Vamos recuar no tempo. Não é preciso entrar numa daquelas máquinas dignas de ficção científica. Basta viajar na memória. Ano de 1969: surgem três mulheres sumptuosas, com cinturas de vespa e com um look dominatrix. Uma está de pé, a outra transformou-se numa mesa e a outra numa cadeira. São as famosas esculturas-mobília de Allen Jones. Fizeram as delícias dos fetichistas e puseram as feministas de cabelos em pé. Já estão situados no tempo? Sim, este foi o arranque para a fama de Jones, mas muitas outras obras se seguiram, não tão controversas, está claro.
Allen Jones nasceu em Southampton em 1937 e a sua obra está representada em diversos museus, galerias e colecções particulares a nível internacional. As actrizes principais da sua obra são figuras femininas dotadas de longas pernas e invejáveis saltos altos, numa constelação de cores e vivacidade com uma exuberância inata ao pintor. Após muito deambular e desenhar na sua série de pianistas e modelos, em 1999 deu início a Magicians criando uma interacção entre os mágicos e as suas acompanhantes femininas numa metáfora para o amor.

Os seus últimos trabalhos representam a imagem tradicional do pintor e da modelo. Pretende de alguma forma exaltar a figura da mulher como uma musa?
Sim. Estou sempre em busca de caminhos, desculpas, novos motivos para representar a figura masculina e feminina numa espécie de interacção. Como os artistas no circo ou no teatro, ou o ambiente dos bares, discotecas e clubes nocturnos. O tema do pianista e da performer é para mim uma extensão do pintor e da modelo. No início da série, o pianista está sentado de um lado e a sua musa, a cantora, está do lado oposto com o piano a separá-los. À medida que me fui familiarizando com este imaginário, eles começaram a desconstruir-se e misturam-se tornando-se numa espécie de metáfora para o amor.
Como é que iniciou a série Magicians e de que forma está relacionada com a série do pianista e da performer?
Tudo começou com um piano de cauda, a principal composição é a linha horizontal do teclado, que para mim tem uma conotação fálica. O homem está a tocar e entra a sua musa. É algo que me dá uma nova desculpa para fazer uma pintura. Mais recentemente fui metamorfoseando a ideia do artista não como um compositor, mas como um mágico. pinturas mais recentes estão preocupadas com a ideia do mágico depois de este ter serrado a mulher ao meio, ou de fazê-la desaparecer ou levitar. Na revista Vogue, numa edição de Natal, aparecia Elton John a tocar piano, a câmara fotografava o piano de cima, Elton John olhava para cima e uma mulher estava sentada no piano com as pernas abertas. Quando eu vi a capa senti que o director de arte tinha andado a prestar atenção às minhas pinturas. Olhei para as fotografias e fiquei feliz. Pensei que era bom que estas imagens andassem a correr o mundo.
Como lhe surgiu a ideia de fazer as mulheres-escultura peça de mobiliário?
Eu era basicamente um artista figurativo no mainstream da arte abstracta e estava a tentar encontrar um caminho para fazer uma escultura ou um statement para a figura feminina que não se parecesse com arte antiga. Então não escolhi o mármore, nem o bronze, encomendei manequins a uma empresa e comecei a trabalhá-los. Existem três figuras, a que está de pé, a cadeira e a mesa. Não tinha qualquer ideia de como se fazia mobília, e quando fiz a primeira escultura, de pé, pensei que poderia assemelhar-se a uma imagem surrealista e as pessoas poderiam achar o mesmo. era essa a minha ideia. O meu trabalho não era sobre nostalgia, então pensei numa forma de fazê-las sem que as pessoas as relacionassem com história de arte. Acabei por me inspirar numa tira de comics que explorava a ideia de fazer figuras como mesas, cadeiras, o que me pareceu um conceito muito engraçado.
Como é que as pessoas reagiram?
Na primeira vez que as expus, reagiram muito bem. Tiveram o fetiche que eu queria que tivessem, tiveram um choque. Passado pouco tempo, os movimentos feministas começaram a ganhar alguma força e eu era o artista que tinha proporcionado esta imagem muito boa como um exemplo da forma como os homens tratam as mulheres, como objectos. No entanto não havia nada que eu pudesse dizer que não soasse como um pedido de desculpas e eu não tinha motivos para pedir desculpa. Felizmente hoje em dia aquele tipo de batalhas já não existe com tanta força. Também a atitude das mulheres para com a sua própria sexualidade e a forma como são vistas mudou desde então.

