Como começar uma crónica que quer dizer-te coisas ao ouvido? Na procura da resposta a esta pergunta, sinto que a linguagem está quebrada, tímida e contida. Como se na minha cabeça explodissem palavras em todas as direcções. Já na minha boca pressinto o mundo a mover-se lá fora imune a este impasse.
As palavras à noite são diferentes. Era esta a frase que eu precisava para desalinhavar esta crónica. Eis o que escrevi a alta velocidade como se esta crónica já estivesse escrita.
Fim de noite. Fim de vida. Fim de emoções transigentes. Fim de lamúrias. Fim de meias palavras. Sinto-te. A flor que me deste na semana passada luta por não murchar. Tem-se esforçado tanto. Dá gosto vê-la abocanhar o sol e durante a noite mover-se silenciosamente por via da fotossíntese. Deu gosto vê-la recusar um vaso-guarida. Está por si. Vou cuidar dela para sempre que é como quem diz a partir de amanhã até depois de amanhã e assim sucessivamente, qual tratamento de excepção por via do advérbio de modo escrito a jeito da construção frásica que aspergiza gotas amorosas a quem já dorme, qual trejeito retórico exemplar que expressa a minha admiração por si-ti. A minha boca entoa uma boa noite depois de deparar com pessoas que entram numa porta que tem uma placa que diz: Eco-entrada reservada a pessoas estranhas ao serviço.
Depois de estar na antecâmara de um motel onde poderíamos ter passado a nossa lua-de-mel por gostarmos dos néons que piscavam as letras “LOVE IS ALL”, surge esta música de Asaf Avidan intitulada Different Pulses, ressoando, mais tarde e simpaticamente na minha cabeça, a letra:
"My life is like a wound I scratch so I can bleed/ Regurgitate my words, I write so I can feed/ And Death grows like a tree that's planted in my chest/ Its roots are at my feet, I walk so it won't rest / (...)/ Oh, Baby I am lost.../ I try to push the colours through a prism back to white/ To sync our different pulses into a blinding light/ And if love is not the key. If love is not a key./ I hope that I can find a place where it could be/ (...) I know that in your heart there is an answer to a question/ Which I'm not as yet aware that I have asked/ And if that tree had not drunk my tears/ I would have bled and cried for all the years/ That I alone have let them pass/ Oh, Baby I am yours..."
Quem sou eu? É a pergunta mais registada nas câmaras que registam a passagem daqueles que se atrevem a descortinar o trilho que se afigura à sua frente esfumado e sem respostas. Muito menos agora, neste instante, em que estamos a desenformar estas empadas de espinafres e a independentizar estes croissants integrais.
Descubra-se quais as diferenças.
Para que se elimine a sensação de que esta crónica é um cárcere de angústia, da melancolia ou até do devaneio crédulo, inverta-se agora o seu rumo, pois tal o próprio Nick Cave sentiu necessidade de deixar de compor músicas para os outros sofrerem, também não quero sentir esse fardo caro/a leitor/a.
Aligeire-se pois.
Imagine-se uma versão de Big Brother ou da Casa dos Segredos em que os participantes eram obrigados a ingerir substâncias psicotrópicas todos os dias.
Pausa. Vou só ao café da esquina buscar pão de centeio com sementes de papoila. Apetece-me uma torrada. Regressado do café, sou guardião desta frase ouvida da boca de uma mulher de meia-idade sentada numa cadeira à frente de uma mesa despojada de serviço: “Estou à espera de uma pessoa, mas ela deve estar a a chegar pois vi a sombra dela lá fora.” A empregada de mesa riu-se - desvelando um brilhante cintilante num dos caninos - , depois de a escutar e continuou o seu trabalho, pedindo um merenda com facada. Como reagir àquela frase? Será que estava a propor uma discussão em torno d’ Alegoria da Caverna de Platão?
Adense-se, pois.
Imagine-se então se a nossa vida fosse uma sucessão ininterrupta, até ao dia da morte, de inaugurações de pequenos ou grandes acontecimentos e que fosse possível viver uma vida em função do tempo, medido em dias, que levaria a atingir certas metas ou certos objectivos, como nos querem fazer crer.

Permitam-me, por isso, esse exercício. Melhor, em vez de o fazer, deixo aqui uma espécie de formulário para que caro/a leitor/a o/a possa preencher. Por isso:
1. Já só faltam ... dias para começar algo que há quero fazer (É agora ou nunca!).
2. Já só faltam ... dias para assistir ao espectáculo: ... . (recomenda-se a compra antecipada de bilhetes!)
3. Já só faltam ... dias para acabar de ler: .... (de preferência um livro).
4. Já só faltam ... dias para ser pai ou para ser mãe (quando aplicável, que é como quem diz, quando desejável).
5. Já só faltam ... dias para te reencontrar e te dizer outra vez: “gostava muito de ter sido feliz contigo” (para casos excepcionais em que a possibilidade de reconciliação é duplamente desejada).
6. Já só faltam ... dias para ir à/ao ... (destino de viagem).
7. Já só faltam ... dias para perder a noção do tempo e querer ficar aqui e assim para sempre (definir situação).
8. Já só faltam ... dias para regressar àquele sítio (basta dizer para si próprio qual o sítio).
9. Já só faltam ... dias para colocar um ponto final num texto (cujo tema é livre).
Nelson Guerreiro (escreve em desacordo ortográfico)

























