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Conhecer Nomi: Joey Arias e Kristian Hoffman (re)animam a lenda de Klaus Nomi.

Se como eu, cresceste na pasmaceira do que era a Inglaterra dos anos 70 e 80 e sonhaste com um grande futuro gay para ti próprio, então de certeza sonhaste com as ruas cintilantes e sujas da cidade de Nova Iorque. A nostalgia é um poderoso afrodisíaco, e NY era uma cheirada de poppers numa pista de dança desinibida. Eventualmente consegui mudar-me para lá, mas a cidade das minhas fantasias já não existia, e as ruas deixaram de ser tão sedutoramente perigosas.

No entanto, aqueles tempos continuam a ser uma fonte de inspiração para um sem-número de documentários e artigos. Os poucos que tiveram a sorte de sair ilesos são como faróis de um tempo particularmente livre embora perdido para sempre; a sua presença ilumina os muitos que não tiveram a mesma sorte e que foram levados pelas suas misérias. Joey Arias é um dos sobreviventes, que tem uma longa carreira que faz justiça às suas origens - mais notavelmente enquanto Mestre de Sedução durante seis anos para a Zumanity, espetáculo do Cirque de Soleil em Las Vegas. Klaus Nomi foi, contudo, uma das baixas daquela época, que parecia ter tudo ao seu alcance.

Eram artistas e performers, freaks e amigos. Vimo-los pela primeira vez em 1979 no programa Saturday Night Live, dois robôs a acompanhar ao vivo David Bowie – prova inegável do fascínio que os anos 70 tiveram pela vanguarda. Klaus Nomi teria 70 anos se ainda estivesse entre nós. Na sua actual tournée, Joey interpretará algumas das músicas icónicas de Klaus, acompanhado pelo seu compositor, Kristian Hoffman, no Teatro Circo em Braga, dia 15 de fevereiro. O espectáculo dá pelo nome de Lightning Strikes, um tema de Nomi que só por si consegue encapsular o efeito relâmpago que Klaus Sperber, então chefe de pastelaria, teve para com uma cena artística já bastante lotada. Nomi estava numa galáxia à parte, e o recente documentário, The Nomi Song, confirma o nosso fascínio incansável pelo seu talento e singularidade ferozes. O próprio Kristian Hoffman foi elemento pioneiro e indispensável da cena No Wave da Nova Iorque que fez tremer salas durante uns quinze minutos à Andy Warhol. Continua a trabalhar em Los Angeles. Falei com Joey e Kristian, sobre então e agora.

A minha primeira pergunta é – desculpe o meu atrevimento – mas quem é Joey Arias? Você é mesmo Joey, ou ele é uma personagem que adoptou?

Não posso dizer. Quando sair o meu livro, talvez diga, talvez não. Tenho de guardar alguns segredos para mim.

Com certeza. Desde muito jovem, sabia que queria mudar-se para Nova Iorque e conseguiu adaptar-se facilmente.

Fui criado em Los Angeles onde tinha uma banda – tipo Bowie-esquisito-Devo – que até foi contratada pela Capitol Records para editar um par de músicas. Mas foi sempre difícil para mim ter trabalho como actor – eu era demasiado bizarro. Em Nova Iorque nunca falei com ninguém sobre o meu passado, eu era uma nova pessoa. Dei nas vistas, as pessoas diziam: – "Uau! Quem é este tipo?" – enquanto trabalhava na loja de moda Fiorucci’s New York (conhecida por ser o “Studio 54 do dia” devido ao facto de ser uma tertúlia de celebridades e figuras da noite). Durante a minha primeira semana em Nova Iorque conheci Klaus, conheci Debbie Harry, tanta gente. Os Ramones. Mas o Klaus na altura chamava-se Klaus Sperber, padeiro e cantor de ópera. Era um homem mais velho e esquisito. Não dava muito para falar. Só quando a cena punk começou a mexer-se, é que ele se dedicou à sua transformação. E depois, mudou o nome para Nomi (“Know Me”) aquando do New Wave Vaudeville Show. Ao sair vestido de fato especial e a cantar a sua ária, apanhou-nos a todos desprevenidos.

Klaus Nomi no New Vaudeville Theatre

Meu Deus, parece a Maria Callas!

Kristian: Foi a primeira vez que o vi. Ann Magnuson (também ela uma lenda da performance americana) descobriu o Klaus a cantar sentado na neve e convidou-o para participar no espectáculo. Durante um minuto depois do seu fim, houve um silêncio, seguido por uma ovação de pé. No dia seguinte, telefonou uma amiga a dizer que devia formar uma banda com este tipo!

Kristian uma coisa que me irrita hoje é como a ousadia arty da cultura popular dos finais anos 70/princípio dos anos 80 é muitas vezes apresentada como “kitsch”. Jamais o queer terá penetrado no mainstream com tanto impacto. Uma afirmação sua, Kristian, no documentário The Nomi Song, foi como o Klaus se dedicou sem tréguas à sua arte. Para ele, a sua personagem exagerada e operática, não foi nenhum estratagema.

Bom, nunca dispensámos de uma forte dose de ironia e camp nas nossas intervenções, embora sempre acreditássemos em nós. Considerei-me um compositor de primeira, na altura (Kristian emergiu na banda de culto nova-iorquina The Mumps, antes de ser a figura quinta-essência da cena No Wave, ao lado de Lydia Lunch e dos The Contortions). O que era muito importante para Klaus – era transmitir a beleza, uma coisa que ninguém queria fazer na altura. O punk significava “odiar tudo”. O Klaus disse, “não, podemos ser revolucionários e rebeldes de fora, ao criarmos o ruído mais belo de sempre.”

Klaus acreditava que um dia seria famoso. Certamente era o que as pessoas lhe estavam a dizer.

Depois de me tornar o seu director musical, digamos - apesar de eu não fazer a mínima ideia do que era isso – escrevendo e arranjando as músicas com excepção dos temas clássicos, ele levou os seus amigos da Fiorucci para dançar com ele, como Joey Arias (também Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, John Sex, Kenny Scharf), tornou-se muito rapidamente num sucesso. Aparecemos nas notícias e isso subiu-nos à cabeça. Já vimos os Blondie e os Talking Heads. Também queríamos sonhar com o mesmo, à medida que as coisas avançavam. Antes disso, para muitos a única ambição era a de conhecer Andy Warhol. Acabámos por conhecer-nos a nós mesmos.

Em pouco tempo Klaus e Joey foram convidados para acompanhar David Bowie, numa actuação particularmente memorável, do Saturday Night Live (parte da qual se encontra no filme The Nomi Song, em toda a sua glória).

Klaus, Joey, David Bowie

Joey: Acabámos por fazer qualquer coisa como 10 espetáculos, e uma noite estávamos prestes a sair do Mudd Club quando alguém nos disse, "Não vão despedir-se do David?" E replicámos, "O quê?!"

Depois do tumulto dos anos 70, não houve motivo para que ninguém acreditasse que os anos 80 seriam diferentes, ou melhores ainda. E depois, certas coisas começaram a acontecer.

Joey: Sim, começámos a ouvir falar de um cancro gay, ou qualquer coisa do género. O Klaus foi passar dois meses em digressão pela Europa. Quando voltou pelo Natal, apareceu numa festa com o aspecto de alguém que perdeu 30 kilos. Mal conseguia andar. Fui à casa de banho com uma amiga e desatámos a chorar. "Passa-se alguma coisa." Quando Klaus foi para o hospital, encobriram-no de plástico e tivemos que usar uma máscara e um fato corporal. Teve lesões por todo o corpo, e limitei-me a tirar tudo para lhe fazer uma massagem. Os médicos observaram-nos horrorizados. Eu disse a Klaus – "Estou-me nas tintas." Ele estava a chorar, foi mesmo triste.

Foi entre as primeiras celebridades a morrer, em 1983.

Kristian: Havia pessoas mais corajosas que eu, que não deixaram de ir visitar Klaus. Eu não, estava com muito medo. O Klaus também. A epidemia veio do nada, e as pessoas diziam que os gays bem mereciam. Resolvi dar a volta. Este não é o Klaus que eu gostaria de lembrar. Há qualquer coisa nele que se suplanta à leitura mais trágica da sua história. O motivo pelo qual estamos a fazer esta digressão, apesar de tudo o que lhe passou devido à doença, é porque as suas motivações continuam a ser pertinentes.

Joey no seu show

Joey, gostaria de lhe falar sobre os seus ícones pessoais.

Klaus não foi um ícone para mim, foi o meu amigo. A minha irmã, o meu irmão. David Bowie, Billie Holiday… Bettie Page. Adoro as mulheres dos anos 40.

És uma criatura –

Sou uma criatura, sim.

– do blues?

Não, sou uma criatura do jazz. A maneira como vivemos a vida, como nos movemos, exploramos e fazemos coisas.

A palavra ‘queer’ ganhou uma certa notoriedade no sentido de representar um tipo de expressão artística específico. Parece que quase todos os que trabalham no mundo performativo reivindicam o direito a ser queer.

A meu ver a palavra ‘queer’ vem de uma época diferente. Usávamos a palavra nos anos 60. É um termo antiquado. Não o uso nos meus espectáculos. O meu encenador Manfred Thierry Mugler (o lendário designer de moda) disse-me: "Basta seres igual a ti próprio. Sobe ao palco, dá o que tens para dar e mais nada." Eis o queer. Eis o alien. É o teu passado, e o teu futuro.

Para mim não deixa de ser intrigante. O público talvez esteja mais à espera de ficar “escandalizado”, ou de uma bela palhaçada dos seus genderbenders, Você é uma presença elegante no palco.

Um grande amigo disse-me: – "Tens classe, e és um clássico. Com um pouco de brejeirice à mistura." Não tenho nada de falso. Sou 100% real. Nunca gostei do drag. Detestava-o. Custava-me ir a um bar de transformismo. Então um dia fui obrigado a produzir-me para uma festa drag de Halloween de Andy Warhol. Mascarei-me de personagem típica de um filme de Russ Meyer. As pessoas passaram-se – "Meu Deus! Adoro!"

O mundo drag está composto de uma nova geração que quer baralhar as nossas expectativas do que possa ser. Existe a Bushwig em Brooklyn, por exemplo. E você faz parte da festa Pussy Faggot em Nova Iorque, de Earl Dax.

Nunca fui um daqueles que olhou o passado. Gosto de ver novos artistas, novas caras. Mas muitos deles estão perdidos: o mundo já é outro, repleto de computadores e tecnologia. A Pussy Faggot é uma celebração do reles e do escuro, o bizarro. A cidade de Nova Iorque, se a expremermos, deixa soltar pequenos pedaços por entre os dedos. Infelizmente, esses pedaços são cada vez mais pequenos.

Kristian: Antes da vinda da Internet, era preciso sair da casa e dar de caras com as pessoas. Coube-nos a nós merecer o nosso reconhecimento. Em Nova Iorque isso criou uma espécie de ambiente fechado onde todos queriam ser excêntricos e só por isso se mudaram para lá. Foi extremamente mágica, a maneira como as pessoas criaram uma cena do nada, a não ser pelo facto de que a cidade tivesse falida. Se não fosse isso, ninguém poderia ter lá vivido.

Joey: Entretanto acabo de me casar com um escocês!

Mas, o quê?!

Chama-se Juano Diaz. Espera, Juano Diaz? Mas isso não é escocês! É um filme só por si.

Não é escocês, de maneira nenhuma!

É um artista fabuloso. E escritor. Vejo o novo mundo nele.

Gosta de ser um homem casado?

Uma criatura casada. Curiosamente, casámos no mesmo dia em que Klaus Nomi fazia anos. Nem nos passou pela cabeça, foi pura coincidência.

E agora estão a celebrar a vida de Klaus, através deste espetáculo...

O Klaus foi cantor de ópera, e eu sou cantor de jazz. É um desafio, mas por isso não deixa de ser maravilhoso. Consigo chegar lá (Joey solta uma nota extremamente alta, e consegue). É um espetáculo exigente. Uma vez na costa oeste olhei para o Kristian e disse, "Não me admiro nada que o Klaus tivesse morrido." O público ficou calado e o Kristian limitou-se a rir.

(Esta entrevista foi inicialmente publicada na revista inglesa Polari)

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