Fotografias: Vodafone Mexefest / ETIC.
O rebuliço, o habitual. Os cafés em torno do Coliseu cheios. Falar com os amigos, trocar impressões sobre o que se viu e deseja ver e agenda a cada cincos minutos marcada. Deixar concerto a meio, Curtis Harding, e procurar a clareira que nos estaria destinada. Os momentos que temos e queremos para nós, para as nossas memórias e para os pensamentos que se desatam a cada melodia. Sharon Van Etten tem essa capacidade. Abre espaços. Fala para cada um, mesmo em volta de muitos. Canta com sentimento. E consegue-o com uma capacidade ao alcance de muito poucos – com canções bem estruturadas, melhor tocadas e com um humor único e desarmante. A guitarra quase do seu tamanho, mas repleta de alma. O mesmo quando passa para as teclas. Temas como Afraid of Nothing, Taking Chances, Your Love is Killing Me, Save yourself são apenas exemplos de tantos outros do concerto mais marcante do segundo dia do Vodafone Mexefest. No que St. Vincent era electricidade, riffs de guitarra, na Sharon melodias e acústica. É, também, discurso curto e certeiro – quando se surpreende por ver alguém com o seu nome escrito na testa, quando faz piadas sobre calções ou apresenta temas novos que são excelentes lados B – I Don’t You Let You Down. E, sobretudo, quando se faz acompanhar de músicos do calibre de Heather Woods Broderick que na voz e teclas e com a mestria dos eleitos, sem se impor, consegue amplificar a voz de Sharon e incrustar camadas que tornam as músicas sublimes.
Nas memórias, neste caso estivais, encontrava-se Perfume Genius. A primeira visita, aquando do Super Bock Super Rock, num final de tarde, tinha despertado a curiosidade, para novo encontro. O lado melancólico, tristeza à flor da pele, uma fragilidade desarmante. Um cristal, uma filigrana. São momentos que não se esquecem. Mas, como te apropriares daquelas canções? Como fazer parte daquele universo? Como sentir o que te dizem como teu? Mesmo sabendo que Too Bright, considerado um dos melhores álbuns do ano e melhor nova música por publicações de referência, e mesmo assim não sentir emoção? Duas hipóteses – tens coração empedernido ou escolhes outro? Tendo ambas como válidas, partir em direcção à Garagem da Epal. Sensible Soccers, também eles, com excelente trabalho (8) e procurar no mar de Vila do Conde o perfume do sargaço que te conforte e te recompense, em parte, pelo que antes havias perdido. Duas músicas, somente duas, mas a confirmar que aqui se encontram uma das bandas mais estimulantes do panorama musical. Já tinha sido assim na ZDB, e que concerto, e, uns meses mais tarde, no Milhões de Festa. A sensação de perda estava reparada.
Vodafone Mexfest é, e muito, opções. Num dia com sobreposições a , tanto ficou por ver – Jay-Jay Johanson (como seria agora, após o concerto no Campo Pequeno de 1998?), Palma Violets, Cloud Nothings e Duquesa, projecto a solo de Nuno Rodrigues (The Glokenwise), com banda a acompanha-lo, e o único capaz de cantar sobre freguesia recôndita do norte do país (Darque) ou sobre prazeres insubstituíveis como comer um gelado.
Antes de se correr cortinas e dar por encerrada mais uma edição – Wild Beasts. Colectivo britânico de Kendal, com álbuns na bagagem como Smoothers, Two Dancers e o mais recente e muito aclamado Presente Tense (9/10 - NME). Talvez se encontre na cinzenta e distante cidade de Kendal, juntamente com a paixão pelo Fauvismo, a composição mais aproximada para descrever um concerto dos mesmos. Momentos intensos, negros, de matizes electrónica mas carregados de pinceladas pop dançável e mais alegre – Hooting & Howling, Palace, A Simple Beautiful Thruth, We Still Got The Taste Dancin' On Our Tongues serão apenas alguns dos temas que deixaram o Coliseu a abarrotar, terá sido falta de opção?, e a implorar por mais.
Seremos, como nos lembrava Sharon Van Etten, um bando de noctívagos (“Every time the sun comes up, I'm in trouble”), com o medo do nascer do dia? Ou simplesmente a vontade de ver e ver mais um concerto? Cada um a sua resposta. Mas daquela azáfama entre o Cinema São Jorge e a Estação do Rossio fica saudade e vontade em, para o ano, lá voltar.







