DIÁRIOS DO UMBIGO

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O Código Genético regressa (temporariamente?) de hibernação para falar sobre os objectos que vamos deixando na vida uns dos outros. Livros, discos e filmes que vão passando de mão em mão, entre amizades e amores. Não os que compramos para oferecer, mas aqueles que emprestamos e que se perdem pelo caminho, em paralelo com as relações.

As fotografias e algumas memórias não palpáveis são facilmente arrumadas numa caixa ou nas traseiras do cérebro, mas estes fragmentos espreitam por entre as prateleiras que visitamos todos os dias. Percorremos as estantes e encontrámos coisas que não são nossas ou o lugar vazio de algo que já nos pertenceu. Seguimos-lhe os passos e traçamos os contornos de um afecto.

Sem tirar a ponta do lápis da folha, a história desse afecto desenha-se em traço contínuo, cada volta definindo mais a forma e os pormenores. Acabado o desenho, voltamos a pôr o objecto no sítio ou lamentamos a sua perda, conforme o caso, mas sempre com a certeza de que a partir de certa altura não faz sentido devolver, recuperar ou até mesmo substituir estes artefactos. Fazem parte da nossa arqueologia emocional, seja pelo que ganhámos ou pelo que perdemos.

Sendo assim, este texto não é uma “hit list”, mas apenas um pretexto para partilhar algumas coisas que continuam a fazer parte do meu ADN, mas que passaram a existir noutro sítio; e outras que fazem parte de um código genético alheio e que agora contam histórias nas minhas estantes.

Por coincidência ou não, a lista acabou por se reduzir aos livros, num eterno retorno às palavras gastas.

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O Coração é Um Caçador Solitário, Carson McCullers
Título Original: The Heart is a Lonely Heart
Editora: A edição mais recente é da Editorial Presença, mas procurem por ai uma edição de bolso da Europa América, com tradução do José Rodrigues Miguéis.

O Meu Quarto Escuro, James Ellroy
Título Original: My Dark Places
Editora: Editorial Notícias

A Sangue Frio, Truman Capote
Título Original: In Cold Blood
Editora: Livros do Brasil

Horto de Incêndio, Al Berto
Editora: Assírio & Alvim

"(...) mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

Crónicas Americanas, Sam Shepard
Título Original: Motel Chronicles
Editora: Difel

The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories, Tim Burton
Editora: Faber & Faber

A Nossa Necessidade Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
Título Original: Vårt behov av tröst / Our Need for Consolation is Insatiable
Editora: Fenda Edições

"Procuro o que me pode consolar como o caçador persegue a caça, atirando sem hesitar sempre que algo se mexe na floresta. Quase sempre atinjo o vazio, mas, de tempos a tempos, não deixa de me tombar aos pés uma presa. Célere, corro a apoderar-me dela, pois sei quão fugaz é o consolo, sopro dum vento que mal sobe pela árvore."

A Anatomia de Uma Dor, C.S. Lewis
Título Original: A Grief Observed

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