CINEMA

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Final dos anos 50. Rebelde, caminhava destemido por bairros perigosos. A adrenalina fervilhava com a possibilidade de encontrar uma luta de rua ou um gang rival. Dos companheiros de gueto, contavam-se por uma mão – e ainda sobravam dedos – os que não tinham sangue italiano a correr-lhes nas veias. Uma geração de novos americanos, com tez escura e olhos claros, a denunciar as raízes latinas. Da família herdou o sobrenome, Dallesandro. Uma figura popular nas ruas - pela estatura pequena e porte atlético – chamavam-lhe “Little Joe”, alcunha que tatuou no braço direito. Começou com pequenos furtos e tudo indicava que seria um criminoso, tal e qual alguns conterrâneos, com o nome inscrito na história da máfia. Quis o destino que a fama lhe batesse à porta, não por roubar velhinhas, mas por tomar de assalto as telas de cinema. Nascia o sex-symbol Joe Dallesandro, instigado pelo criador da Pop Art, Andy Warhol.

O início não foi triunfante. Aos 18 anos posou para revistas gay engenhosamente disfarçadas de publicações culturistas. Qual Deus no Olimpo apresentou-se de cabelo aparado, corpo oleado e poses modeladas, imagem bem diferente faria dele uma estrela. Warhol perdia-se por pessoas bonitas e, num encontro casual, sucumbiu aos encantos de Joe – que espreitando por uma porta semiaberta em Greenwich Village – foi convidado a entrar e representar em cuecas. A estreia em The Loves of Ondine abriu-lhe as portas da fama, do glamour e do sexo livre, sem medo de estereótipos. Divorciado e com um filho, a sua bissexualidade ainda hoje vem à tona frequentemente.

Joe, o menino de ouro de Andy Warhol e Paul Morrissey, revelou-se a peça fulcral na trilogia Flesh (1968) / Trash (1970) / Heat (1972) – títulos iconográficos do cinema underground. A estas produções experimentais e de baixo orçamento juntaram-se muitas outras, numa espécie de contracultura crua e dura – a resposta às películas grandiosas dos estúdios de Hollywood.

O segredo do sucesso de Dallesandro? Cabelos sedosos, rosto delicado e muita espontaneidade, infelizmente os seus talentos como actor nunca foram relevantes para o alcance do estatuto de Superstar. Os papéis sucediam-se mas era incitado a despir-se mais e a representar menos. Em Je T’aime Moi Non Plus temos actor – um dos seus filmes favoritos, coincidiu com a estadia prolongada de sete anos na Europa, encabeçando o elenco de mais 18 filmes. Na película francesa é dirigido pelo insano Serge Gainsbourg, o músico estreia-se como realizador. Profundamente inspirado pela cultura porno-chique norte-americana, suplantou com Je T’aime Moi Non Plus todos os filmes que lhe serviram de referência. A protagonista Jane Birkin, na época esposa de Serge, o par ideal para Joe, num triângulo amoroso que expunha com crueza um amor improvável entre um homossexual e uma mulher andrógina. Gainsbourg não se perdeu de amores pela má pronúncia francesa do actor. A solução passou por um trabalho de dobragem, aspecto que é meramente um detalhe quando se mergulha na beleza agonizante desta produção à qual não se fica indiferente.

Com a morte de Andy Warhol, a carreira de Joe permaneceu confinada a produções de categoria B. Se antes o estatuto underground assegurava-lhe luxo junto da elite artística de Nova Iorque, agora era apenas mais um actor a tentar sobreviver. Destacam-se as discretas participações em Cotton Club de Francis Ford Coppola e Cry Baby de John Waters. Joe Dallesandro, actualmente com mais de 60 anos, prepara um documentário acerca dos 40 anos de carreira. Não nos esqueçamos, a sua imagem é contemporânea mesmo quando toda a obra nos remete para o passado que, curiosamente, está muito presente. É ele quem veste as jeans gastas na capa do disco Sticky Fingers dos Rolling Stones. É o seu corpo despido que vemos na capa do primeiro trabalho dos Smiths. Não foi por acaso que um dia Lou Reed escreveu: «Little Joe never once gave it away. Everybody had to pay and pay» no clássico Take a Walk on the Wild Side.

Andy Warhol disse que todos teríamos direito aos nossos 15 minutos de fama, Dallesandro teve muito mais do que isso. É sem dúvida uma das mais perfeitas criações da Factory – e surgem novos fãs todos os dias. Para quem quer começar agora a aventurar-se nesta viagem alucinante, deixamos a pista como ponto de partida - www.joedallesandro.com – o resto depende de si. Até onde quer ir?

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