DIÁRIOS DO UMBIGO

  • none

Há quem tenha talento para cozinhar, há quem tenha talento para comer. Há quem tenha talento para compôr ou tocar um instrumento, há quem tenha talento para apreciar a música feita por outros. Como gulosa que sou tanto por comida como por música, sempre me senti confortável nas duas segundas hipóteses sem nunca questionar o porquê, ou até querer mudar. Mas quando, por puro tédio, comecei a dar comigo a ter prazer em estar na cozinha de volta dos tachos e a querer terminar o trabalho o mais rapidamente possível para poder ir fazer estragos na bateria, pode dizer-se que houve uma ‘reconstrução total’ aqui em casa.

Não, não vos vou maçar com as descobertas culinárias que tenho feito, até porque não se fala com a boca cheia, vou antes dedicar estas linhas ao reatar de um amor antigo que aconteceu quando tive a necessidade de encontrar um objecto que fosse ‘o livro da primeira classe’ da minha reaprendizagem musical.

oasis2

Da forma mais natural, os single e double strokes, paradiddles, breaks - termos da gíria baterística - que fui aprendendo encontraram no álbum de estreia dos Oasis, Definitely Maybe, o seu exercício perfeito. E, apesar de ser o único álbum dos Oasis que comprei, acreditem que, para mim, isso foi um facto estranho, visto que sempre fui da facção Blur (quem era adolescente em 94 sabe do que eu estou a falar).

Contudo, quando pegava nas baquetas e ensaiava um muito atabalhoado 1, 2, 3, 4! imediatamente me vinha à cabeça a sequência I’m a Rock n’ Roll Star, Shakermaker, Live Forever, Up in the Sky, Columbia, Supersonic, Bring it On Down, Cigarettes & Alcohol, Digsy’s Dinner, Slide Away, Married With Children! Sim, os 11 temas do que é provavelmente o melhor primeiro álbum de sempre (levantem-se as vozes discordantes) o mesmo que ditou o renascimento do rock n’ roll nos anos 90, um dos que ditou o mágico nascimento do rock n’ roll na minha vida. E falo em todos porque me é impossível individualizar as canções deste álbum porque a magia vem exactamente da experiência de, em pouco mais de 42 minutos, cantarmos a plenos pulmões que somos estrelas de Rock n’ Roll, que iremos viver para sempre, que vamos viver o extraordinário e que, mesmo que só encontremos álcool, cigarros e um emprego da treta, temos uma razão para cá estar e que o vamos fazer da forma mais espectacular e sem medos. E depois a música: o patchwork de referências aos Beatles, aos Kinks, aos Sex Pistols, o riff sacado dos T-Rex que por sua vez tinham sacado ao Chuck Berry, a música dos Oasis a encontrar a sua verdadeira originalidade na voz do deliciosamente endiabrado Liam Gallagher. Todo o álbum é como uma refeição de degustação: uma viagem entre as explosões de energia, o limpar de palato com as baladas, a descoberta de um sabor familiar que não sabemos muito bem o que é mas que é bom.

oasis3

Passados 20 anos, o ‘Definitely Maybe’ reapareceu no meu itunes e ainda bem. É para mim como o chegar a casa da minha mãe e, apesar de já ter provado e gostar de tantos outros sabores - mais sofisticados, mais elaborados e até mais originais - ainda serem os dela que realmente me consolam e aqueles que me fazem dar pulos de excitação à mesa assim como me fazem fechar os olhos para melhor os saborear.

Não sei se algum dia vou conseguir ser uma baterista digna desse nome, nem muito menos sei se algum dia vou conseguir acertar naquele tempero especial. Só sei que, seja em que papel for, hoje, como há 20 anos, é na música e na comida que tenho duas grandes fontes de felicidade. Hoje, como há 20 anos, “it’s just rock n’ roll!”

Related Post

Diários do Umbigo

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: