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No dia 19 de março, no Brownie, o DJ português Pan Sorbe vai instituir um novo capítulo na relação à distância que Lisboa mantém com a música disco – da sua fase clássica de 1970 a, digamos, 1981 – tirando os melómanos mais atentos. Por isso o nosso perito da casa sobre a música discosound, antigo residente de Nova Iorque e igualmente DJ, Colin Ginks, está prestes a dar esta lição intensiva – em 10 temas fundamentais – sobre:

A Importância de Ser Disco

1. Taana Gardner: Heartbeat

Como é possível uma música que provavelmente nunca ouviram falar, ser o melhor exemplo do discosound de sempre?

Bom, vamos por partes. Já estamos nos finais dos anos 70, depois do backlash mediático da Disco Demolition Night (o Neandertal branco, hetero e roqueiro a dar o dedo às gajas, aos pretos e aos paneleiros) em Chicago, onde na mesma altura o jovem DJ Frankie Knuckles está a pôr música para os fiéis na discoteca Warehouse (e aos poucos a descobrir um novo género de dancemusic, o tal house).

Enquanto em Nova Iorque, a promiscuidade do fervilhar criativo de vários géneros (disco, new wave, os primórdios do hip hop no Bronx) sempre impede que a banalização se instale.  Na discoteca Paradise Garage, o temperamental DJ Larry Levan enche a pista (maioritariamente de cor negra) com o seu gosto pela experimentação e ousadia, sempre em nome do disco. Aponta para o futuro. É por isso que coloco este tema aqui, porque Larry Levan é Deus (morreu em 1992 de complicações cardíacas, após anos de sérios abusos tóxicos). Dizem as más-línguas que nunca foi o mais proficiente na mesa de mistura. Este tema (que aliás serviu de sample de Ini Kamoze – Here Comes the Hot Stepper, em 1995) cantada com uma dose ampla de desespero pela sua discípula Gardner, anda a uns parcos 97bpm. Ouça o coração a bater. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas conseguir mixar?

Gosta disto? Experimente: Loose Joints – Is It All Over My Face?; Talking Heads – I Zimbra; Taana Gardner – Work That Body

2. Sister Sledge: Lost in Music

A primeira de duas músicas da chancela dos wunderkinds Nile Rodgers e Bernard Edwards dos inegáveis Chic. No início da sua colaboração, estas três irmãs bastante religiosas tiveram problemas com as letras hedonistas dos seus progenitores. Aqui, trata-se de uma rapariga que busca a sua epifania na pista de dança. O emprego, o sexo e o conformismo, podem esperar.

Gosta disto? Experimente: Sister Sledge – He’s the Greatest Dancer; McFadden & Whitehead – Ain’t No Stopping Us Now

3. Candi Staton: Young Hearts Run Free

Este tema tem algumas das letras mais sublimes e inteligentes da inteira história da música popular. Ponto final. Emancipação, auto determinação, feminismo. A Beyoncé nem lhe chega aos calcanhares, 40 anos depois.

Gosta disto? Experimente: Odyssey – Native New Yorker; Chaka Khan – I’m Every Woman

4. Loleatta Holloway: Hit and Run (Walter Gibbons 12” Remix)

Loleatta é dona de uma voz esmagadora (hello Black Box: Ride On Time). Walter Gibbons foi um dos pioneiros da 12” mix, que as editoras na altura apenas disseminaram gratuitamente entre os DJ's. Resultado: nirvana para os pés, conseguida durante um único take. Também samplado em 7m22s para o tema Throw do projecto house de Carl Craig, os Paperclip People.

Gosta disto? Experimente: Diana Ross – Love Hangover (Tom Moulton Unreleased Version); Dee Dee Bridgewater – Bad For Me

5. Thelma Houston: Don’t Leave Me This Way

Há músicas que aparecem nesta lista, só por serem perfeitas, ‘tá? Que vão ao fundo das questões essenciais da vida: o amor, o desejo, e a solidão, ligados à necessidade da catarse, na pista de dança e na alma.

Gosta disto? Experimente: Rose Royce – Car Wash; Michael Jackson – Don’t Stop Till You Get Enough

6. Sylvester: You Make Me Feel (Mighty Real)

Os gays, nas pistas da Paradise Garage (negros); da Flamingo (brancos); e do Studio 54 (ricos e/ou bonitos) sempre fizeram a festa de libertação sexual. E conquistaram os ingénuos tops do mundo inteiro (com os Village People qb). Não havia dúvida portanto, que Sylvester, elemento importante do grupo de performance The Cockettes de San Francisco – tanto como Divine – era entre os poucos considerados assumidíssimos e poderosíssimos. A produção, electrónica, foi da responsabilidade de Patrick Cowley, figura fulcral na evolução do fenómeno hi-energy da discoteca também nova-iorquina The Saint. Ambos morreram cedo, com complicações devidas ao vírus de Sida.

Gosta disto? Experimente: Sylvester – Do You Wanna Funk?; Boy’s Town Gang – Cruisin’ The Street; Easy Going – Do It Again

7. Chic: Good Times

Afinal, não eram nada bons tempos. Mas a pista foi para alguns a solução: egualitária, livre de preconceitos e do stress do dia a dia. Os Chic eram devoradores das tendências mais vanguardistas da época; as suas melhores músicas eram a ligação directa do motorik do Trans Europe Express com o soul negro. Os Daft Punk agradeceram da melhor forma em 2014, com o tema Get Lucky.

Gosta disto? Experimente: Chic  – Le Freak; The Whispers – And The Beat Goes On

8. Eddie Kendricks: Date With the Rain (12” version)

1970. O Loft abriu na downtown de NYC, no enorme espaço privado onde vivia o profeta do beat David Mancuso. Não se servia bebidas alcoólicas; não se assediava os seus muitos fiéis gay, nem as mulheres nem os negros. Muitos dos que acabaram por ser figuras emblemáticas desta revolução dos pés – Levan, Knuckles, Tom Moulton, Walter Gibbons – passaram e aprenderam aqui. Outro deles, Nicky Siano, foi mestre na criação de ambientes, mais uma lição do Loft. Com efeitos de luz e gigantes ventoinhas, criava estados de êxtase transcendais nos seus peregrinos. Se o público não estivesse com ele, reinava a subjugação quase sádica à tempestade. Eventualmente, Siano durante alguns tempos foi DJ da casa da Studio 54, tal foi a sua fama, mas ele era demasiado criativo, e imprevisível para que isso durasse.

Gosta disto? Experimente: MFSB – Love is the Message; Manu Dibango – Soul Makossa

9. Donna Summer: I Feel Love

OK, este tema pode ser sim o melhor tema disco de sempre, tanto como pode ser o melhor tema de qualquer género na história da música moderna mas é tão fora – tão além disco – que mais parece um Ovni aterrado na terra. Segundo reza a lenda, depois de o ouvir um dia em Berlim, Brian Eno correu directamente para o estúdio onde Bowie estava a gravar Low para dizer que tinha ouvido o futuro. David só pode ter ficado lixado com a notícia. Temos de agradecer ao Giorgio Moroder, claro. Os Daft Punk? Vejam só o teledisco dos Space, mais abaixo.

Gosta disto? Experimente: Space – Magic Fly; Cerrone – Supernature

10. Gloria Gaynor: I Will Survive

Desculpe, mas esta música é incriticável. Se não gosta, só pode ser masculino, branco, machista e homofóbico. Curiosamente, Donna Summer nunca foi considerada a diva gay do disco por excelência – esta honra sempre coube a Gaynor, talvez por procurar mais assiduamente a aprovação do público homossexual. E tal e qual como diz a letra, os gays sobreviveram, e a música disco também, que continua(m) a influenciar cada nova geração após geração.

Gosta disto? Experimente: Bee Gees – Stayin’ Alive; France Joli – Come to Me

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