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O Tranquilo Desespero do Quotidiano.

As imagens de Paulo Nozolino marcam-nos e condicionam-nos o pensamento. É impossível permanecermos inertes perante a carga emocional da qual são portadoras. Sentimos a energia de uma pessoa que já passou por experiências marcantes e que mudaram o rumo da sua vida. Nasceu em 1965 e é um dos mais importantes fotógrafos portugueses da segunda metade do século XX. Começa por estudar em Belas Artes e em 1975 ruma a Londres, para estudar fotografia no London College of Printing até 1978. Não expõe pelo simples acto de o fazer, tem que haver algo a dizer, uma mensagem a transmitir. Caso contrário não faz sentido. É por essa razão que exposições como Far Cry, bone lonely, Penumbra, Para Sempre, entre outras, resultaram em livros e se tornaram incontornáveis. Na sua obra existem duas presenças fundamentais, a Leica e o Preto e Branco. A Leica continua a ser a arma perfeita e o preto e branco a linguagem per si. A citação de Edward Steichen é perfeita para o definir: «o preto e branco é a Greta Garbo e a cor a Marilyn Monroe». É através destas suas armas que nos vai falando de solidão, do abandono, da guerra, da destruição, da dor, da decadência, da desagregação. Apesar de cansado do conceito de viagem actual, as suas viagens continuam a ser a solução para a sobrevivência. Do deserto ao mundo árabe à histórica Europa, Nozolino percorre o globo para nos trazer imagens que nos calcam emocionalmente, mesmo quando complicadas de descodificar como uma racha na parede. Vive entre Lisboa e Paris e para ele não existe sítio ideal, o ideal seria estarmos bem em toda a parte.

Ressentes-te muito com os tempos actuais e a tua arte reflecte-o. O que mais te revolta actualmente?

A passividade, a cobardia, a falta de frontalidade, a arrogância, a prepotência do poder.

Fazes fotografia um pouco por todo o mundo. Fala-me da sensação de liberdade e da forma como escolhes os locais.

Tem mudado ao longo dos anos. No início era um pouco aleatório, costumava chegar ao aeroporto com a mala feita, olhar para o painel das partidas e escolher o destino. Era uma época em que não importava onde ia, e continua a não importar onde vou. O importante é partir e a viagem em si.  Viajar há 30 anos era bem mais fácil do que hoje em dia. Ainda havia uma certa magia em entrar no avião. Hoje em dia é uma banalidade. A necessidade de viajar ainda existe principalmente para sermos confrontados com outras realidades que nos remetem para aquela em que vivemos. Não quero fazer o discurso do elitista e dizer que no passado é que era bom e que o turismo de massas estragou tudo, mas é verdade. Perdeu-se um pouco da liberdade. Agora, para fugir realmente é necessário ir para sítios bem longe. Desde que o Chatwin foi à Patagónia todos têm que ir à Patagónia...

Preferes pessoas e ambientes urbanos ou simplesmente espaços neutros?

Procuro sítios que estejam carregados, de preferência uma carga histórica. No fundo o meu trabalho é sobre a história e tanto faz, sinto-me tão bem num descampado em frente a uma parede de tijolo como em Nova Iorque no meio de centenas de pessoas na rua.

Os ambientes e retratos que fazes nunca estão vinculados a um espaço e a um tempo. Porquê?

Desde o princípio que percebi que a fotografia tinha o poder da intemporalidade. Não faz parte de mim fotografar elementos que marquem uma época, seja pela forma como as pessoas estão vestidas, seja pelos carros. São coisas que tento eliminar para não as datar.

Apesar de fotografares um pouco por todo o mundo nota-se uma certa tendência para o mundo árabe. Porquê?

Foi um período, mas já acabou e deixou marcas. Há efectivamente uma empatia com esse mundo, foram 12 anos de viagens para lá, embora tenha a mesma empatia com os judeus que foram exterminados em Auschwitz.

O que te levou a Auschwitz?

É uma história muito estranha. Naquela altura estava a trabalhar sobre a Europa, embore ainda continue a fazê-lo, e é impossível pensar na Europa sem pensar no Holocausto. A chave da Europa que se constrói após a 2ª Guerra Mundial está em Auschwitz e era impossível não ir lá. Voltamos a falar de locais carregados, e aquele é um locar bem carregado. Estive lá uma manhã e nunca mais fui o mesmo. Mudou-me completamente, não só a mim como ao rumo da minha vida. Senti uma coisa impressionante que não é possível descrever em palavras.

