DIÁRIOS DO UMBIGO

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Lembram-se da primeira vez que ouviram uma música? Não qualquer música. A primeira vez que ouvem uma música que sabem que vai ser memorável. Para este vosso humilde escriba, uma música pode ser uma viagem. Não necessariamente uma viagem no tempo mas sim uma viagem através dos tempos.

Uma viagem para uma altura específica, para um estado de espírito, para emoções boas (e às vezes más e dolorosas) ou para um momento especial com amigos e amados. Repetindo, uma viagem através dos tempos passados que podem compôr a personalidade de uma pessoa ou, talvez, vincar ainda mais os traços e características dessa pessoa.

Um dos propósitos desta rubrica é, mais do que um exercício arrogante de sabichão à High Fidelity, mostrar momentos em que uma música transporta alguém para outra dimensão. Pequenos tesouros escondidos nesse vasto baú que é o mundo da música e que, por alguma razão obscura ou não, não fazem parte de um léxico musical comum de um público maior.

Como tenho estado em falta nos últimos tempos, eis um conjunto de cinco canções que caíram no esquecimento, que nem sequer criaram mossa na altura em que saíram ou que, fruto de estilos musicais improváveis e encaixotados num rígido código de estilos, uma pessoa não se lembraria de escutar temas de bandas ou artistas de outros géneros.

1 - Blue Cheer - Good Times are so Hard to Find, (Original Human Being, 1970) #188 Billboard Charts

Formados em São Francisco, este power trio introduziu um elemento já explorado previamente mas elevado à décima potência: VOLUME! Notoriamente a banda que tocava mais alto de sempre, os Blue Cheer são conhecidos maioritariamente pelo seu hit single Summertime Blues e pelos primeiros dois álbuns, Vincebus Eruptum e Outsideinside, ambos de 1968. O terceiro conta com um guitarrista diferente num dos lados do vinil, o mítico Randy Holden e goza ainda de algum respeito e popularidade entre os amantes de fuzz, distorção e feedback.

Após este período inicial, descarta-se o resto da discografia como erros tristes sem a pujança dos primeiros trabalhos da banda. Efectivamente, não é a mesma banda. No entanto, isso não significa que haja alguns momentos de glória nos restantes discos

Um desses momentos é este tema que abre Original Human Being, o quinto álbum da banda. Armado de em ritmo irresistível e sem dar espaço a fôlegos, os Blue Cheer apresentam-nos reflexões de como é difícil encontrar ou replicar bons momentos. Há aqui uma sensação de nostalgia inerente, em parte mais evidente num simples solo de guitarra que eleva o tom urgente da música a níveis quase desesperantes na incessante buscas desses tempos perdidos.

Pode não ser o tipo de explosão à Summertime Blues mas o que temos aqui é uma transformação de explosão sónica em explosão emocional de quem está a lutar por tempos mais simples e despreocupados.

2 - Venom - In League With Satan (single, 1981) #136

Alinhados com o NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal), os Venom vêm da terra dos Animals e do Bryan Ferry: Newcastle-Upon-Tyne. Pegando na estética Motörhead e brutalizando-a ainda mais, os Venom adicionaram um factor a esse som: o Satanismo.

Embora hoje se saiba que era algo feito mais pelo factor choque do que por crença, não nos podemos esquecer que se viviam tempos em que era relativamente fácil chocar com algo que hoje nos passaria despercebida. Logo, elementos satânicos eram fruto de uma herança de terror à Hammer Films, risíveis hoje em dia mas impressionantes para a altura.

Não obstante a temática da música, os Venom conseguem invocar ritmos tribais e dançáveis. Aqui não há rituais na Serra de Sintra em noites de lua cheia. Há sim, esse ritmo acompanhado por uma guitarra e um baixo quase grrovy e um refrão tão apelativo que até o Papa Francisco I o cantarolaria inadvertidamente.

Ultrapassando a propositada imbecilidade adolescente da letra, In Leaque With Satan pode ser visto como kitsch aliado a um tema duro e cru mas, ao mesmo tempo, orelhudo e viciante.

3 – Larry and the Lefthanded – No Man's Land (Quantum Rider, 1998) #??

Nos bons velhos tempos em que apareceu a televisão por cabo, havia um canal alemão com um programa chamado Wah Wah. Esse programa dava a conhecer bandas ainda mais alternativas do que um 120 Minutes ou Alternative Nation e focava-se mais na cena europeia e mundial, fugindo assim um pouco ao eixo anglo-saxónico.

Uma dessas bandas era este grupo finlandês chamado Larry And The Lefthanded. Por entre vários vídeos de Euroboys, Guitar Wolf e Man Or Astroman, aparecia regularmente o vídeo No Man´s Land, tirado do álbum Quantum Rider.

Arrancando com uma explosão de tremolo e vislumbres caleidoscopais da banda, as imagens são complementadas por explorações vulcânicas e erupções violentas. Tudo junto, deparamos-nos com uma simbiose de imagem e som quase perfeita. O tema, com o refrão acentuado por uma serpenteante linha de orgão, é um misto de calma lacónica e tensão, reflexo dessa terra de nenhures.

O álbum não é coisa que crie grande memória. Numa altura em que programações estavam a ser a regra do jogo, estas datam o álbum para o período em que foi registado. Neste tema, a datação torna-se um pouco mais difícil, tornando-o intemporal o suficiente para continuar a ser um tema a descobrir e dançar à volta de um vulcão.

4 - Status Quo - O Baby (Piledriver, 1972) #5

Status Quo é um nome associado ao flagelo de bandas cujos hits mais conhecidos são aqueles que ofuscam a obra anterior. Hoje em dia, com o advento da chamada 'neo-psicadelia', já é possível prestar atenção aos primeiros álbuns de bandas que são sinónimo de azeite. No caso dos Status Quo, Pictures Of Matchstick Men ou Ice In The Sun já voltam a recair na escolha de alguns DJ's.

No entanto, a verdadeira pérola da obra dos Quo está no período imediatamente a seguir a terem deixado de parte os kaftans e as camisas floreadas. Revela-se então a verdadeira identidade de quem nunca se sentiu muito confortável naquela imagem. Começam por usar a sempre confiável ganga, enveredando por imitar o público do concerto que baixava as cabeças em ritmo com a música e chegavam assim ao seu clássico heads down, no nonsense. mindless boogie.

Para fãs de Queens Of The Stone Age, o ritmo metronómico ao qual eles tanto se apoiam pode ser encontrado aqui. 'O Baby' começa com um dedilhado em fade in e, à medida que o volume chega ao seu clímax, descamba num ritmo avassalador. Após algum boogie, o que já parecia intenso no começo da música ganha proporções gigantescas com um riff ainda mais potente, dominado por uma bateria comandante.

Muitas músicas há mais nesse registo na obra dos Status Quo entre 1972 e 1976. Mas esta foi a primeira que me convenceu que os Status Quo tinham mais a oferecer do que falar de ir à tropa ou do que é que eu queira.

5 – Bee Gees – Sweet Song of Summer (For Whom It May Concern, 1972) #35 (EUA), #10 (Itália), #6 (Espanha)

Os Bee Gees são conhecidos por duas fases da sua carreira. O pop-psych de Massassuchetts ou Odessa e a disco regalia de Stayin' Alive ou Tragedy. Entre as duas eras, há um nevoeiro em que os irmãos australianos estavam perdidos e sem saberem que direcção seguir.

O nome do álbum é informativo da situação em que se encontravam os irmãos Gibb. For Whom It May Concern é um nome honesto e com uma mensagem bem clara. A quem se pudesse importar, os Bee Gees continuavam a compor e a editar álbuns. Neste caso, o décimo da carreira.

Neste tema, os Bee Gees invocam sonoridades atípicas, usando o sintetizador de um modo drone espacial fúnebre. Aqui não se encontra o açúcar pop-psych dos anos 60 e estávamos ainda a três anos da fénix disco de Jive Talkin.

Há sim, uma hipnose melancólica onde o mote é dado pelo sintetizador sobreposto a uma batida quase inaudível, como se o Verão e o Sol fossem símbolos de tristeza. Os coros, suaves na entrada e sempre presentes, intensificam essa sensação, como se de um velório se tratasse.

Nota-se um desejo de seguir em frente e terminar esse sentimento mas esse mesmo desejo não é cumprido. Este não é um tema capaz de incendiar as pistas de dança. É antes um funeral ao Sol e ao Verão, enterrados para dar alas ao Outono.

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