As suas controversas esculturas dos anos 60 inspiraram o cenário do Korova Milk Bar no filme Laranja Mecânica. Como se sentiu ao ser convidado por Stanley Kubrick para usar as suas esculturas?
Eu ficaria lisonjeado, excepto quando descobri que Kubrick queria que eu fizesse as esculturas sem qualquer financiamento. Seriam três meses de trabalho e na altura eu era um artista relativamente novo e não tinha propriamente uma forma de subsistência. Inicialmente ele queria alugar as minhas esculturas para o filme, mas a minha experiência permite-me avaliar que estas iriam facilmente danificar-se nas filmagens. Por isso não aceitei. Poderia fazer mais esculturas, mas ficou claro que ele não queria pagar. Depois disse-lhe que se ele gostava da ideia poderia sentir-se livre para usá-la, e a ironia final é que até mesmo nos dias que correm, passados tantos anos as pessoas pensam que eu tive algo a ver com o filme. Sem saber, ele acabou por fazer publicidade ao meu trabalho.
A mulher no seu trabalho é especial, tem poder, é como uma dominatrix. Inspirou-se em alguma mulher especial?
Acho que não. Eu gosto das manifestações masculinas numa mulher, assim como gosto das manifestações femininas no homem e no início estava interessado nesta dualidade da natureza. Acho que é por isso que as fotografias de Guy Bourdin e Helmut Newton me fascinam tanto. Porque talvez sejam a fantasia masculina da mulher. Mostram a modelo não apenas como um receptáculo de roupa, ela tem a sua própria existência e controla o seu destino. Mas há algumas mulheres que me fascinam, como é o caso de Uma Thurman no Pulp Fiction e de Louise Brooks. Eu gosto deste estilo de cabelo. Nos anos 60, Vidal Sassoon popularizou o bob, eu sempre o achei muito sexy e a razão pela qual sempre gostei é porque o formato do cabelo é quase escultural.
As cores e cenários que utiliza têm algo de mágico...
Eu gosto da teatralidade e da artificialidade da luz. Os bares nocturnos inspiram-me de alguma forma, tal como gosto de ir a sítios onde sei à partida que as pessoas se vão produzir, fazem um esforço criativo, tentam fazer uma extensão delas próprias, projectam-se e eu gosto dessa artificialidade. Não estou a pintar retratos e sim a criar situações idealizadas. As cores têm a ver com a intensidade das situações.
A sua arte é de alguma forma influenciada pelo surrealismo e pelo expressionismo?
Há certamente uma influência surrealista no meu trabalho. Expressionismo acho que não, embora admire imenso o expressionismo alemão. influência para mim vem mais do fauvismo e da teoria das cores da Bauhaus que estudei constantemente.
Quais são para si as maiores diferenças no seu trabalho desde que começou até aos dias que correm?
Quando estudava, o meu trabalho era disfarçado para parecer belas artes. Gradualmente descobri a minha própria voz e linguagem e o meu trabalho tornou-se mais forte e claro, culminando talvez nas esculturas-mobília. Estas permitiram que as minhas pinturas relaxassem mais. Agora as minhas imagens são mais líricas e talvez mais românticas.
Eu acho que têm alguma musicalidade.
Concordo totalmente. palavra música é importante para mencionar em termos do meu trabalho. Não de uma forma sistemática, mas sim intuitiva. Gosto da comparação.
O que pensa da pintura nos dias de hoje? Considera que está a atravessar uma fase de estagnação?
Acho que não. período corrente produziu tanta tecnologia que existem vários caminhos, nos quais um novo artista pode encontrar expressão individual. novos artistas podem gravitar mais no uso da tecnologia do que na pintura pela própria mão, porque nessa tem que se ser mesmo bom e é preciso pintar muito, durante muito tempo.
Tem assistentes?
Não. Nas minhas pinturas tenho a fantasia de que um dia encontrarei um método ou um tema no qual poderei usar assistentes porque assim poderia produzir muito mais trabalho. É apenas uma fantasia, tenho de ser eu a pintar as minhas obras.
Está a planear uma instalação com um exuberante conjunto de esculturas para os jardins de Chatsworth. Fale-me deste projecto.
Trata-se de uma instalação inspirada no quadro Déjeuner Sur l'Herbe, de Manet para o jardim de um palácio muito famoso na Grã-Bretanha. É composta por quatro elementos, três figuras de quatro metros, duas mulheres e um homem. homem está reclinado e a mulher de pé com o queixo apoiado na mão. quarto elemento será uma escultura que se assemelha a um assento. Assim, a pessoa pode sentar-se e juntar-se ao piquenique...

























