Esta é a minha quarta crónica intitulada "perdida em 45 rotações" mas, por preguiça ou desleixo, ainda não me dediquei a procurar nenhum single que justificasse uma crónica. Como o tempo é sempre pouco e nunca o rentabilizo da melhor forma, nada como excluir hipóteses (o monte caótico de 7" e a desordem 'analfabética' dos 12") e olhar para a infeliz e marginalizada meia dúzia de 10". Lá, naquele quadrado da estante do canto superior direito está um dos meus álbuns favoritos desde que o comprei no dia 1 de Dezembro do ano de 2000. O álbum é o "Hurt me" do Johnny Thunders e por coincidência ou destino, foi adquirido num concerto do seu companheiro New York Doll, Sylvain Sylvain.

O nova-iorquino Johnny Thunders não é conhecido por ser um menino do coro. Este músico para além de guitarrista e compositor dos proto-punks glamorosos New York Dolls, também formou os Heartbreakers com Richard Hell (Television) e eram-lhe creditadas prestações ao vivo vigorosas e cruas, dignas de um punk rocker. A década de 70 deixou marcas em Johnny Thunders e a quantidade de drogas consumidas também, especialmente heroína (too much junkie business). Mas em 1983, eventualmente já estaria sob o efeito de metadona, e entra num estúdio em Paris para gravar um álbum semi-acústico. Retoma alguns temas dos New York Dolls, confere-lhes uma nova roupagem, põe a sua Gibson para segundo plano e dedica-se à ingenuidade da guitarra acústica. O mais engraçado é que numa conversa que tive com Sylvain Sylvain, este falou um pouco sobre Johnny Thunders e disse que o que ele queria mesmo ser era jogador de Baseball, mas este sonho de criança caiu por terra na altura em que o pai lhe ofereceu a primeira guitarra (acústica, imagino eu!).
Apesar de acústico e introspectivo, o álbum não deixa de ser feito por um punk rocker. Mas agora estamos a falar de um Punk Rocker de 31 anos, quiçá cativo de uma crise de meia idade precoce. Tinham passado dez anos desde o primeiro álbum dos New York Dolls e longe estava a imagem de um jovem nova-iorquino cheio de "swagger" à Keith Richards (o seu grande ídolo). Thunders assemelhava-se então a um músico, que talvez sentido o peso da idade (31 anos!), abrandava o ritmo e entregava-se às delícias da idade adulta.
"Too much too soon" talvez seja o tema que melhor define a vida de Thunders. Aconteceu muita coisa, muito cedo e isto deixou pouco espaço para que, com setenta anos, imaginemos, lançasse este álbum. Romanceando um pouco, imagino um "bluesman" de Queens, com a escola toda do punk a tocar de forma sublime todos os temas, sem excluir nenhum e a ser respeitado por isso.
A história acaba em New Orleans, num quarto de hotel (qual Chelsea Hotel), com causas de morte díspares e não consensuais. Creio que não teve um funeral à moda de New Orleans (Dixieland Style) mas tenho a certeza que Johnny Thunders jaz naquele quadrado da estante no canto superior direito.

























