DIÁRIOS DO UMBIGO

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Polegar e indicador da mão esquerda, polegar e indicador da mão direita. Os quatro, duas pinças. Pegam em cada ponta do colarinho, de camisa impecavelmente engomada, e esticam-no com violência. Deve ficar vincado. Hoje é o dia. Aquele. O que não pertence ao Google Calendar, nem à agenda. O que nos marca. Que nos faz rugas, na cara e no estômago. O que nos persegue nas curtas noites de sono. Essas em que todos se divertem e se fica. Em que o programa do José Candeias é Zolpidem.

1998. Os sonhos. Portugal seria um país mais da União Europeia, em parlamentarês, de pleno direito. Os ventos sopravam de feição e navegar à bolina novamente possível. A boa nova, como outrora, tinha cruzado o Atlântico, e como cá, inebriou boas almas. As sereias, as ninfas, as tágides, em coro – “Vem Walter, Vem Walter”. Não foi Ulisses. Partiu. Não tinha muito a perder. Motoboy numa qualquer pizzaria de Curitiba passava as tardes de chope em chope. Tinham-lhe prometido trabalho em bar de suco na praia de Cabanas. Aceitou. Ganharia o triplo e poderia conhecer outro mundo. Tudo era alegria. Tardes largas, mar calmo e a língua quase a mesma. Mas, Setembro! E o anoitecer mais cedo. O Verão tinha acabado e sem golfinhos para avisar. Com ele o bar de sucos e as esplanadas. Tavira encolhera. Sobravam Walter, os locais e Álvaro de Campos.

Desempregado, como o heterónimo, decide embarcar. Pouca roupa, uma que outra cassete e Cuidar dos vivos de Fernando Assis Pacheco, oferecido após noite de pandeiro e violão. Na serra do Caldeirão, o purgatório. São curvas atrás de curvas. A decisão mais irracional. Pega no livro. Estranhamente acalma.

Em Lisboa, nada de novo – anúncios de quartos, primeiro trabalho, metro, anúncios, segundo trabalho e biscate, o terceiro trabalho. Servia em cafés e pronto-a-comer. Era rápido e malabarista com os pedidos, como Didi outrora no gramado. Em hora de maior desafogo já não havia botequim, mas sim biblioteca. Assis Pacheco tinha tido os seus méritos. Umas atrás das outras: a de Camões e a vista sobre o Tejo, o Palácio Galveias e o jardim com os pavões, a Orlando Ribeiro e o serviço da Fonoteca, a Hemeroteca e Bedeteca e claro A Torre, a torre de depósitos da Biblioteca Nacional. Livros! Em cada recanto – páginas, muitas. Sob o cedro do Príncipe Real, na Vila Berta, nos terraços da mãe de água... tudo era refúgio.

Quinze anos, Mestrado em Gestão da Informação e Ciências Documentais, outros tantos cursos de especialização, Walter, o motoboy de Curitiba, é, finalmente, efectivo no serviço de Preservação e Conservação da Biblioteca Nacional.

Só espera não criar pigarro para poder contar à mãe.

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