DIÁRIOS DO UMBIGO

  • none

Acho que já aconteceu a todas e todos: num momento de marasmo amoroso, fantasiar com o reencontro com aquela paixão desgovernada e longínqua que se foi embora com metade do nosso coração debaixo do braço. Sim, aquela paixão que, em determinada altura, percebeu a 100% quais as nossas necessidades e, de livre e expontânea vontade, as satisfez com o mínimo de esforço. Aquela paixão que, do modo mais natural e mais inteligente (claro), nos considerou a coisa mais importante do mundo. Contudo, aquela paixão que também, inexplicavelmente, se divorciou do bom senso e partiu para parte incerta. Sim, quem já não deu por si a imaginar como seria reencontrar esse amor perdido, esse flirt de noite de Verão, esse high school sweetheart que nos deixou um amargo de boca? Quem já não fantasiou que agora poderia ser o momento em que tudo seria diferente, que agora poderia ser perfeito… tão perfeito que, e falando de fantasia, só faria sentido se documentado pela câmara de filmar de um Richard Linklater?

A todas aquelas e aqueles que já se estão a imaginar no corpo da Julie Delpy ou do Ethan Hawke, peço desculpa mas vou ter de interromper o sonho já que eu, neste espaço, escrevo sobre música e é exactamente disso que este texto trata: de uma doce paixão de adolescência que me levou até à tenra idade adulta… uma paixão musical que se perdeu, que me deixou perdida, mas que, passados 14 anos, voltou para me deixar novamente o coração em atormentado ponto de caramelo: os Suede.(Perdoem-me o dramático da prosa mas tinha de extravasar de alguma maneira a energia que este reencontro e que o novo sol de Primavera me trouxe.)

Os Suede, muito resumidamente, e para os que não estão familiarizados com a sua carreira, foram a melhor banda dos anos 90. (Vá lá, isto é um artigo de opinião por isso posso dizer o que me apetecer, sendo que isto é a mais pura das verdades.)

Celebrizados, em Portugal, através dos perfeitos contos pop que nos mostravam os idos da sociedade sob uma imaculada película de glamour e grandiosidade – falo de Trash, Beautiful Ones e Saturday Night, temas incluídos em Coming Up, terceiro álbum com data de 1996 – desde a estreia, em 93, com álbum homónimo, que os Suede tinham conquistado, a crítica e o público britânicos. Com maneirismos 'Bowieanos', acordes e guitarras afiadas qual bisturi, um abanar de anca a fazer lembrar Morrissey, e os seus contos de desamor, luxúria, sedução, esperança e preguiça, os Suede – liderados pelo flamboyante Brett Anderson e pelo brilhante Bernard Buttler – assaltaram o mundo com o cortante abandono sexual de "Suede" (93) e com as orquestrações épicas de Dog Man Star (94), as mesmas capazes de desfazer o mais frio dos corações. Os Suede davam assim início à Britpop da maneira mais delicada, refinada e sublime, distanciando-se naturalmente dos deliciosamente pueris Blur e Oasis. A originalidade de estilo e linguagem de temas como So Young, The Drowners, Still Life (tema que ditou a minha paixão à primeira audição), Heroine, e tantos outros, reflectiam a química entre Anderson e Buttler que só encontrava paralelo na intensidade das suas apresentações ao vivo.

Mas esse, aparente, estado de graça durou pouco. Com a saída de Buttler e entrada de Richard Oakes para a guitarra e Nick Codling para as teclas, os Suede tiveram de se reinventar e conseguiram-no da maneira mais luminosa no terceiro álbum, Coming Up, um exercício perfeito de pop que ganhava um corpo perfeito na capa assinada pelo gigante das artes gráficas, Peter Saville. E foi o mais brilhante que a nova estrela dos Suede brilhou até ao fim, em 2002. Nos últimos cinco anos antes do anúncio de separação, a paixão que os Suede despertavam arrefecia a olhos vistos primeiro com Head Music (99) e definitivamente com A New Morning (02). As melodias mais ou menos irrelevantes e a infantilidade das letras de Anderson, muito atribuídas ao consumo excessivo de muita coisa, levavam os Suede num caminho sem retorno. Pelo meio, em 97, a salvar a honra dos primeiros anos, apenas o álbum duplo Sci-Fi Lullabies, compilação de lados B, tantos deles melhores que os lados A. Não esquecer My Insatiable One, Killling of a Flash Boy ou Europe is Our Playground.

No que a mim diz respeito, essa paixão foi sendo estrangulada com momentos bons aqui e ali (Everything Will Flow ou o single Let Go). Mas não esqueço a primeira vez que ouvi o tema She's in Fashion: passei a falar dos Suede com um quê de vergonha alheia, como daquela fantástica paixão de há muito, que tanto tinha dado, ainda com tanto para dar mas que, a determinada altura, se tinha perdido. Achava eu que para sempre, ainda que secretamente alimentasse a esperança de um regresso triunfal. E não é que passados 11 anos, esse regresso é uma realidade e que o triunfo é ainda maior que o alguma vez pensado?

É verdade, os Suede estão de volta aos álbuns de originais e não poderiam ter voltado com mais garra, com mais paixão e mais sexyness.

Bloodsports é o nome dado ao conjunto de 10 novos temas que nos faz acreditar na redenção e, acima de tudo, na pop music. Mais do que um álbum de regresso, Bloodsports é um álbum de teimosia, de recusa em pousar as armas quando as munições são mais que muitas, um álbum que redesenha o caminho que é finalmente o dos Suede. Contra todas as expectativas, passados 11 anos sobre a separação, 20 anos sobre a estreia, a banda regressa com um álbum clássico instantâneo e que nos faz perder a noção total de temporalidade. 1993, 2002, 2013? Não interessa. Em qualquer um destes anos, este era um grande álbum. E só uma grande, grande banda consegue um feito destes. Até nisso, e tendo em conta o regresso de Bowie este ano, mostram que têm as referências certas.

Os temas Barriers, Snowblind e It Starts and Ends Up With You, primeiro single, enchem-nos o peito de emoção e de um sentimento de esperança essencial. À segunda audição, estou absolutamente rendição ao tema Hit Me a lembrar She ou Trash. Para o final, ficam as mais introspectivas, mais pessoais: Sometimes I Feel I'll Float Away, Always , Faultlines que nos levam para os subúrbios dos nossos universos.

Brett Anderson, Neil Codling, Richard Oakes, Matt Osman e Simon Gilbert deixam-me orgulhosa e ansiosa por voltar a vê-los ao vivo. Quase que de uma maneira que me leva a ter esperança em tudo. Provam assim que o que me fez apaixonar por eles há 20 anos é exactamente o que me faz reapaixonar por eles hoje: o estilo, a classe, a inteligência das letras, a sensibilidade das melodias, a coolness que é tanta que só pode ser autêntica.

À parte de tudo isto, é um deleite olhar e reconhecer no Brett Anderson um fiel mas independente herdeiro de Bryan Ferry, borrifando-se para o tão preguiçoso 'estar na moda' ou para o tão aborrecido 'pertencer à cena'. Os Suede nunca estiveram na moda nem nunca 'pertenceram à cena' e assim foi para o bem e para o mal. Em 2013, regressam crescidos mas regressam como Suede: sem Britpops, Cool Britannias ou demais rótulos comerciais que nada tinham a ver com música, só serviam para vender tablóides. Os Suede este ano fizeram música ao jeito do tempo em que a música era feita para durar.

Em 2013, Bloodsports pode não ter o mesmo impacto que o álbum de estreia ou Dog Man Star tiveram mas confirma a pertinência do caminho que começaram a trilhar com Coming Up e que ficou em stand by desde A New Morning. E porquê? Porque, em última instância, citando Bret Anderson, é um álbum que 'fala da luxúria, da busca e do infindável jogo carnal do amor'. E que mais poderíamos nós querer da banda britânica senão um retrato da própria vida através das suas melodias e letras? Os Suede deixam-nos assim mais um extraordinário conjunto de canções e também uma lição a não esquecer.

A todas aquelas e aqueles que se estavam a imaginar no corpo da Julie Delpy ou do Ethan Hawke lá em cima, podem continuar.

P.S - Linklater, se me estás a ler, perdeste este reencontro, um dos mais emocionados e emocionantes de sempre. Mas eu continuo a acreditar que o teu terceiro poderá ser igualmente bom. Parafraseando as palavras de uma musa para Hank Moody: "ser cínico é fácil, sejamos optimistas".

Diários do Umbigo

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: