Depois de uma viagem por França, volto a Marraquexe em pleno Ramadão. Voltei com o coração aflito, fruto das inconstâncias da vida em viagem. Como li uma vez na capa de um disco de Carlos do Carmo, não se morre de saudade, mas é certo que corrói um pouco os sentidos e todos os confortos são bem vindos.
O que me parece cada dia mais incontestável é que em Marraquexe as energias correm soltas. Apesar dos falsos avisos de uma época complicada para um estrangeiro em pleno ramadão num país muçulmano, estes dias revelaram-se de uma paz que preenche os vazios. A cidade fica calma. As práticas do ramadão, que este ano uma vez mais se associam ao quente verão marrakchi, alteram os hábitos da cidade. As ruas esvaziam-se durante o dia, para dar lugar à música e à festa durante a noite. Os rostos que me tinham sido anunciados de desespero e saturação, são afinal rostos de bondade e acolhimento, ainda mais do que é normal. O povo dorme é certo, na falta de alimento e hidratação, o melhor é por certo descansar o corpo, mas quem está activo mostra o espírito de generosidade que reina nesta época.
Contámos-nos as novidades, na nossa pequena comunidade: o Dialymadi tinha a visita do Yhayha um marabout guineense, o Darko tinha terminado a montagem do seu promissor filme e a Rita tinha um grande sorriso por ter a sua mãe por perto. O pequeno Mostapha veio visitar-me, três vezes no dia em que cheguei de França, para compensar a ausência. Estava orgulhoso por fazer, também ele, o Ramadão completo, apesar dos seus treze anos lhe permitirem mais flexibilidade. À noite, a Rita convidou-me para jantar com ela e a sua mãe. O Mostapha veio juntar-se a nós após o al-ftour (a primeira refeição de quebra do jejum). Foi bom conversar na língua-mãe, sobre as coisas de lá, sobre as coisas de cá. O pequeno convidou-me para irmos à Jemaa el Fna depois do jantar e era quase meia-noite quando fomos.
As ruas em noites de Ramadão contrastam com aquelas que vemos de dia. Estão cheias, ainda mais cheias vida. O povo está em festa, canta e dança e partilha momentos. Cada vez há mais africanos sub-sarianos na cidade rosa. Trazem mercadorias das suas terras para vender, tentando a sua sorte, enquanto não estão reunidas as condições para cruzar o perigoso Estreito. Estas gentes muitas vezes mal aceites pelos marroquinos, trazem ainda mais riqueza ao cenário de festa. Se ao menos os marroquinos compreendessem que este contactos com o outro lado do Saara pode ser uma fonte e riqueza e não de conflito... seria ainda melhor.
Chegados à praça, procurámos a festa. Os círculos estavam já feitos. Hoje havia uma enorme concentração de gente em torno de jovens contadores de histórias, os círculos da halqa. Os músicos estavam também concorridos. Fomos ouvindo este e aquele, fomos espreitando, furando os círculos. Escolhemos um animado grupo de músicos amazigh para nos instalarmos. Tinham batuques de vários géneros, uma espécie de banjos e cantos. O Mostapha foi prontamente dançar para o meio do círculo, fiquei a observar apesar da insistência para me juntar ao centro do círculo. Ofereceram-me um banco ao pé dos músicos e ali passámos um momento em festa. Voltámos para casa com as nossas conversas em árabe e com umas novas palavras em português do pequeno “pão com manteiga” que tem já um vasto léxico em produtos alimentares.
O dia seguinte foi um dia calmo, propício ao pensamento, à escrita e à leitura, mas a vinda de um novo visitante, um músico americano, que toca o nosso Fado proporcionou mais uma noite em festa. Reunimos-nos no terraço: três portuguesas, um americano, dois senegaleses, um italiano e um guineense. O Dialymadi tocou Kora para nós com toda a sua magia. As culturas não entraram em conflito, mas sim em contacto. Apesar da forte religiosidade muçulmana dos amigos africanos, nós os outros comemos os nossos chouriços e bebemos o nosso álcool sem que esses actos imprimissem qualquer tipo de distância ou repúdio. O marabout guineense reza quase continuamente e isso não foi objecto de nenhuma segregação. Acabámos numa grande troca musical, evidenciando aquilo que nos unia a todos, partilhámos músicas de contacto: a kora, o fado, o funaná, o sembe.
Mais um dia de Ramadão, após mais um vulgar pedido de casamento num parque de estacionamento do hiper-mercado, fui quebrar o jejum (dos outros, não o meu) no café do costume. Os clientes são quase nenhuns nestes dias. Alguns resistentes marroquinos vêm estender-se nas cadeiras meios adormecidos, alguns turistas vêm almoçar à falta de lugares abertos nesta altura. Dois amigos marroquinos confessam-me que não fazem o Ramadão. Um ousa mesmo fumar em público, correndo o risco de ser abordado pela polícia, que pode nestes casos chamá-lo à justiça, se assim o entender. Não me agrada esse facto de repressão da opção individual. Haverá muitos outros que também não praticam o Ramadão, mas que não o dizem em público. A cozinheira do café é aparentemente das que mais sofre com a profissão. Encosta-se a dormir sempre que pode, aliena-se com os seus headphones escutando a sua música. Ao pôr-do-sol, organizam então a sua mesa de al-ftour. Dispõem a comida numa longa mesa, sai o pote da harira, a sopa marroquina. Quem passa junta-se. Entre os trabalhadores e os taxistas, juntei-me à mesa para mais um delicioso repasto. Onde quer que se esteja ao pôr-do-sol alguém nos chama para partilhar a refeição, sejam amigos, conhecidos ou desconhecidos. As ruas desertificam-se completamente antes da cidade entrar em festa uma noite mais e assim continua durante todo um ciclo lunar.
Tive que viajar uma vez mais, desta vez em direcção à outra casa, a Portugal. Dirigi-me numa primeira paragem para Rabat. Desta vez o pôr-do-sol apanhou-me na estrada e ainda assim, este país não pára de me surpreender. Eis quando senão o funcionário da portagem da auto-estrada me oferece uma tâmara. Segui para uma fantástica noite em família, com todo o tipo de iguarias e com mais um caloroso acolhimento. Uns desenhos de henna no corpo vão acompanhar-me até que volte, inshallah! Deixo para trás uma saudade e uma vontade de voltar depressa.
Ramadan karim les amis! Barak laufik!



