Começaste por estudar pintura. O que te levou a perceber que a pintura não era o teu forte e a embarcar na fotografia?

Apercebi-me de que a pintura é um exercício que requer imaginação e paciência e eu não tenho nenhuma das duas. Não queria estar a cheirar terebentina a minha vida inteira dentro de um atelier e a olhar para uma tela branca. É preciso olharmos também para o contexto em que eu comecei a  fazer fotografia. Comecei antes do 25 de Abril e este país já era suficientemente opressivo para que eu me fechasse no atelier. A minha vontade era sair daqui e ver mundo, e a fotografia era a forma ideal. A máquina abriu-me portas que um pincel nunca abriria. Uma tela tem um tamanho que está predestinado. Eu prefiro seleccionar, ver a grande imagem do mundo e envolvê-la em quatro linhas brancas. Filosoficamente também é muito diferente. Uma coisa é escurecer o branco, que é a pintura e a fotografia é ao contrário. É o carregar num botão e deixar que a luz entre numa película negra durante “x” espaço de tempo e depois é o não ver o que se está a fazer. Uma magia perdida pelo digital.

Dizes que o olhar é uma espécie de lápis que se afia com a idade. O teu está mais afiado?

Eu gostava de pensar que sim. Já levaria essa frase mais longe dizendo que é um lápis que se afia com a idade à medida que se vai fazendo cada vez menos desenhos.

Fazes menos desenhos, mas mais pertinentes?

Sim, já há muita coisa que não me apetece desenhar, nem olhar para. Tais como o acessório, a trivialidade, a sociedade de consumo, o superficial, os bens.

Fala-me da tua ideia de aprofundar a carga histórica associada à Europa e da construção de uma espécie de puzzle.

Bom, o puzzle agora tornou-se maior. Antigamente estava circunscrito e agora a interacção das coisas é óbvia. A Europa deixou de ser uma ilha para passar a algo mais evolutivo. Antes era uma placa debaixo de um miscroscópio em que tudo estava bem definido. Actualmente com os fluxos de emigração e imigração, tornou-se mutante. Perderam-se os parâmetros históricos, em que as ideologias caíram, os economistas não sabem como resolver o problema e onde a religião não sabe dar soluções. As pessoas sentem-se perdidas e o puzzle está a ficar com uns contornos pouco definidos. No entanto, continuo a achar que o epicentro ainda está no império austro-húngaro e que é daí que tudo erradia. Há que continuar a olhar para ele.

Numa entrevista referiste Jack Kerouac. Influenciou-te de alguma forma?

Ele influenciou toda a minha geração. On the Road foi um livro que fez parte da minha vida durante anos. É toda a liberdade, a vontade de fazer quilómetros e de experimentar tudo. É um livro mítico e Kerouac era um génio. Ele foi uma espécie de farol que nos deu esperança. Era o descobrir e olhar para as coisas do quotidiano.

E influências a nível de cinema e música?

A nível de cinema foi Bergman, Antonioni, Tarkovsky. E música foi Dylan, Cohen, Patti Smith. A nível de escrita foram muitos. Tenho um bom relacionamento com escritores, sobretudo com poetas. Acho que a poesia é uma forma de depuração da sintaxe e da palavra que é muito semelhante à prática fotográfica. Não é por acaso que tenho sido sempre associado a poetas. Falamos das mesmas coisas, as preocupações são as mesmas...

O que estás a fazer actualmente?

Em Julho vou aos encontros de fotografia de Arles, a última vez lá que estive foi em 1986. Vou ver pessoas que não vejo há muitos anos e vai ser uma espécie de viagem na máquina do tempo.

Sentes-te apreensivo?

Sim, porque é horrível ver como os teus amigos evoluiram e a forma como o dinheiro e o reconhecimento deslumbra as pessoas. Parece que para os fotógrafos hoje em dia, a vida que levam é mais importante do que as fotografias que produzem.

O que vais apresentar?

Uma projecção de Far Cry em forma de DVD e a exposição bone lonely ao lado.

Já estás a planear uma próxima viagem?

Penso ir para Leste, onde faça frio, onde as paredes estejam rachadas e onde ainda se encontre um pouco de humanidade.

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