MÚSICA

  • none

Carlos Paredes, Steve Reich, Sigur Rós, Amália e se a todos eles juntarmos Richard Wagner, torna qualquer tentativa de catalogação exercício espúrio. As ligações entre ambos encontram-se nas margens, na imaginação, na vontade em inovar, de tornar as composições práticas exploratórias, em incorporar o impacto da primeira vez. Se apontarmos para Kronos Quartet talvez comece a fazer sentido. Quarenta anos, por extenso, para melhor calibrar uma carreira de números impressionantes – digressões anuais de cinco meses, colaborações com inúmeros autores contemporâneos participando em mais de 800 composições e sem nunca deixar de estar atento aos mais jovens e os mesmos apoiar através do programa de residências artísticas – Kronos: Under 30 project.

Quarenta anos, novamente por extenso, como exercício de repetição, qual Bart Simpson em quadro da escola, para não esquecer. A importância deste quarteto de cordas americano é motivo para deixar qualquer um de mandibula bem suspensa. Tenha sido a primeira vez ou não, recordo com especial carinho concerto no Rivoli (Porto) em 1998, todos os espectadores que quase lotaram o Grande Auditório da Gulbenkian, no âmbito do Misty Fest, encontravam-se bem cientes da grandeza do momento. David Harrington (violino), John Sherba (violino), Hank Dutt (viola) e Sunny Yang (violoncelo) celebraram efeméride com uma particular volta ao mundo, ao mesmo tempo geográfica e musical. A diversidade dos temas e respectivos arranjos são bem demonstrativos da qualidade do quarteto, da sua imaginação e versatilidade. Temas como Aheym (Bryce Dessner), Last Kind Words (Geeshie Wiley), seguido de Tristão e Isolda (Ricahrd Wagner), definitivamente não poderia ter havido melhor sequência, são exemplos maiores do que nos mantém cativos e permanentemente atentos às combinações engendradas por cada um. É neste registo que não só melhor se enquadra a proposta de Kronos Quartet, como sobressai, em toda a amplitude, o carácter inovador do quarteto. Em contraponto, talvez por ser exercício redondo e inconsequente, temas como Flugufrelsarinn (Sigur Rós) padecem do nervo, da obsessão quase esquizofrénica, das repetições prenhes que ressaltam em 12/12 (Café Tacuba), em Verdes Anos (Carlos Paredes), em Flow (Laurie Anderson) e, sobretudo, em Different TrainsAmerica - Before de War; Europe - During the War; After the War (Steve Reich), último tema de um concerto de quase duas horas antes do encore final.

Pensar que tudo começou em 1973, com Black Angels de George Crumb que David Harrington ouvira na rádio e respectivo fascínio por copos, spoken word e efeitos electrónicos. Provavelmente, tal como nós, numa noite de momentos de cronologia invertida, onde o futuro se aproxima um pouco mais do presente.

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: