Que a Miley tem tiques da Madonna, que já se twerkava muito antes de ela se roçar no Robin Thicke durante a actuação dos VMA’s, que a língua gigante por onde entra em palco já foi usada pelos Rolling Stones num concerto, isso já todos nós sabemos. E daí?
Não é por ser acusada de imitação e plasticidade que deixa de ser um ídolo desta geração de jovens adolescentes. A verdade é que o recinto do Meo Arena, apesar de meio cheio, transbordou de cor, luz e fantasia. Pitas histéricas (e as suas mães), gays ao rubro, fãs dissimulados, entre outros, esperavam com ansiedade a épica entrada da cantora, coberta de plumas e glitter descendo por aquele escorrega vermelho fora.
E pronto. Quando pisou o palco a festa estalou durante duas horas que nada tiveram de chatas ou monótonas. Muito pelo contrário. A produção espectacular de cenários mirabolantes que iam desde os cartoons alucinogénicos projectados no ecrã, aos dançarinos vestidos de peluche, à parafernália de luzes, confetis e balões, à cama onde se simularam actos sexuais com bailarinos negros, o carro dourado onde se deitou vestida com notas de dólares, já para não falar do hot dog suspenso que a hot girl montou para se despedir do público, fizeram do concerto um autêntico mundo imaginário infantil e erótico.
Com uma setlist impressionante, a cantora fez a revista a todos os temas do seu álbum Bangerz, deixando para último os dois hits pelos quais a plateia esperou sem parar : We Can’t Stop e a demolidora Wrecking Ball. Mas os corações de pedra derreteram ao som da balada Adore You onde Miley pediu a todos os pares românticos que se beijassem apaixonadamente. Para além do seu repertório de canções revisitou clássicos, num palco mais pequeno e intimista no centro da arena, como Lonesome When You Go de Bob Dylan e Jolene de Dolly Parton, onde mostrou que a sua versatilidade vocal consegue viajar do country aos hinos pop como Summertime Sadness de Lana del Rey e Hey Ya dos Outkast, passando pelo rock melancólico dos The Smiths com There is a Light that never goes on e até mesmo The Scientist dos Coldplay.
Se calhar tudo isto representa o limbo da idade mental que Miley ainda não soube ultrapassar. Ou talvez saiba mas não lhe apetece porque “she doesn’t give a f***”. O que é compreensível vindo de alguém que nasceu no universo casto e puro da Disney (que também ele se desfoca por vezes em mensagens subliminares quase pornográficas) e se queira agora emancipar da imagem de eterna princesa. Este atrevimento soa à rebeldia de quem ainda não descolou da infância que lhe antecedeu. Mas mais cedo ou mais tarde Miley teria que descobrir que a sua voz e o seu corpo são muito mais do que uma Hannah Montana e aos 21 anos esta menina que ainda não é mulher, ou mulher que não quer deixar de ser menina, decidiu sair do armário, despir os lacinhos e folhinhos e trocá-los por bodys cintilantes e saltos altos e provocando o mundo com o que ainda não deixou de ser tabu: o sexo.
No entanto este desequilíbrio entre a pujança da sua língua de fora, o abanar de rabo ou gestos lascivos, e a doçura das baladas que (ou)vimos no passado Domingo encontramos uma cantora e performer que sabe conduzir um espectáculo daquela dimensão, dominar o palco e entreter o público.
Porque se Miley nos ecrãs é um bom-bom, ao vivo é o bolo de chocolate inteiro.
E quem não gosta, gostasse!

