DIÁRIOS DO UMBIGO

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Tal como o nome da rubrica indica – Código Genético – o que aparece por aqui é sempre, de alguma forma, “too close to home and too near the bone”. Para quem não tem paciência para ler tudo, porque tem mais que fazer ou, simplesmente, tem problemas cognitivos, prestem atenção esta semana. É uma espécie de resumo da matéria dada e um preview do que ainda está por vir - muito do que por aqui se pensa sobre o mundo e sobre a vida está espelhado no trabalho da designer gráfica e ilustradora Rita Gomes aka Wasted Rita (ou vice-versa).

Crua, crítica, sarcástica, provocadora, feminina, “epifomaníaca”. Não gosta de rótulos, nem de falinhas mansas. Gosta de cumplicidade pura e honestidade dura, ambas sem gelo. Diz que é o resultado da combinação da “música punk no geral e riot grrrl no particular, com divas do RnB dos 90's”.

A nível criativo, até o Tony Carreira pode ser uma fonte de inspiração, assim como os The Smiths, a Katy Perry ou a Lana del Rey. Mas, acima de tudo, é movida pelas “acções ou resultado de acções desses seres cheios de defeitos e contradições fascinantes, vulgarmente conhecidos por pessoas”.

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De Rita Gomes a Wasted Rita. Quem é uma e quem é outra e onde se intersectam?

Já não consigo fazer essa distinção. Somos o casal perfeito dos filmes de Hollywood que na vida real não existe, mas em homossexual e comigo própria. Ou em analogia futebolística: tenho dois pontas de lança da mesma equipa dentro de mim (não literalmente) quando um está a quebrar, entra o outro. Wasted Rita comparece a titular nos jogos da liga e Rita Gomes nos jogos para a taça. Estar a usar a terceira pessoa quando me refiro a mim própria e ao meu alter-ego faz-me questionar se existirá um terceiro ponta de lança cá metido. Espero que não, acho que não cabe tanto.

"Making ugly things look good". No entanto, a tua estética tem qualquer coisa de grotesco. De que forma abordas o feio no teu trabalho?


Da forma mais relaxada possível. O feio bonito é o tipo de bonito que me atrai. Quando viajo, evito tudo o que são espaços turísticos e perco-me na parte mais crua, fora dos padrões normais de visualmente agradável da cidade, onde se pode respirar veracidade. O feio bonito surge naturalmente no meu processo criativo. Procedimento esse que tem de ser completamente aberto tanto ao erro como ao mau. Há dois tipos de feio: o com conteúdo e background visual sólido e o com falta de experiência e imaturidade gráfica. A autenticidade e impulsividade da minha imperfeição, gosto de acreditar, torna-a visualmente interessante e parte do primeiro grupo.

Apesar desse lado mais cru do teu trabalho (que se calhar pode ser considerado mais masculino) há também um lado muito feminino. Não é girly, mas não tem medo do cor do rosa. O teu trabalho caminha nesse equilíbrio entre o masculino e o feminino?

Eu acho o meu lado cru super feminino. Aliás, o meu lado cru está repleto de drama e crises emocionais bem femininas. A sociedade ainda não sabe mas, passo a explicar: as mulheres também podem ter uma atitude forte e um sentido de humor mais amargo que chocolate (muito) amargo. Mais, sermos autónomas, críticas, provocadoras e capazes de agitar cabeças à nossa volta não é uma ameaça para o mundo - é uma mais valia. Isso não faz de nós masculinas, só poderosas.
O meu trabalho caminha entre o desequilíbrio e o equilíbrio da minha própria cabeça sem ligar a géneros ou cores.

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Há quem diga que és punk. Eu digo que a definição é redutora. E tu, dizes...

Que faço o que quero como quero, deixando as definições, rótulos e teorias sobre o que faço para os outros. O punk foi uma das minhas maiores bases, um dos meus mais importantes “professores” durante a adolescência. Há influências claras no meu trabalho (directo, curto e incómodo) mas, hoje em dia, já só resta do punk aquilo que eu acho importante que reste. Não lido bem com limitações e o punk, ao contrário do que seria suposto, é, de facto, muito limitado. Por outro lado, se me perguntares o que significa para mim punk, vou sempre responder que é fazeres o que queres, da maneira que queres, respeitando os teus valores acima de tudo. E é exactamente isso o que eu tento fazer todos os dias. Contudo, tenho noção que esta definição é capaz de só fazer sentido no meu mundo.

