E consegue-o.

Ao valer-lhe glorificações por uns e fortes críticas de outros, a forma que utiliza para ilustrar os conceitos que aborda varia entre as cenas de sexo explícito com “cadáveres”, skin-heads a ejacularem sobre cópias de “Mein Kampf” ou cenários decorados como salas de tortura. Uma estética que alia as técnicas de realização hollywoodesca com práticas de cinema independente e video-performance. E há resultados que, por vezes, já são esperados por parte de Bruce laBruce, ao resultarem na interrupção de projecções de vídeos, interdições na participação em festivais e eventos públicos e uma categorização, já habitual, de pornografia.

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Em contraste, as temáticas abordadas pelo artista, apesar de presentes, na sua maioria mostram uma subtileza deliciosa, quase sempre enterrada nas camadas de tinta vermelha e corpos nús. São caso disso as duas últimas obras cinematográficas de Bruce laBruce, evidências do fascínio deste pelo género gore e por zombies. Enquanto um público menos atento poderá ficar surpreendido pelas contínuas cenas de sexo que os protagonistas vão desenvolvendo ao longo do filme, as temáticas do isolamento e alienação presentes em “Otto; or Up with dead People” poderão passar despercebidas. Ou mesmo o elo entre a condição de zombie, de doença e contágio em “L.A. Zombie”. “O verdadeiro problema em volta do género zombie é a paranóia do vírus da Sida”, explicou o realizador em entrevista ao New York Times. “Há algo na consciência pública que relaciona sexo entre homosexuais à doença e ao contágio”.

A contar com outras temáticas como o terrorismo de género, a crítica aos modelos económicos e a hipocrisia das suas doutrinas ou a prostituição masculina, um assunto tem especial lugar na maioria das suas obras. Sendo algo que é próprio também do realizador, a abordagem da homossexualidade é algo transversal nos seus trabalhos. Uma característica que nomeou o documentário de Angelique Bosio sobre o trabalho do artista, a estrear este ano, o “Advocate of Fagdom” e que já lhe valeu comparações a Morrissey, Kenneth Anger ou John Waters, propulsores do cinema gay experimental e de celebração da diferença.

Agora a tomar de assalto a cidade do Porto, depois de presença marcada no festival QueerLisboa o ano passado, o trabalho de Bruce laBruce “Polaroid Rage” explora muito mais o seu lado performativo e fotográfico. Numa apresentação de 445 polaroids que ilustra o trabalho de performance do artista nos últimos 10 anos em diversos locais, o objectivo prende-se, novamente, com o despertar de ideias e uma mudança de acção. Curador e admirador do trabalho do artista, Rui Carvalho da Silva vê nesta exposição uma nova atitude. “A performance é, em geral, uma ideia de crítica política, de revolução”, explicou o curador que, citando Maria Abramovic, acredita estarmos “no fim de uma era, de uma forma economicista da arte”.

Em exposição até dia 19 de Março, Bruce laBruce promete chocar, surpreender, até mesmo divertir, mas principalmente dar uma nova perspectiva aos mais curiosos dos seus visitantes.

Wrong Weather

Rua da Boavista, 754, Porto

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