DIÁRIOS DO UMBIGO

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Serei só eu ou haverá mais alguém que só se tenha apercebido agora, em 2013, que os anos 90 foram há duas décadas e não há uma? Sim, na minha cabeça, 1995 tinha sido há uns 9 anos e 2006 foi praticamente ontem. Nada disto tem a ver com a minha antipatia para com os números, falo única e exclusivamente da minha percepção, a que alguns de vós poderão chamar negação. Tudo isto para dizer que, é um facto: 2003 foi há 10 anos (sem nenhuma pausa para reflexão). Apercebi-me disso quando li as notícias que davam conta da reedição comemorativa do 10º aniversário de Give Up, álbum seminal dos norte-americanos The Postal Service.

Para além do imediato tombar de cabeça (gesto que melhor descreve a reacção a este conjunto de canções), houve uma ansiedade controlada que se instalou por saber que aquele álbum que se riscou de tantas voltas que deu no meu leitor de CD's iria ter uma vida nova. E que, com toda a certeza, finalmente iria ter a vida que merece. Give Up é um álbum mágico, um desfilar de histórias de amor quebradas, de inércia, de tédio, contadas através de assertivos riff's de guitarra gentilmente envolvidos em nítidas e delico-doces batidas electrónicas, temperados com palavras de sinceridade cortante. É um álbum mágico porque provou que a electrónica podia ser humana e comovente, sem ser lamechas, porque é um dos raros álbuns que encontra a delícia da perturbação que provoca na sua quietude sem par.

Muito antes da explosão de miúdos artilhados com tote bags, óculos de massa preta, calções de ganga, cupcakes e instagram na ponta do dedo, Give Up marcou um novo capítulo no universo da indietrónica e acabou por ser o livro de cabeceira, mesmo que sem noção disso, de 90% das bandas de synthpop que têm aparecido nos últimos anos. Such Great Heights, We Will Become Silhouettes e Sleeping In são bons exemplos da mestria com que é misturado o idealismo de Ben Gibbard (Death Cab for Cutie) e a simplicidade compassada de Jimmy Tamborello (Dntel), autênticos caramelos que se colam aos nossos ouvidos e que dão um outro significado à palavra repeat.

Não esquecer que podemos também agradecer aos The Postal Service terem tirado a culpa ao acto de ouvir o tema Against All Odds de Phil Collins.

A Give Up Deluxe Edition 10th Anniversary, editada pela SubPop em Abril próximo, irá incluir dois discos: o primeiro terá as 10 canções originais remasterizadas e o segundo vai ser uma verdadeira caixa de bombons para os fãs com dois temas inéditos (Turn Around e A Tattered Line of String), cinco remixes, versões ao vivo e ainda as fantásticas covers de We Will Become Silhouettes pelos The Shins e Such Great Heights por Iron & Wine.

Em 2013, já não faz sentido trocar por correio gravações DAT para fazer um álbum (foi deste processo que a banda retirou o seu nome) mas não poderia fazer mais sentido eleger, já em Fevereiro, esta reedição como um dos álbuns do ano. Agora que penso melhor, e depois de escutar outra vez o Give Up de início ao fim, não me parece assim tão descabido achar que 2003 foi ontem. Bem vistas as coisas, na essência, nem eu nem o Give Up envelhecemos um só dia.

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