Definições. Isso deveria ser usado apenas para coisas concretas e constantes e não para processos abstractos em constante reformulação e inovação. Associar um processo criativo a um rótulo não é completamente antagónico e um homicídio à própria liberdade criativa?

Fala-me um bocadinho sobre os statements e as love letters, os teus trabalhos gráficos só com palavras. Play with words in order to keep breathing?


É a tal história do sarcasmo ser o meu acompanhamento favorito, seguido da hipérbole (ambos carbs free) misturada com a outra história de ser uma miúda que pensa muito, em demasia e excessivamente, levando a que tenha muitos orgasmos emocionais e que os liberte em palavras escritas e/ou desenhos. É assim que surgem os statements, as love letters e tudo o que escrevo. São epifanias de discussões e conversas comigo própria e/ou com outros, e teorias sobre o que vejo, sinto e/ou faço. Tenho muitas durante o dia. Sabe bem ser epifomaníaca.

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Há quanto trabalhas como ilustradora e como tem sido a experiência até agora? Consegues viver do teu trabalho?


Yes. I. Fucking. Can. Vivo do meu trabalho e de outra forma não seria trabalho, apenas uma actividade paralela. Era bom que toda a gente fizesse, de forma clara, esta separação. Acabei o curso de Design de Comunicação em Julho de 2010, uns meses depois comecei a fazer trabalhos temporários para uma agência criativa e em meados de 2011 resolvi ser Wasted Rita a 100%. Facilmente percebi que seria impossível conseguir ganhar dinheiro suficiente para pagar contas, no entanto, parece que se tiveres um objectivo e te esfolares toda para o conseguires, consegues mesmo.

É extremamente difícil, muito mais do que é possível explicar, principalmente porque faço tudo sozinha e, mais uma vez, a minha atitude independente e provocadora é facilmente tomada como uma ameaça. Mas, cliché atrás de cliché, toda a gente sabe que as coisas difíceis são as mais gratificantes. Toda a gente sabe, mas nem toda a gente tem a coragem necessária para saber o quão gratificante realmente é. Todos os dias tenho um orgulho enorme de tudo o que já consegui e, mais importante ainda, energia, vontade e ideias para conseguir muito mais. Indestrutível é o meu nome do meio.

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Um filme (ou vários)

Taxi Driver, e qualquer um do Woody Allen para ficar em casa em noites de chuva.

Uma música / banda (ou vários)

Bob Dylan – She Belongs To Me.

Um livro (ou vários)

Não sou miúda de livros, ao contrário do que possa parecer. Se dissesse o título do único livro que alguma vez gostei de ler até às lágrimas assassinaria aqui a toda a minha credibilidade. Não, não falo de Margarida Rebelo Pinto, não desço tão baixo.

Se pudesses tatuar uma frase no corpo seria...

Tatuei um dos meus statements, 'I want therefore I can' há umas semanas. A próxima será ‘Had I not created my whole world, I would certainly have died in other people's’ (de Anais Nin).

What turns you on?

Pouca coisa. Sou uma miúda difícil de agradar, demasiado picuinhas e selectiva. Aquela força interior que distingue um ser humano normal de um ser humano especial, ou, simplesmente, aquela força que separa algo comum do único. Mais: coisas difíceis no geral, cumplicidade pura, honestidade dura e aquele sentido de humor a roçar o teasing.

What turns you off?

Quase tudo. Sou uma miúda fácil de desagradar, demasiado picuinhas e selectiva. Vou resumir: falta de ambição, preguiça, gajos sem rabo, telemóvel à mesa, dependência, falta de objectivos e/ou vontade, carros brancos, coisas forçadas no geral, rotina, falinhas mansas, vulgaridade, ténis feios, pessoas que acham que andar 20 minutos para ir daqui ali é super exaustivo e, a última novidade, tentarem captar-me com truques de percepção humana que, pelos vistos, se aprendem na Escola de Actores de Alcântara.

Cães ou gatos?

Cães no que toca a seres irracionais, gatos no que toca aos ditos racionais. Rawr.

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Para mais sobre a Wasted Rita, podem visitar o site www.wastedrita.com, o blog www.ritabored.blogspot.com e a loja online store.wastedrita.com

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