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Nadia nasceu em 1978 na Tunísia, filha de pai tunisino e mãe ucraniana, trabalha em Berlim onde desenvolve a sua actividade artística. A sua exposição encontra-se até ao mês de Maio no CAM com curadoria de Isabel Carlos na qual se encontram-se quatro peças recentes, distribuídas em três espaços distintos com os suportes em vídeo, instalação, pintura e escultura.

Logo à entrada somos atraídos pelo som das vozes de um coro de uma igreja, neste caso cidadãos tunisinos dentro de uma igreja anglicana que repete numa cadência e ladainha monocórdica no à semelhança do ámen. Essa palavra dá o título à proposta e noutro ecrã, à sua frente ouve-se a voz de um cantar surgindo através de uma boca de cara tapada sem rosto que canta as perguntas do formulário do pedido de vistos.

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A instalação de dois canais faz parte da sua vivência na qual experienciou directamente um processo de interrogatório pelo serviço de estrangeiros que necessitou de um visto para o Reino Unido, num período particularmente conturbado na Tunísia. A intervenção tornou-se especialmente conseguida no plano simbólico pelo facto de introduzir a voz humana na instalação, que ajudou a densificar a narrativa numa transposição para uma situação de liturgia religiosa.

Não deixo contudo de se poder questionar a forma como a artista utilizou certos valores, talvez abusivamente que pertencem ao domínio da espiritualidade que se encontram no plano da transcendência e da essência do homem. A pretensão da autora é no entanto pertinente porque a maior parte dos conflitos mundiais é desencadeada por tensões religiosas. A ideia é interessante mas a forma como utilizou os códigos imagéticos na ordem do significante pode ter sido demasiado ousada.

Descrevo o meu trabalho como uma arqueologia da vida contemporânea

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Tunisian Americans; Sniper e Smooth Criminal são composições conceptuais de diferente tratamento plástico com um potencial teórico fundamentado em que os factos históricos/políticos lembrados não foram porém vividos pela criadora, não possuem assim o mesmo impacto emocional da primeira instalação No.

Na Tunisian Americans, Nadia aborda a Campanha da Tunísia na Guerra Mundial em 1942 onde soldados e civis americanos morreram e muitos deles estiveram desaparecidos. A artista recolheu terra da Tunísia e colocou-a em pequenos frascos como símbolo do corpo morto pela mesma ordem em que as sepulturas estão organizadas no cemitério em Túnis. No plano metafórico cria uma espécie de mini-memorial contra o apagamento da memória em que visualmente os frascos funcionam como um conjunto seriado de retratos de fotografias à maneira de Boltanski.

No Sniper é um trabalho site specific que prende a atenção, sendo uma criação inédita. É uma impressão digital de uma parede em Berlim marcada de balas aludindo ao passado da 2ª Guerra, onde ocorreram intensos combates e referencia também a história recente da própria Tunísia. De género abstrato devido à técnica de impressão utilizada, a janela é representada como um retângulo branco vazio, rodeada de marcas da textura do muro e em torno dela, encontramos vestígios do impacto de balas.

E por último surge num palco numa espécie de ready-made uma peça escultórica Smooth Criminal isolada e destacada com a luz a incidir sobre ela num ambiente de escuridão. É um objeto já construído, foi intervencionado e retirado do seu contexto abrindo a novos campos de significação. É uma armadilha para peixes encontrada na região do Golfo que foi modificada com um revestimento de pó branco. A obra é aparentemente frágil como se fosse uma joia exposta numa vitrina estando valorizada devido ao lugar que ocupa. A armação em forma de cúpula é formada por um padrão: a estrela de David hexagonal, que se tornou num símbolo do sionismo e que a vemos na bandeira de Israel. A questão fica sempre em aberto, havendo dois lados do mesmo problema consoante a situação onde nos colocamos. O título preso por fios é sugestivo tem uma explicação de sentido duplo: Presos ao lugar de onde vieram, em termos de memória e história e presos dentro do lugar em que agora vivem. São sempre estrangeiros.

A sua produção gira em torno de acontecimentos sociais onde o mecanismo da invisibilidade se impõe, dando relevo à sua memória fazendo-nos refletir e ficando em aberto mais interrogações do que respostas. É de realçar a utilização de aspetos subversivos, os quais explora uma dupla função das situações, fenómeno recorrente na arte dos nossos dias. Pertence a uma geração de artistas onde a criação contemporânea é difícil de se realizar contudo não se esquece das suas origens onde quer que esteja e isso é o mais importante.

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