A 21 de Novembro de 2013, terei as mãos geladas e os dedos endurecidos. Irei friccioná-los. Aquecidas as mãos, dedilharei no teclado as seguintes palavras: “para ver se o texto se inflama” que apagarei. Portanto, não farão parte do texto.
O tema deste texto será a intimidade, quiçá o lar doce lar construído a dois em pormenores do género: o que cada amante compra no supermercado para mimar o ser nutriente do seu amor?
As minhas secções preferidas para cumprir este desígnio são a padaria e a dos doces (preferencialmente pouco calóricos, como os palmiers da marca Rois-du-Boche). Isto se for nos supermercados generalistas. Se for a um supermercado agro-naturo-bio-aloe-vera-dietético – ai! aí as coisas mudam - a minha secção favorita é a dos fluídos, líquidos, essências e sumos naturais, mormente provenientes de frutos vermelhos, pelo seu carácter dois em um: anti-oxidantes e plenos de sex-appeal pela predominância ruborizada ao nível da cor.
Salto no tempo. Já auto-teletransportado para o dia 21 de novembro de 2013, eis os resultado das sinapses ocorridas a partir do tema eleito. Sinto as ideias aos saltos, como os bagos de milho numa panela quando se lhe encostam óleo quente. Induzo: as ideias são as pipocas do cérebro. Reproduzo algumas delas, como quem quer criar empatia, ao mesmo tempo que deseja chegar à intimidade elegante, recíproca e futurológica.
Ideia 1: O que é preciso existir no lar para que haja intimidade no outono ou no inverno? Talvez uma lareira, muito mais do que o aquecimento central, seja essencial para que haja intimidade física. O que não faz uma lareira à libido? E dois ou mais copos de vinho tinto ou de colheitas tardias a dois corpos assimétricos pela distância protocolar entre duas pessoas desejantes na sua primeira, mas também na sua décima oitava, noite ?
Ideia 2: No inverno estamos sempre a desejar o verão. Até lá aquecemo-nos, porque o inverno tolhe o corpo na rua e apela à intimidade caseira, já que em casa podemos aquecer-nos de tantas maneiras. A saber: comida e bebidas quentes, mantas e edredões, os corpos em fricção primária, qual re-enactement do fogo originário e inventado. Ainda ontem ouvi alguém no café a dizer: “Nunca mais é Agosto! Ai que saudades das altas temperaturas e de estar à beira-mar à noite numa praia algarvia deserta. Ai que saudades das ostras e dos perceves e de uma bela sapateira e de sentir, degustando tudo isto, a boca a rasgar o mar como se fosse uma prancha de surf!”
Ideia 3: Fundir o discurso do texto com a situação de leitura com o objectivo de produzir intimidade, quer com o/a leitor/a, quer com quem se possa estar a partilhar a leitura do texto.
O tabuleiro já está no forno. Resta esperar. Como se cheira, este é um texto de trazer por casa. Espero mesmo que o levem para casa e o leiam ao serão para alguém numa sala com ou sem lareira, à mesa para quem foi/ vai/ está a jantar lá a casa ou na cama mesmo antes de adormecer ou de outra actividade camalística ou, como diriam os franceses, camembert.
Se isso já está a acontecer: “Gostava de te dizer que quando estás assim perto de mim, sinto-me tão bem. Só queria que as pessoas soubessem o que é ser amado por ti. Que todas as pessoas, em toda a parte, tivessem alguém que as amasse como eu te amo. É bom estarmos assim tão perto. É bom nos termos voltado a juntar e ouvir esta música suave. É em alturas como esta que eu sei que tenho sorte. Ao tocar uma pessoa que me quer e me abraça assim. Só tu fazes com que eu não perca o juízo. Olho para ti e beijo-te. Beijo-te já sem estar a ler o texto. Beijo-te com a minha boca sem estar a olhar para o papel.” Didascália: se o beijo não ocorrer o/a leitor/a deve aproximar lentamente os seus lábios da boca desejada. Depois das bocas descoladas, pense-se nesta frase: o beijo significa intimidade.
A casa deve estar cálida e confortável. Observadas estas condições, as palavras não são mais necessárias, porque o texto está escrito, lido e relido por nós. Nós quem? Isso agora não é para aqui chamado.
Para questionar em contraponto a fim de comprovar o acerto deste encontro gramático dos corpos, reproduzo a única frase não identificada - vim a saber mais tarde que era da Augustina Bessa Luís -, que li num caderno encontrado numa sala de aulas: “A intimidade excessiva desencadeia a hostilidade.”
Quem terá escrito esta frase? Porque razão descredora na intimidade excessiva uma pessoa se deu ao trabalho de afixar estas palavras? Será que foi alguém a quem lhe foi oferecido/a uma peça de “underwear” longíqua do seu gosto? Acontece. Porém, mas que importa isso se é o corpo desnudado que se deseja ter nas mãos no seu grau máximo de pureza? A harmonia a dois resulta no encaixe das clavículas que, pensando bem no assunto, umas cuecas erradas podem impedir. Por isso, aproveite-se as promoções da Intimissimi e o resto será “savoir faire”!
A todos aqueles que se sentem feridos nas suas susceptibilidades e sensibilidades máximas, apenas me resta recomendar que apaguem a luz e esperem pelo som do autoclismo, mas por favor não acendam a luz porque fumar matar-vos-á.

























