2. Volmer & Burroughs aka Venus opposition Pluto
Segundo reza a história, lenda, diz que disse ou o que aconteceu, Burroughs decidiu simular a acção de um homónimo com um copo, uma cabeça e uma bala. Volmer tinha 28 anos, e Barnabé Jurado, na altura, advogado de Burroughs deve ter contribuído de forma criativa no registo da sua finitude. Até lá pouco ou nada produzia e Joan vivia como útero do movimento Beatnik. A sua morte foi o suficiente para o ressuscitar. Numa introdução do seu livro Queer o próprio explica tudo o que se seguiria: “…the death of Joan brought me into contact with the invader, the Ugly Spirit, and maneuvered me into a lifelong struggle, in which I had no choice except to write my way out". E longo foi o processo de saída sem nunca ter ficado verdadeiramente entalado na porta com o sentimento de culpa latente em grande parte da sua escrita. Continuou abrindo janelas e semeando correntes de ar com este compromisso.
Para retratar este duo de aquarianos em desencontro (Joan de dia 4 e William de 5 de Fevereiro) ela desarmante e venusiana, ele penetrantemente plutoniano, precisei de escolhas de natureza fixa. Já tendo o contacto da Marta Melro para a Joan (coincidentemente loira como Love no filme Beat), a única pessoa que achei que poderia desempenhar Burroughs era Nuno Melo. Por ele sujeitei os meus pais durante a minha infância a longos serões de Camilo e Filho só porque sim. E desde então só o consigo imaginar completamente em casa dentro do universo de Edgar Pêra. Isto porque a intensa e deliciosa contradição de que é feita o Nuno torna insuportável pensar que este tipo de complexidade em vez de desafiar, assusta tanto que é sempre convidada para abrigar o mesmo papel em modo deja-vu. Por isso, quis pôr a mesa e convidar o Burroughs que existe nele. Para o almoço havia uma mão extra (amazing work of art by Helena Baptista e Rita Anjos), uma máquina de escrever, um copo com tinta acrílica e uma maçã pintada de preto.
A escolha do espaço foi meticulosa. Quis um cenário com um ar gasto, nobre e amplo. Que carregasse uma história. A pesquisa levou-me até ao magnífico espaço que alberga a Trienal de Arquitectura de Lisboa, o Palácio dos Condes de Sinel de Cordes. Com o nome e vida de uma linhagem de carrascos pareceu-me excelente (do Santo Ofício a escola primária, this was the place). A sessão teve lugar a 9 de Fevereiro de 2013, ao final da tarde sempre a lutar pelos poucos minutos de luz possível. Ficaram as histórias que o Nuno foi contando sobre a rodagem do Manual de Evasão com Terence McKenna metido ao barulho, a narrativa de uma aposta que o enviou para perto da casa de Burroughs em Marrocos e a energia da Marta que de roupa interior ensaiava o melhor que uma femme fatale pode oferecer em lingerie com pele de galinha e uma arma de plástico na mão.
She shot him. I shot them both; I think they’re even now.


