Até que ponto é a fotografia publicitária ou de moda invisível? Apenas quando o eco residual da sua voragem omnipresente se refere ao produto apresentado e não à imagem em si. Mas quando esta, pela sua excelência, transcende a proposição inicial, o produto passa a fazer parte da imagem e não a imagem do produto. Em última análise, o produto torna-se a imagem.
Num mundo saturado de ruído visual, apenas a arte tem poder suficiente para se fazer ouvir, para fazer parar o trânsito de almas (consumidoras). O trabalho de Eugenio Recuenco é a celebração da fertilidade que pode resultar do flirt lúbrico entre a arte e o entretenimento. Herói revestido de invisibilidade mas dotado com o poder de hipnotizar, ele é um criador contemporâneo de imagens, é um criador contemporâneo, é um criador. As suas fotografias estão a compor o nosso horizonte de referência(s), a permear a nossa irrealidade quotidiana com a sua elegância e irreverência. Verdadeiras compressoras de significados e sentidos que apenas podem ser devidamente extraídos no plateau do subconsciente seduzido pela calma, luxo e volúpia da estética do artista. Visão que prolifera pelas páginas de Madame Figaro, Wad, Spoon, Vanity Fair, Stern, Vogue, (entre outras) e nas campanhas de Boucheron, Baby Phat, Diesel, Rammstein, Magnum, Nina Ricci, Lavazza, Custo, Codorniu, Mango e Loewe. And this is just the beginning, baby.

Tudo começou, como não podia deixar de ser, no Maio de 1968: enquanto os estudantes de Madrid se manifestavam no campus universitário, a mãe de Eugenio foi a correr para o hospital, «porque estava a ouvir aquilo tudo e deu-me pressa para nascer», como confidenciou no seu estilo saudavelmente bem-disposto à Umbigo. E continuou: «Tiraram-me as minhas primeiras fotos e rapidamente me dei conta de que tinha de fazer alguma coisa para evitar ficar tão feio. O melhor era mesmo passar a ser eu a fazê-las.» Depois de investir alguns anos na Faculdade de Belas Artes, na especialidade de Pintura, fizeram-no crer «que era um artista. Durou pouco». Mas os clientes começaram a surgir, bem como os prémios - Prémio Nacional de Fotografia ABC 2005, Leão de Ouro em Cannes no mesmo ano para uma foto da Playstation («Em Espanha, sabem disso apenas a minha família e eu», graceja), prémio para o melhor projecto de arte no FEM IV (Festival de Arte Edição Madrid) – e as exposições, bem entendido - Tras el Espejo no Museu Nacional de Arte Reina Sofía em Madrid, BAC (Barcelona Arte Contemporáneo) no CCCB em Barcelona, instalação no Circuit 8 Barcelona , La Santa (Espacio de Experimentación y Creación Contemporánea), instalação no FEM III, participação no PhotoEspaña 2007, no Naarden Photofestival na Holanda, no Art Toronto 2007. E neste momento? «Neste momento, continuo a fazer o mesmo de sempre: trabalhar».
Para além do evidente apuro técnico, ressaltam do trabalho de Recuenco três vectores que se entrecruzam: um sentido de mise-en-scéne que vem do cinema, um sentido de humor mordaz e uma vontade irreprimível de fazer jogos, com o observador entre os intervenientes nos seus quadros digitais. O artista concorda? «Não tinha pensado nisso, porque normalmente faço as coisas sem pensar, por pura necessidade. Mas pensando bem, creio que é verdade. A mise-en-scéne tem a ver com cinema e com pintura e em muitas coisas é essencial nas minhas fotos, diria que cresce ao mesmo tempo que a foto e nasce com ela. O humor nunca deve faltar. Às vezes, mais por falta de orçamento do que de informação (pois procuro documentar-me o mais possível sobre a fotografia), recorremos a coisas surrealistas e humorísticas nas encenações. Julgo que essa é a chave do universo que mostramos. Quanto a jogos, bem, eu encaro tudo isto como um jogo e toda a gente está convidada».

As fotografias de Recuenco transcendem a mera imagem de moda, incorporam narrativas fantásticas, clímaxes cinematográficos, lições dos grandes mestres pintores, estudos de composição formal, faits-divers, personagens marginais, comics, contos tradicionais, perversões subtis e piscadelas de olho eruditas. É a moda limitação ou inspiração? «Digo sempre que avancei muito lentamente na fotografia de moda. É difícil construir algo pessoal na moda, por causa da sua própria natureza passageira. Isso obriga-te a mudar constantemente o caminho. Eu decidi mover-me dentro do meu mundo para não estar sempre a fazer as mesmas coisas, mas sem ir atrás de ninguém. Isso custa-te a tua saúde neste mundo. Por outro lado, devo tudo à moda, dado que em determinados momentos me permite expressar-me e ainda por cima pagam-me. Não deveria dizer isto, mas faço fotos onde aparece roupa, embora a roupa em si não me escravize porque a maioria é medíocre. Entusiasmam-me os vestidos excepcionais, mas cada dia que passa são de facto mais excepcionais, pela sua dificuldade em aparecerem».
O trabalho é de equipa e não inteiramente humano, naturalmente. «As ideias vêm ter comigo e tento pô-las em prática. Para isso conto com uma equipa magnífica, que me apoia em todos os momentos. Creio que os realizadores de cinema contam com uma grande equipa e nunca se questiona o seu trabalho por estar apoiado por outros. Quanto ao aspecto final do trabalho, ele é sempre aperfeiçoado pelo computador, seria um absurdo não o fazer, embora não da forma que muitas pessoas pensam que é. Apenas posso afirmar que tudo o que aparece nas fotografias já estava lá, utilizo o computador para as cores, para as texturas, etc. – e é manejado por uma das melhores equipas de retoques do mundo, dirigida pela minha mulher».

Realizou um pequeno spot publicitário para a Loewe e dois para a Nina Ricci. As fotografias, possuídas por uma dinâmica interior, querem soltar-se, saltimbancas enamoradas pelo nomadismo das imagens em fluxo.
Gostaria de fazer cinema, é algo que persigo. Ocorrem-me ideias com movimento. Admiro quase todos os realizadores, depois de me aperceber de como é difícil fazer um filme (…).
E em que se inspira aquele que nos devolve sonhos cristalizados, tantas portas para os corredores secretos das nossas fantasias mudas que nos atravessam numa febre lenta?
As minhas influências na vida são o que vejo e o que imagino que vi. Sou tão despistado que acho que não tenho uma percepção exacta do que vejo e então construo histórias irreais. O cinema e a arte em geral influenciam-me muito. Admiro muito os fotógrafos, mas tento que não me influenciem demasiado, para não perder o caminho. Há tantos bons, que é uma tentação…
É importante para si o tempo e a memória do tempo?
No futuro, gostaria de ser um velhinho que vai fazendo na mesma umas fotos de vez em quando, enredado nas suas coisas esquisitas. Oxalá que custe aos meus netos perceber as minhas fotos quando for mais velho, será sinal que terei mantido o meu espírito jovem. E também gostava de fazer um livro que resumisse o meu trabalho.
Na altura em que falámos com ele, Eugenio procurava Jesus.
Para um casting, claro.

