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80 000 léguas depois, ei-lo de volta

Uma carrinha Wolkswagen, 33 dias e 33 concertos. Cada ponto no mapa, uma história, um novo alento e muito para recordar. Agora de volta a Lisboa, Luís Nunes, ou melhor Benjamim, fala-nos do país que foi conhecendo, do misticismo em torno do mês de Agosto, da construção de uma tournée, das ideias e projectos para o Alvito, um ponto maior no mapa? e perspectiva o regresso ao Vodafone Mexefest.

33 dias - 33 concertos. Alguma conjugação subliminar (não nos esqueçamos que Cristo morreu com 33 anos)? Algum sentido de urgência? Um desafio auto imposto?

A ideia que tivemos deu-se num jantar. Um mês na estrada, de 15 de Julho a 15 de Agosto. Depois surgiu a necessidade de ser de 14 de Julho a 15 de Agosto. A 15 de Julho estava marcado o primeiro concerto para Santa Maria da Feira, mas queria começar no Alvito. Estávamos convencidíssimos que isso daria um mês. Quando começámos a contar as datas o meu agente é que me disse que eram 33. Esta é a simples razão do 33. Como vês não há nada de oculto ou simbolismo escondido.

Por outro lado, a urgência motivou muito esta tour. A urgência porque é um projecto novo que mal começou, algo que fosse memorável, que fizesse sentido. A urgência do projecto crescer, de aprender a tocar estas canções ao vivo e só com uma tareia de 33 dias é que conseguia fazer isso e pensado bem, 33 concertos, em 33 dias, durante o Verão isso tem obviamente impacto, não só por estar tudo condensado e as pessoas se lembrarem desta tour, mas também porque permitiu viajar, criar um buzz à volta da coisa, e também nós os vivemos de uma forma diferente, em vez de serem concertos dispersos. Também porque gosto de perceber, de me confrontar com o público. Das festas populares aos Bons Sons e compreender como esta interacção se faz. Por último, há um lado prático – ninguém está rico, ou pretende ficar com a venda de discos, mas se editas um (Auto Rádio, Pataca Discos, 2015), tens a pretensão de o vender e de o vender nessa tour, porque vai ser aí que vais abater a maior parte da dívida.

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Como foi desenhada a tour? Novos lugares que querias conhecer? Quais os critérios que estiveram subjacentes?

Tenho um agente que me ajuda na marcação dos concertos. Isto exige uma logística e um esforço descomunal. O número de concertos, acrescido de serem em dias seguidos – tudo tem de bater certo. Mas nem sempre foi assim. Houve muitas alturas em que andámos de cima para baixo e de baixo para cima. Agarrei no mapa de Portugal, daqueles antigos do ACP e fiz bolas nos lugares onde queria passar. Uns concretizámos, mas outros não, nomeadamente Évora. Depois do impulso inicial de desenhar bolinhas no mapa, tens de pensar no orçamento, no equilíbrio entre aqueles concertos que à partida sabes que não vais ganhar tanto dinheiro com os outros. Desta forma priorizamos os concertos maiores e fomos encaixando as peças, quanto mais não seja para pagar o gasóleo. É claro que um dos grandes aliciantes é ir a sítios que quase ninguém vai, reforça o caracter aventureiro de uma coisa destas. Fugir ao circuito normal. Não quer dizer que não haja bandas que não façam concertos nesses sítios, mas é antes criar uma espécie de circuito alternativo. Dizer muito simplesmente às pessoas que o que fazemos é música e que queremos partilhar, não somente com uma pretensa elite esclarecida de Lisboa, mas que todos possam ouvir, independentemente de gostar ou não gostar. E outro critério que não dependeu de nós, no fundo, foi onde nos deixaram tocar. Por exemplo, tínhamos 32 datas marcadas até ao meio da tour e também alguns buracos lá pelo meio que fomos resolvendo pelo caminho, houve outro buraco com 24 horas de antecedência. É um lado de desenrasca que faz parte da viagem.

Já tinhas feito uma volta parecida com esta?

Não, talvez o mais parecido foi quando fui buscar a minha tralha toda a Londres, em que eu e um amigo viajámos de carrinha de Lisboa até Londres, passando por Espanha, França e Inglaterra. Por vezes tínhamos de fazer 900 km num dia. Esta viagem serviu como uma espécie de preparação psicológica, eram também longas horas na estrada, ao sol, cheio de material.

Nesta tour eram um pouco mais. Como foi passar tanto tempo juntos?

A ideia original era ir só um carro, no entanto o Manel Sampaio, que entretanto se tornou o meu técnico de som, estava sem nada para fazer no Verão, e como muitos dos sítios onde fomos não estavam equipados, aproveitámos a boleia para levar o PA, a mesa de mistura, o rack de efeitos, os tripés, todos os cabos e até uma stage box de 30 metros para poder tocar em qualquer sítio. Na verdade foram dois carros, à pinha, mas mesmo assim, partilhávamos muito tempo juntos, espaços exíguos, quartos de hotel não muito maiores. Foi óptimo, nunca nos chateámos. Além disso o Wolkswagen comportou-se super bem, apesar de estar a sofrer as consequências.

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Quais os momentos que recordas ao fim destes 33 dias?

Sinceramente todos. Na Taberna do Arrufa, em Cuba, onde planeámos a tour durante um jantar, facto que mencionei durante uma entrevista na Antena 3, e que eles ouviram. Assim, quando chegámos lá, tinham desmontado o palco do interior da Taberna e colocaram-no no terraço, penduraram uma bicicleta, furaram as paredes para pôr umas colunas. Tinham estado até às 9 da manhã do dia do concerto com esta trabalheira. Ver esse empenho, o esforço que as pessoas têm para que a tua ideia tresloucada se concretize, obviamente que é muito especial. Os Bons Sons pelo ambiente, a atenção com que o público nos ouviu e a respectiva reacção e o dia a seguir na Figueira da Foz em que o dono do espaço se tinha esquecido que íamos lá tocar. Nos Bons Sons tocámos para 800 pessoas e nesse dia para meia dúzia. Isto resume a tour – o imprevisto, os momentos de auge e os momentos das pessoas que se esforçam muito para te receber.

Pensaste em ter bandas de suporte de cada terra ou nem se chegou a colocar essa hipótese?

Em termos logísticos tornava-se difícil, mas o AP Braga tocou várias vezes comigo, por exemplo na ZDB, na Ericeira já depois da tour. Não é que não quiséssemos, logisticamente é impossível.

Agosto? Alguma coincidência ou é em verdade o mês mais querido?

Longe de ser coincidência. Agosto, mas também Julho é o momento em que as pessoas estão de férias. Pode-se fazer um concerto todos os dias e evita-se andar debaixo da chuva e do frio. Depois também são os meses das festas.

33 dias deu para ver muita coisa? Com que imagem ficaste? A de uma país estagnado?

Retenho várias imagens, por um lado sabemos que o país está estagnado em vários aspectos, mas também encontrei muita malta interessada – desde pessoas que foram de longe só para nos ver tocar, pessoal que vai ver, compra os discos e no final também vem falar, pessoal que quer fazer coisas. É um país muito diverso, onde se come bem, tem um bom clima e sobretudo muita malta disponível para receber e ouvir. Estou sempre a dar este exemplo – tocámos nas Festas Populares de Vizela; Augusto Canário no palco principal e nós no secundário com gente a ouvir e a curtir. Aliás, ainda houve malta que nos viu em Vizela e estava no Nos Debandada, Porto, a curtir na primeira fila. Passa muito por tu ires à procura das pessoas. Se te meteres com eles, eles reagem.

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A vossa viagem ficou documentada?

Está toda documentada. Estamos a fazer um filme. Sou eu e o Gonçalo a ter esse trabalho. Mais do que ser só sobre a tour, vai ser um filme – entrevisto algumas pessoas, vai ser sobre Portugal, sobre a rádio, mas ainda não sabemos o que é que vai dar.

Voltando ao ponto de partida – Alvito. Vai ser só o teu estúdio em que vai lá malta gravar? Que ideias tens?

Nós, e quando digo nós, refiro-me a outros amigos como o Gonçalo que fez o vídeo, temos vários planos, nomeadamente, com pessoas de lá, que estão a fazer coisas. A ideia inicial era ter o meu estúdio, depois pretendi fazer o vídeo, pretendi mostrar às pessoas o que estava a fazer, porque me conhecem do dia-a-dia, por isso quis mostrar que não sou um gajo que está enfiado num buraco. E ao dar a conhecer, quis que elas fizessem parte daquilo que eu faço. O estúdio não tem nome, vem referido como – gravado no Alvito. Também temos o plano de fazer residências artísticas, de integrar outros artistas de outras áreas. Criar uma espécie de polo, aproveitando a localização fantástica do Alvito. Sendo ao mesmo tempo longe, mas estando a 1 hora e 30 de Lisboa, perto de Évora e Beja. Planos há, agora é ver como os mesmos se concretizam.

E em Lisboa, no Vodafone Mexefest, como vai ser?

O palco em si, já vai tornar o concerto bastante diferente. É um palco aberto, grande (Estação do Rossio, 28 Novembro, 21h20 - 22h10). Mas mais do que pensar em fazer coisas muito diferentes, é pensar – como é que num palco destes vai soar grande. Vai ser uma banda alargada onde teremos mais três músicos, que serão o AP Braga, que vai cantar a Rosie do novo disco, o Pedro Girão que irá tocar sintetizador modelar, umas partes electrónicas que já toco ao vivo, mas que ele leva para outro nível e um amigo meu inglês o King, que irá tocar umas precursões.

Tu que és gajo habituado a fazer círculos no mapa e roteiros, qual vai ser o teu para o Vodafone Mexefest?

Gostava muito de ver o Ariel Pink, mas vai tocar à mesma hora do que eu. Ainda não me debrucei muito sobre o programa. Estou mais preocupado em como é que isto vai acontecer e se vai organizar, e vou tocar duas vezes, também vou estar no Blackout Room. Gostava muito de ir a Nicolas Godin, gosto muito de Air. E também Beuatify Junkyards, que vão tocar na Igreja dos Franceses e que nunca tive oportunidade de ver.

E depois do Vodafone Mexefest?

Mais estrada, a norte – Guimarães, Vila Real e Bragança. No estrangeiro não está nada pensado, porque ainda temos o país para conquistar (risos).

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