Os Chelpa Ferro manipulam máquinas atrás de antenas cruzadas como nos filmes. Antenas cruzadas e mortas como nos filmes, eles meio escondidos atrás de uma barricada de ecrãs que disparam imagens da vida na primeira linha, na linha de cima, e imagens das máquinas e do controlo das máquinas na linha mais junto ao chão, mais baixa. A tecnologia fria, falsa e colorida a enquadrar a mão do homem a mexer nela, a mão do homem a afundar-se nessas máquinas, a mão do homem perdida nessas máquinas. E do homem não é só a mão que está perdida nesses passos falsos.
Os Chelpa Ferro deixam que a torrente que iniciaram cresça, se levante, se abalroe sobre as cabeças todas e penetre húmida nos corpos curiosos que os rodeiam, vão acrescentando e retirando coisas a essa cascata sonora, vão de facto fundindo-a com esses corpos e com eles mesmos, vão vendo a coisa acontecer enquanto a fazem, vão também crescendo com ela. De certa forma aquela chuva de sons impele e empurra para uma interioridade apenas ameaçada ou sugerida pelo nosso mais antigo silêncio. É como se cada um, do público, compusesse a sua própria escultura de ruídos e nela se revisse, como se cada um se fosse assim esculpindo e contemplando, como se todos se afastassem no individual e se tocassem também pelo colectivo assim criado. Um pequeno exército apático e delirante, ambicioso. All big ears.
Aquele labirinto sonoro parece desmultiplicar-se para dentro de si próprio em direcção à sua própria espiral interior, como dois espelhos que se olhassem frente a frente, como um duelo do nosso eu connosco nessa selva densa de ruído feita ilha deserta. Aquilo grita-nos ao ouvido num sussurro que depois se sente a vir de dentro, um feedback mal ilustrado de fora pelos tais ecrãs, ainda chuvosos e sempre chuvosos. O ar espessa-se à volta da tal ilha, o ser adensa-se, o mar rodeia tudo em crescentes ondas concêntricas. Non stop.
Musicalmente aquele todo parece uma soma de vários gritos, uma amostra de muitas vozes, nomes e corpos chamados sempre com uma vontade meio perdida, meio ôca, códigos de várias falas dos teatros da vida, repetidos e sobrepostos numa voz interior confusa e demasiado expressiva. Aquela riqueza complexa vai-se alargando e alargando sempre, até se atingir e se alcançar na mais pura das simplicidades, até se reduzir numa precisão surda, até se estancar num lugar preciso sem nunca ter parado de correr. É assim que o tal silêncio nos apanha, ou nós nos apanhamos dentro dele, em contraste com essa turbulência exterior, surgindo assim uma nossa sombra primitiva, primeira, inalterada, surda porque atenta em si. Quando tudo finge acabar somos então nós outros noutro espaço. Tendo estado nós sempre ali no entanto. All in one.
- Texto escrito após a performance “Máscara Negra” de Chelpa Ferro + Abel Duarte + Pontogor, sexta-feira 15 de Outubro, no bar Plano B, na Lapa – Rio de Janeiro.
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